::Teddy’s sorrow – parte3::

Postado em Quase literatura em 01/06/2012 por Rodrigo

(Verifiquem nos arquivos o início dessa porqueira…)

E como era o namoro dos dois? Era o namoro de todo mundo, com sexo, sorvete, ciúme e – quem diria? – uma cervejinha de vez em quando.Claro que Teodoro não deixou de ser o cara tímido e esquisitão magicamente. Sempre teve muito medo de levar Natália em sua casa, por causa da mãe ciumenta e descontrolada que ele tem.Desconfiava muito dos amigos dela, que ele sabia (e até não devia estar errado nesse saber) que falavam mal dele pelas costas e diziam que ela merecia coisa melhor.
Quinzes aninhos, companheiros! O que pode ser melhor que um namorado com emprego, usando o salário pra malacostumar a amada?
Acho que os dois faziam muitos planos. Deviam fazer, pra levar o Teodoro a tomar as infelizes decisões que acabou tomando depois. Não sei, mas acho que devia ter a ver com casamento, lua de mel na Argentina, filhos criados em colégios particulares. Todo idiota quer casar e ter filhos pra tentar consertar as cagadas que os pais fizeram com eles próprios, mas a única coisa que conseguem é descontar nos filhos as tais cagadas, com juros de geração.
Um namoro assim tão bonito, tão comprometido, acaba ficando meloso. O tempo do Teodoro era quase exclusividade da Natália. Quando não estava com ela, estava fazendo coisas pra ela. Escola era segundo plano, trabalho, terceiro e sei lá se ele ainda lembrava que tinha família.
E a mãe do Teodoro, cada vez mais preocupada com esse namoro do filho, começou a perturbar. Isso porque aquele menino prestativo, calado, trabalhador, estudioso e insosso passava cada vez menos tempo em casa, mais tempo em lugares que ela não sabia onde ficavam e pecado dos pecados – começava a piorar na escola.
Uma noite, quando Teodoro chegou em casa, encontrou os pais esperando na sala. Deve ter ficado surpreso porque isso era raro, eles normalmente já estavam dormindo àquela hora da noite. Para definirmos a expressão no rosto da mãe, podemos colocar dor e pena em doses iguais, mas acrescentemos duas pitadas de crueldade e uma colher de chá de sadismo puro. Cinismo à gosto. Já o pai estava com seu costumeiro ar encabulado, de quem precisa dar um sermão em que ele não acredita e que, na verdade, ele não tem nenhuma moral pra dar.
No sermão, Teodoro ouviu falar sobre responsabilidades, prioridades na vida de uma pessoa, sobre a obrigação dever ser colocada sempre na frente das diversões. Ouviu os pais reclamarem de sua ausência (menos o pai e mais a mãe), do seu menosprezo com a família (e aqui entra uma elucidativa palestra sobre a importância da família para a formação da sociedade cristã, capitalista e injusta). Teodoro era o pior dos filhos, o pior dos alunos e o pior dos trabalhadores. E era muito novo para colecionar tantos títulos. Os pais terminaram dizendo que esperavam que ele refletisse e tomasse a decisão mais correta e que visasse seu bem estar e a normalidade das vidas de toda a humanidade (onde devemos entender que toda a humanidade seja a mãe do Teodoro). Todos se abraçaram mecanicamente e foram deitar. O pais iam dormir e Teodoro ia passar a madrugada pensando.

::macaquinhos no sótão::

