Ele era como todos os outros bebês do mundo, rechonchudo, com dobrinhas nas juntas e pés de pão doce. Mantinha sempre um ar de surpresa meio catatônica na cara afundada entre duas bochechas gigantes e perfumadas. Irresistível, como o são todos os bebês. Exatamente isso fazia dele uma criaturinha onipotente, capaz de dobrar a vontade e a força de todos os adultos milhões de vezes maiores e mais sábios. Tinha a mania, como a de um rei bondoso, de acenar continuamente. “Dá tchauzinho”, diziam os pais enquanto do alto de toda a sua magnanimidade ele sacudia o braço rosa e estufado. Apaixonante e magnético não havia olhar que se desprendesse de sua presença ou expressão que quedasse indiferente aos seus acenos. Sorria aos súditos que se curvavam entre caretas e falsetes sem sentido, que, com as bocas cheias de água, aguardavam ansiosamente a oportunidade de morder-lhe as bochechas ou apertar aqueles pezinhos mínimos e perfumados.
O passar do tempo é uma coisa vertiginosa para bebês que dentro de uns poucos dias e umas ralas horas dobram o tempo de existência e ignorância sobre o universo. àquele tampinha não havia mais sentido algum que o de acenar. Se completava assim, emitindo vez por outra grunhidos. Os instintos determinavam sempre a hora de chorar e sorrir e as presenças ao redor cusavam conforto e estranheza, traziam sempre formas e cores, sons e cheiros novos que iriam fazer parte de partes do subconscientes sobre o qual milhões de cientistas se debruçam na tentativa de mapear como diabos se forma o pensamento e qual a raiz do sofrimento humano. Mas isso, o sofrimento, não passava de um borrão para a figurinha que se limitaria a mastigar, babar e destruir com toda a empolgação do mundo todas essas teorias, ao modo dos grandes gênios.
E em um desses dias muito próximos entre si, o bebê efusivamente acenava, acenava e se enchia de beleza e inocência, desaprendendo os adultos de sua etiqueta e seu conhecimento. Até que se estacou a sua frente, abaixando-se sobre seu carrinho a pitoresca figura de um rosto. Tal rosto era magro e detentor de uma barba negra e cheia, que guardava os odores de humanidade e cigarro em proporções não identificáveis, mas que estavam lá. O sujeito dono daquele rosto sorria e agarrando a mãozinha que acenava disse com muita empolgação “não se despeça assim de mim bebezinho. Melhor é cumprimentar que despedir-se.” dizendo isso deixou na testa da criaturinha um beijo, levantando-se a indo.
Após aquilo o bebê cresceu, dizem uns por culpa do tempo. O fato é que dentro daquele típico desenvolvimento humano, de ganhar músculos, gordura e estupidez contínua, algo dentro dele havia se quebrado, ou funcionava mal. O ser humano que o bebê havia se tornado nunca foi capaz de acenar ou cumprimentar, ou sorrir ou chorar, conversar e mentir. Morreu distante e casca, longe de tudo, de todos e quietinho dentro si.
07/10/2009 às 8:52 pm
Estamos na mesma vibe. Acho que eu deveria ter encerrado minha última postagem com o ‘mas’ nas ‘gotas caem com você.’ Alguém vai criticar o blasé que não ter feito isso causou.