::Houve um tempo de inocência::

30/04/2009
publicado originalmente em 04/04/2007

Ela também gostava de Legião Urbana, mas acho que eram motivos diferentes. Eu gostava de Legião por ser triste, sozinho e isso se expressava muitíssimo bem com Renato Russo. A realidade era aquele amontoado de mentiras das quais temos saudades e sobre as quais pensávamos por não ter qualquer outra responsabilidade ou função enquanto seres vivos. Combinava com a Legião Urbana. O mundo se desvelava hipócrita e cruel, os dias se arrastavam, os hormônios nos faziam cheirar mal, mas um mal muito bom. Assim como a Legião Urbana. A Legião sempre acompanhou meus caminhos adolescentes, recheados de maus-momentos e pesadelos. Havia sempre um verso que explicava o mundo, uma melodia que saltava em minha mente e pincelava uma situação que muda já era infeliz o bastante.
Ela não. Elas gostava de Legião Urbana porque não entendia absolutamente nada de música ou de poesia. Considerava Dado Vila Lobos o maior guitarrista da história do Brasil. Achava uma maravilha cantar Faroeste Caboclo e falar os palavrões salpicados na letra. Legião era diferente da música sertaneja que eu sei que ela ouvia. Era longe de toda aquela bobagem Baiana que despontava. Pra ela, todo o universo rebelde e melancólico era uma coisa característica da banda e não da vida. Aquilo lhe era complexo, empolgante, alienígena e bonito. A tristeza da Legião Urbana era a felicidade da Urbano Legio omnia vincint. Uma coisa ridícula. Mas ela era mais feliz que eu.


::Corsário::

28/04/2009

Eu chego em casa mal. O estômago aperta muito e ninguém está em casa. São seis da tarde, mas está tudo escuro, tudo nublado. Caminho de forma incerta até a cozinha e me descubro encarando a geladeira aberta já há algum tempo. Fecho a geladeira e caminho até o filtro. Não há copo e eu volto até a geladeira, não sei bem por quê. Descobri que esqueci que queria um copo e me dirijo até o filtro, até o armário e de novo pra geladeira. Com muito ódio de mim faço as coisas certas e bebo água. Ao passar pelo corredor que leva ao quarto entro num outro cômodo, o banheiro, porque a água entrou em meu corpo como um veneno letal. Eu começo a vomitar e chorar compulsivamente, contorcendo o rosto e gemendo muito alto. Não há ninguém em casa. Meus irmãos estão ainda em suas escolas e mamãe trabalha compulsivamente até depois das nove. Eu me limpo, enxugo o rosto e consigo caminhar até o quarto. Me sento na cama e volto a chorar. Não há nada a fazer nesse ponto, mas eu tento procurar algo que me distraia do ridículo da situação de uma criançona de quase dezoito anos chorando enquanto ajeita meias e cuecas nas gavetas. Ligo o som, delsigo o som, ligo o som de novo e o largo ligado, a mensagem “cd” acessa em vermelho, logo depois que o “hello” se vai. Procuro por algo embaixo da cama. Há paéis e caixas de jogos e eu não quero ler nada do que está escrito nos papéis, nas cartas pra ser mais exato. Minha bíblia está lá e eu a agarro e um grande aperto no estômago me contorce de volta para o banheiro. Eu vomito com jesus e seus amigos apertados entre minhas mãos.
Não há o que procurar no livrão, mas mesmo assim eu o folheio, como se uma resposta fosse aparecer. “porque assim diz o Senhor, o Deus de Israel, a respeito das casas dessa cidade e das casa dos reis de Judá, que foram derribadas para a defesa contra as trincheiras e a espada: quando se der a peleja contra os caldeus, para que as encha de cadáveres de homens, feridos por minha ira e meu furor, porquanto dessa cidade escondi meu rosto, por causa de toda a sua maldade…”
Não, não havia ali resposta, era só um trecho inútil, como sempre, eu não me senti confortado por Deus. Peguei me celular no bolso pra conferir as horas. Sete. Voltei ao quarto e não tive coragem pra atirar longe o livro. deixei-o com o respeito de um crente sobre o travesseiro da cama desarrumada. Procurei na gaveta de músicas por um cd, o “Revolver” do Beatles. Saí do quarto e me dirigi à sala. Voltei até o banheiro, lavei o rosto, escovei meus dentes e me senti estranho. Eu continuava a chorar e não era aquele choro seco e cansado, era como se as lágrimas nunca fossem acabar. Eu tinha uma resistência fenomenal em continuar sofrendo. O Carlos morreu, eu pensava. Meu melhor amigo morreu e eu não quero mais ouvir Beatles. Sem ele não tem graça. Fechei a porta pelo lado de fora e percebi que não é a religião, mas a música que traz as respostas, porque da casa de algum vizinho sem coração me vinham os versos “Ooh, a storm e threatening, my very life today. Come on baby, gimme shelter, or I’m gonna fade away”.
I was fading away. I was a teenager then.


::Querido diário…::

23/04/2009

Eu não me entendo. Eu não entendo o mundo e definitivamente não entendo as pessoas. Talvez isso seja síndrome do pânico, porque me dá medo. E às vezes, mesmo com o alegrato de felicitol, eu acordo triste por nada, sendo nada esse sentimento de vazio e abandono que o remédio tinha a obrigação de fazer sumir. O que há na minha vida que se justifiqu por si? Eu perdi a fé e o fio da meada e já não sei mais onde estão os valores das coisas que me tornem digno de ser eu. Mas bah, isso já aconteceu antes e antes de antes. É cíclico e temporário. Amanhã eu vou merecer sorrisos, ou talvez hoje mais tarde.

PS: a poesia prevalece!


::De algo não explicado::

17/04/2009
Sabe, eu não faço fé nessa minha loucura
E digo
Eu não gosto de quem me arruina em pedaços
E Deus é quem sabe de ti
E eu não mereço um beijo partido
Hoje não passa de um dia perdido no tempo
E fico longe de tudo o que sei
Não se fala mais nisso, eu sei
Eu serei pra você o que não me importa saber
Hoje não passa de um vaso quebrado no peito
E grito
Olha o beijo partido
Onde estará a rainha que a lucidez escondeu?
Hoje não passa de um vaso quebrado no peito...
(Milton Nascimento - Beijo Partido)
E é isso.

::e eu não deveria te dizer::

09/04/2009

Se não te chamo eu, só posso ficar e adivinhar.