Já ouviram contar sobre o sujeito que guarda um de seus próprios órgãos numa caixa de ferro? Existe, garanto. Acabei me esbarrando com ele num bar noite dessas. Não era um sujeito divertido, mas o inusitado de sua situação merece sempre o relato. Eu acabara de sair do trabalho, ali pelas oito, quando parei num balcão e ficamos ele e eu a tomar cerveja e observar o movimento (o movimento quase nulo de dentro do boteco). Na ausência de algo pra fazer, achei melhor ser educado e cumprimentá-lo, o que foi apreciado e iniciou uma história dessas muitas que a gente vai ajuntando pra não sei o que antes da morte.
Mas o Júlio (nome fictício, porque o mundo é pequeno), conheceu a Samantha (idem ao último parêntese, mas com um “th” do nome original, talvez porque eu me ache engraçado) e ambos estavam apaixonados.
Como sempre.
Talvez não como sempre, mas como em muitos casos onde as coisas precisam ir bem antes de começarem a ir mal.
Segundo o gordinho triste do balcão, ele havia sido um sujeito bem empolgado com a vida e alguns quilos mais magro. Esse era o grande motivo, a fundação de seu namoro com Samantha, o amor pela vida e pela aventura. Mas não há, por parte dos que se sentem às vezes perseguidos por cônjuges ciumentos, motivo para inveja ou suspiros. Refletindo e procurando (procurando, principalmente) vamos descobrir pessoas com uma enorme vocação à vida sem raízes e com objetivos oníricos. Gente que pula de rave em rave, ou que pule de pára-quedas em pontos diferentes de países exóticos. Pessoas que só encontram paz quando estão imersos nas mais excêntricas espécies de orgias e que morrem de overdose de drogas, de adrenalina ou devido a brusca mudança de pressão provocada pela apnéia, quando se vem à tona.
Mas continuando ainda a refletir, vamos descobrir que existe um grupo maior ainda de pessoas cuja necessidade fundamental e absoluta é apenas conhecer e experimentar uma coisa ou outra daquilo que está do lado de lá de nossa própria concepção de universo e rotina. Confesso que eu mesmo, por algumas vezes, assisti um ou outro culto evangélico, não por necessidade de conversão, mas mais para testar meus limites, minha inteligência e principalmente a virtude de minha avareza. Apesar de temerária, confesso que consegui cumprir com essa atividade com cérebro e bolso ilesos.
Júlio, pobre Júlio, pertencia obviamente ao segundo grupo e conheceu Samantha durante uma longa viagem que fez de carona até Recife, quando tinha seus 17 anos. Posso supor com minha preconceituosa mente que ela não o tenha amado, mas tenha ficado ofuscada pelo conceito representado por ele de adolescente sem amarras, movido à álcool e violão, caminhando por onde caminhões e caixeiros aceitassem levá-lo. E voltaram juntos à Belo Horizonte, nunca com o objetivo de fixarem uma residência, ou mesmo oficializarem um relacionamento. Voltaram porque esse tipo de sonho desenfreado sempre se reflete no pesadelo para as consciências de muitas mães e para as contas bancárias de mais uns tantos pais. Mesmo aventureira e romântica, essa história ainda aconteceu no Brasil.
“Quando se vive assim, em movimento, em busca firme por algo que se não sabe, nunca se percebe se o que se está fazendo é pegando o boi pelos chifres ou fugindo desesperadamente dele.” Essa frase é do Júlio, já no bar, pra explicar o que sentia e que o fez querer depois de algum tempo (uns poucos anos necessários) abandonar o inverso daquilo que vinha fazendo. E pode ser difícil entender que pessoas com todas aquelas tatuagens e piercings, sexualidades líquidas e gostos musicais exuberantes possuam um certo preconceito, um receio com outra visão da realidade, mas há. E a vontade de estar, a vontade de ser em unidade com algo, de na prática terminar o segundo grau e procurar um emprego “medíocre” fora de determinado circuito colocou Júlio fora de seu antigo universo.
Não sei dizer se essa é a verdade, mas ele em determinado momento de nossa conversa disse que pretendia voltar, talvez como turismólogo ou agente social, mas desanimou com o fato de perder praticamente todas as suas amizades de então.
Na prática, penso ainda que talvez uma confissão rancorosa vinda de um homem com mais de três cervejas na conta não deva ser levada assim tão ao fundo. Olhando bem nos olhos dele e tentando assim enxergar seu passado, posso dizer que quando as pessoas ao seu redor viajam e se movimentam muito mais que você e grande parte de seus amigos não resida na mesma cidade, no mesmo estado, o contato tende a ralear. Mas tudo isso é isso: versões.
Com relação à Samantha, não opino, porque não se opina nesses assuntos. Só conheço a Samantha da história, descrita pelo Júlio, provavelmente mais bonita e mais fútil do que a realidade nos mostraria e essa menina contada o abandonou, começou a namorar um praticante de malabares.
As escolhas que a gente é obrigado a se impor de tempos em tempos é que funcionam como o diabo de nossas vidas. Júlio não queria mais a vida que levava. Júlio queria continuar a se relacionar com Samantha. Samantha só gostava do Júlio louco, viajador, usuário de êxtase e crítico do sistema de ensino. Resultado? Júlio sofreu como sofrem os adolescentes, com direitos à crises de choro e bebedeiras assustadoras. O tempo passou e estranhamente nem a dor, nem as bebedeiras diminuíam. Meu companheiro mudou de rapaz descolado, bem relacionado e apaixonado pelo mundo pra um desses sujeitinhos propensos à melancolia e ao rancor, dos que buscam unicamente um consolo dos que não chega nunca.