Postado em Quase literatura com as tags em 03/05/2012 por Rodrigo

Teodoro se sente desesperado como todo psicótico. Psicótico: aquele que vive uma realidade diferente da realidade dos outros. Idealista.
Teo pensa “Se eu abrir aquela revista em uma página qualquer e encontrar uma grande foto de mulher morena de saltos, isso fará Natália voltar”. Ele nunca encontrou a foto que esperava, mesmo quando apelou para os maiores estereótipos, como a loira com uma lata de cerveja ou o empresário negro com cabelo trançado. O que, estranhamente, colabora com sua psicose…
Teve uma fase em que trabalhava pouco, sempre tentava escapar do serviço para ligar pra casa, ver se Natália tinha ligado.
“Não, Teo, ninguém ligou.”
“Então desliga! A gente está ocupando a linha!”
O emprego durou pouco e ele passou uns bons dois meses sem aparecer na casa velha, ficando só no apartamento da mãe. Ela, muito preocupada, ligou pro antigo patrão, da firma de potes de vidro, e explicou a situação. O sujeito era um capitalista quase insensível, mas sempre adorou o Teo (que trabalhava como uma máquina) e resolveu quebrar o galho. Se ele voltasse lá, readmitiria o menino. Quando ela deu essa notícia, Teo correu lá pra casa de novo.
No segundo dia em que ele estava lá, agindo como quem não quer nada, eu desconfiei. João disse que ele saía ali pela hora do almoço e voltava só depois de três da tarde, triste e louco como uma bibliotecária velha. Ficava bebendo vodka até apagar. No terceiro dia eu estava de folga e fui atrás dele. Descobri que ele estava indo até a Escola da Natália, para segui-la até em casa. Aparentemente era só um doido inofensivo, mas ela estava com o namoradinho e eu previa uma merda pra qualquer momento. Resolvi chegar perto e levar ele pra casa. De modo pacífico, claro.
“Teodoro, caralho! Para de seguir essa puta! Bora pra casa!”
O namoradinho não gostou e se virou pra nós. Era maior que eu, apesar de ser mais novo, culpa dos hormônios de frango. Olhei bem pra ele e pensei “ainda bem que o Teodoro está aqui”, mas disse uma coisa diferente:
“Que foi? Leva a vadia embora logo pra gente acabar essa novela mexicana”
O Teodoro odeia quando eu escracho a Natália, mas dessa vez eu vi um brilho no olhar dele. Ele estava afim de beber o sangue do namoradinho. Eu aceitaria um golinho, mas a prioridade era salvar o Teo dele mesmo.
“Vai, maluco! Sai fora logo!”
O cara estava na dúvida. Na verdade, estava se borrando, mas não queria parecer um covarde. A Natália é uma cretina tão grande que não disse o que qualquer mulher mais ou menos diria nesse momento, que é “vamos embora, amor, não liga.” ou “Vão embora vocês, senão eu chamo a polícia”. Não… ela sentia um prazer doentio em desafiar a masculinidade do menino dela. Ou isso ou pensava que o bostinha tinha mesmo alguma condição de bater em mim e no Teo, que a essa altura do campeonato estava inquieto, com os louquinhos de dentro da cabeça dançando e pulando fogueiras. Resolvi que eu é que ia ter que assumir o papel da fêmea protetora.
“Vamos embora Teodoro, a gente tem que conversar.”
A gente se virou e o namorado deu um passo na nossa direção. Aí quem perdeu a paciência fui eu. Eu aqui, nobel da paz, tentando aliviar a barra do cara e ele não se toca. Me voltei de uma vez e ele estacou.
“Te mandei embora, filha da puta!”
Aí a Natália acordou e pegou o cara pelo braço. Vários estudantes passavam com rostinhos curiosos, mas ninguém tomou as dores do colega, porque provavelmente ele não é colega de ninguém.
Voltamos pra casa velha e eu chamei o João enquanto abria um Presidente. Tentamos conversar com o Teodoro, convencê-lo de que essa obsessão não vale a pena e que mesmo que valesse, a Natália não dá a mínima pra ele. Quando eu digo que “acabou” ele abraça os joelhos e sacode a cabeça. Se recusa a aceitar, mesmo que entenda perfeitamente, por culpa da psicose ou de falta de vergonha na cara. Pergunto por que ele sumiu e fico sabendo da história do emprego.
“Puta que o pariu, Teodoro!” Você veio pra cá seguir Natália e fugir do emprego?! Amanhã você vai voltar a trabalhar, cara!”
Continuamos bebendo em silêncio até João ligar a guitarra e começar o show. Tocamos, cantamos e deixamos o Teodoro praticar. O pior defeito dele é gostar de Engenheiros do Hawai. Ficamos ouvindo a versão dele de Infinita Highway. Uma bosta, bem fiel ao original.
“Só aprende o que não presta, esse menino…”

::Talvez um cachimbo, porque não haicai não é::

Postado em Quase literatura em 30/04/2012 por Rodrigo

Tão íntimo
que nada diz ao outro. Nem a si
Apenas um desabafo

::Novas tardias resoluções de ano novo::

Postado em Vida acidentada em 29/04/2012 por Rodrigo

E a essa altura do campeonato todo mundo deve pensar que eu volto aqui pra dizer que as reuniões do coletivo se intensificaram, cada um de nós produziu doidamente e que estamos em negociação com algumas editoras sobre o conteúdo e datas de lançamento de nossos respectivos trabalhos.
Como consolo, eu acabo de dizer tudo isso, podem ler de novo, caso queiram. Mas nada disso aconteceu e isso é triste e lamentável. De qualquer forma, acredito que os meninos estejam fazendo sinceros progressos e até eu mesmo estou fazendo progressos, à minha maneira, mas como “coletivo”, estamos completamente estagnados. No fim do ano nos afastamos em função de festas, relacionamentos e o diabo e acabamos nem nos encontrando mais, a não ser em função de trabalho (e de uma fortuita intervenção minha pra ajudar a esconder da sociedade fatos extremamente pessoais da fisiologia de certa mulher). O próprio nome “filhote de lobo” só serve de título pra um arquivo do bloco de notas no meu computador (eu gosto de escrever no bloco de notas, que não dá palpites no meu Português) e eu não ouvi ninguém pronunciar esse nome em voz alta.
O que não significa que não falemos em um coletivo e que não tenhamos pensado coletivamente em nossos breves contatos. De fato, nunca me senti tão espiritualmente ligado à Simone e Nerito como agora.
Acontece que ao contrário deles, que continuaram produzindo e procurando oportunidades, eu não consegui escrever nada do início ao fim desde então.
Percebi que se eu queria escrever com eles, precisava me acertar em alguns pontos e esse acertar começou a me destruir enquanto escritor. Eu queria um estilo! Talvez eu sempre tenha tido uma forma minha de escrever, e o Nerito até dava apontamentos disso quando dizia “quando leio seu blog, ouço a sua voz dizendo aquelas coisas”. Mas eu não ouvia. Ou não achava que escrever como converso possa ser chamado de estilo pessoal. Ainda não acho, mas é tudo muito confuso e delicado, então melhor não mexer nessa parte, especificamente.
Comecei várias e várias histórias, mas não tinha domínio do enredo, não tinha domínio das palavras e ao contrário dos escritores que dizem que seus personagens caminham sozinhos, via os meus se sentarem e ficarem me perguntando, com certa irritação: “e então, maluco, esse negócio sai ou não sai?” Isso quando não paravam tudo e gritava pra mim “olha a merda que você me fez fazer!”.
Odeio personagens.
Até que ontem, enquanto estava no ônibus lendo “Neve”, do Orhan Pamuk (muito bom, leiam também), alcancei subitamente o satori. Toda a literatura do Nerito veio à minha mente, tudo que a Simone escreveu veio à minha mente, o livro do Pamuk estava ali na minha mão e eu pensei em Anne Rice, Cortàzar, Jack Kerouac, Sérgio Fantini e em vários outros e tudo estava acessível ao mesmo tempo dentro da minha mente e eu flutuava entre essas coisas até encontrar um lugar vago e esse lugar era destinado a mim. Assim era o satori: eu entre todos eles, sem a sensação de hierarquia, sem as distinções de mestres, colegas, pupilos e inimigos. E o lugar vazio se preencheu com a minha maneira de escrever, a que eu deveria ter e aperfeiçoar. E eu soube com toda a clareza que maneira era essa e tudo que eu escrevi desde dezembro se tornou inútil e vazio e eu não consigo continuar mais essas coisas todas e preciso produzir coisas novas ou começar do zero com as antigas pra que façam sentido.
Meus personagens não conversam comigo. Meus personagens, em verdade, não fazem nada. Quem faz sou eu.
21/04/2012: início do meu ano literário.

::eu fui, você não::

Postado em O evento que você não foi em 23/12/2011 por Rodrigo

E nem tinha que ir mesmo, era um evento particular e não divulgado. Nós já vínhamos conversando informalmente sobre sermos um movimento literário (mais literário do que movimento). Tentamos, informalmente, fazer uma reunião no Malleta, mas tudo ainda estava muito insipiente. Daí resolvemos parar com a pouca vergonha e oficializar a coisa com calendário de reuniões, projetos e a criação de um departamento de marketing e relações públicas.
Nós quem? O Nerito, do Blog “O Guardião”, a Simone, do “Cálida Poesia” e eu. Achamos importante que o local da primeira reunião fosse simbólico e tivesse a ver com movimentos culturais literários, portanto escolhemos o pedante, ostentativo e afrescalhado café do Palácio das Artes (com aqueles petiscos caros e ilusórios) como ponto de partida pro coletivo de literatura.
A Simone, que tinha mais o que fazer da vida, não foi e a reunião ficou sendo do Nerito comigo. Como todo coletivo, por mais canastrão e vagabundo, possui um nome, começamos a reunião com um debate sobre qual seria o nome do coletivo. Foram ventiladas duas sugestões, ambas com bons argumentos favoráveis e desfavoráveis e explicações metafísicas desnecessárias que eu descrevo a seguir:
Sugestão 01 – “clube da Serpente”: Esse nome é tirado do livro “O Jogo da amarelinha” (que os cults devem conhecer por Rayuela), do Cortázar. O argumento contra é que esse nome é tirado do livro “O Jogo da Amarelinha (que os cults devem conhecer por Rayuela), do Cortázar. Nós não temos nenhuma influência direta dele na nossa escrita e pode ser que alguém se iluda achando que somos viúvas dele, tentando recriar sua escrita e seu universo literário (se amanhã eu acordar e descobrir que estou escrevendo igual ao Cortázar, largo essa porcaria de blog e vou embora ficar rico). O argumento a favor é que o Clube da Serpente, no livro, é uma reunião de pândegos, literatos e intelectuais que se juntam pra tomar cachaça e resolver os problemas da humanidade, o que é bem próximo do que a gente tem tentado fazer. Além disso, Clube da serpente tem sexy appeal, funciona bem como nome de coletivo;
Sugestão 02 – “filhote de lobo”: o nome foi tirado do poema “O que eu quero de você”, do Fabrício Corsaletti (um filhote de lobo/ pra morder minha mão direita/ quando eu estiver no escuro/ depois que o amor acabar) e usado por mim como imagem literária num texto que eu plagiei da Simone (eu sou assim, nada que eu faço é original). O argumento à favor está na imagem do lobo e da metáfora “lobo”, como símbolo de força, selvageria, liberdade, inocência e lealdade. Quem duvidar disso pode ouvir “Of wolf and man”, do Metallica. Eu acredito no Metallica. O argumento contrário é que o nome tem mais a ver com meus devaneios pessoais e não necessariamente reflete uma visão ou posicionamento do Coletivo, além de ser um nome comercialmente fraco.
Depois de não chegar a nenhuma conclusão resolvemos passar para o próximo ponto: vamos admitir mais gente no Coletivo? A conclusão dessa pergunta foi a coisa mais legal da reunião. Resolveu-se (o Nerito resolveu, eu bati palmas) criar uma distinção entre um coletivo e um “movimento literário”. No primeiro, nós três vamos pensar em publicações e no segundo vamos organizar clubes de leitura, saraus cheio de cachaça e encontros para avaliação e troca de textos que os membros forem produzindo (a gente também pode montar especial pra Porto Seguro). Um barato isso, principalmente porque se aparece alguém no movimento que seja melhor que a gente, tacamos no coletivo e a pessoa ainda vai sentir que nós estamos fazendo um favor pra ela! Maquiavélico e perfeito. Resolvido isso, passamos ao mais importante: escrever o que, publicar o que? Por mais que a conclusão seja simples, a gente gastou um tempo refletindo nisso. Não faço ideia dos custos, sei que não é nada exorbitante, mas não é uma grana que eu tenha no meu pote de moedas. E não sei da Simone, mas Nerito e eu queremos ilustrações, então tudo tem que ser cautelosamente avaliado. Mas partindo do princípio “fodido = fodido e meio”, achamos que o melhor é lançar um livro cada um & lançar um livro com trabalhos dos três. Eu tenho complexo de vira-lata e fico me depreciando o tempo todo, mas dessa vez acho que vai ficar foda! Pelo menos minha mãe vai ter que comprar.
Essa foi a parte um da reunião. A segunda parte da reunião foi complicada demais pra quem não tem conhecimento especializado, então não vou ficar me estendendo. Fomos ao Habib’s fazer um lanche de verdade e discutir profundamente as bases filosóficas da J. K. Rowling, além de iniciar um pequeno ensaio de literatura comparada sobre “as mil e uma noites” (livro), “a espada era a lei”(desenho Disney) e “Cabaré Mineiro” (pornochanchada nacional).
A próxima reunião está agendada, dessa vez vamos levar stakeholders, uma equipe de consultoria japonesa e a Simone, pra facilitar a tomada estratégica de decisões. E apesar do coletivo não ter uma liderança, se você está lendo esse texto é porque além de ser uma pessoa paciente, o Nerito me autorizou a publicar…

::segundo::

Postado em Quase literatura em 23/11/2011 por Rodrigo

Amante número dois: João José foi apresentado como JJ. Risonho e empolgado, parece gostar que as pessoas ao seu redor estejam de bom humor. O tipo de pessoa que sempre tem algo engraçado ou gentil para ser dito.
Uma amiga, apaixonada por JJ, a convidou para um cinema, com ele. Se encontraram antes, para um happy hour e as trocas de olhares e outros pequenos flertes só não foram óbvios pra essa amiga.
Durante o filme, deram-se as mãos e ela sentiu o rosto afogueado e uma onda de tesão que quase a fez avançar sobre JJ. A amiga, sentada do outro lado, não notou nada suspeito.
Na saída do cinema, João disse que as levaria para casa. Ela resolveu brincar, perguntando “Para a casa de quem?” A resposta veio com a mão de JJ roçando de leve sua cintura e seu sorriso enorme dizendo “pra casa de quem você quiser!” A amiga não percebeu o gesto e riu com eles.
Ela ficou tão molhada que teve medo de que as pessoas pudessem notar.
JJ, um pequeno gênio da sedução, inventou uma desculpa na rota para que a amiga (pobre amiga) fosse deixada em casa primeiro e depois a convidou para uma saideira.
Ela se deixou conduzir e se encantou com cada um dos truques de salão mostrados por ele, cada opinião firme e curiosa sobre assuntos completamente sem importância e pela maneira como ele a ia envolvendo, como um gato que continua brincando com um ratinho que há muito já se entregou.
O ponto alto de JJ são suas mãos. Magras e de dedos longos, mas sem aparência frágil, possuem uma graça e agilidade que ele não deixou de demonstrar durante as horas que passaram no motel.
Hoje JJ namora a amiga, mas os dois ainda se encontram com frequência. Ela tem crises de culpa e ansiedade sempre que acabam o sexo, por isso ainda não sabe o que é dormir abraçada à JJ.  Talvez por isso tenha o pesadelo recorrente de que o marido os encontra enquanto dormem juntos e abraçados.

::interlúdio romântico::

Postado em Vida acidentada em 19/11/2011 por Rodrigo

Para meu filhote, Blenda:

“Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus -ou foi talvez o Diabo- deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.”

(Campo de flores – Carlos Drummond de Andrade)

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.