Noite, bêbado, vinha ele cambaleando por um bairro que não nomeio porque sinceramente me foge o nome, quando foi abordado por um assaltante. O sujeito apontou-lhe uma faca, pediu o dinheiro e o Júlio chegou a infeliz conclusão de que o melhor era reagir de forma feroz e morrer esfaqueado, para que ninguém o imaginasse suicida. Plano perfeito. Ele não previu, obviamente, a surra que deu no ladrão, arrancando-lhe a faca e distribuindo uns bons tabefes pelo rosto do sujeito que correu gritando ameaças.
Júlio se assentou na sarjeta, olhando a faca e bêbado como estava pensou “vai ter ser eu mesmo” e se colocou a perfurar os próprios pulsos com a lâmina quase cega.
No trabalho terrível de equilibrar a faca, sentir dor e o peso ébrio dos olhos, Júlio desmaiou, sem realmente ter conseguido se ferir mortalmente. Só voltou a acordar mais tarde, percebendo-se deitado numa cama ao centro de uma saletinha mal iluminada. Passado o primeiro susto pode verificar que a pouca iluminação vinha de quatro velas, uma em cada canto do lugar e que a única comunicação dessa sala para o resto do universo era uma porta. Da porta ele podia ouvir música. Um cântico ritmado, que ele percebeu ter relação com algum culto religioso. Quando pensava em se levantar, a porta foi aberta e entraram dois rapazes e uma senhora, todos vestidos de branco. A cabeça de Júlio doía enquanto ele percebia que havia sido resgatado para um centro de umbanda/candomblé/macumba ou alguma outra religião afro-brasileira que ele (e eu) desconhecemos. Seus anfitriões verificaram seus ferimentos, dizendo conhecer toda a sua história. Os ferimentos dos braços, segundo a senhora, eram os males mais inofensivos à vida de Júlio. O problema real era um coração amargo, machucado e marcado para sempre.
A magia opera de modos fantásticos e amentrotadores, o que garante sempre medo e fé, que são igredientes do respeito. Júlio não sabia como, mas sabia que a velha sabia de sua vida e de seu estado de espírito. Por isso se abriu com ela. E a velha ouviu, conversou, explicou e rezou. Os dois rapazes apenas ouviam e vez por outra obedeciam ordens como “um passe.” “catuca a velinha do canto e põe perfume.”. Após um tempo dessa estranha assitência psicológica, Júlio foi submentido a um exame onde se deitava na cama de olhos fechados enquanto a velha lhe aplicava fumaça de insenso e batia em seus pés com alguns galhos de folhinhas verdes que não eram arruda porque não tinham cheiro de arruda. Ao fim, já sentado, ouviu a velha dizer com voz grave “é… mizifi, o caso de vamssuncê é ruim. O destino e o seu coração, nenhum te quer feliz, o pai vê. Nenhum te deixa sem moléstia, nenhum vai dar paz. O que você fez hoje, vassuncê faz de novo até que consegue. O coração do filho virou inimigo seu e de Deus. E Deus é grande, não faz bem um inimigo desse tamanho todo, não é? Não é? Tem um jeito. Mas é um jeito tão triste que quase que nem compensa. Compensa porque contra Deus a luta é inútil, seu coração já perdeu antes do começo. Senão, não. O que eu vou propor me dói e é um pecado, mas é menor do que o de viver inimigo de tudo e com o coração apodrecido assim como o do filho. Eu vou ajudar você com o coração ruim de seu corpo e você não vai mais desgostar da vida e do mundo, mas também não vai mais gostar. É assim e é assim, sem sal, sem açúcar, o café amargo, mizifi.”.
Enquanto ouvia a senhora, Júlio não percebeu que um dos rapazes havia deixado a sala e voltava com uma cadeira, um prato com água e um livro, que não era a bíblia, mas também tinha a mesma capa preta e batida do livrão. Trazia também uma caixa de metal amassada, como se fosse feita de alúminio, mas com um aspecto sólido, como o de um objeto antigo, feito de ferro pesado e resistente.
A velha, muitas vezes referindo a si como “pai”, fez com ele deitasse novamente na camae abriu a caixa ao seu lado. Dentro da caixa havia um punhal que ela, após ler um trecho do tal livro (numa língua que meu protagonista não soube explicar qual era), entregou ao outro rapaz que ao pegá-lo fez uma volta rápida, capoeiresca sobre o próprio corpo e assumiu uma postura menos séria, quase como se gingasse, mas sem sair do lugar. o punhal era maliciosamente manipulado pelo sujeito e mesmo assistindo a tudo isso e mesmo estando bem melhor dos efeitos da cerveja e da cachaça, Júlio se sentia tranquilo. Confiava no que o “pai” estava fazendo. A celha então colocou uma das mãos sobre a testa de Júlio e começou a fazer muita presão, a ponto de quase machucá-lo, sempre recitando os versos estrangeiros, cantados, ritmados, hipnotizantes. Júlio prestava atenção aos versos e ao punhal. Versos no ouvido, punhal na mão do rapaz negro com olhar malandro. Versos no ouvido punhal a frente dos olhos. Versos no fundo de sua alma e o punhal afiado por dentro de seu peito. Júlio feito de isopor e sendo rasgado com toda a facilidade do mundo, o corpo sendo cortado, o sangue escorrendo espiritualmente e sem dor, pelo corpo. Os versos continuavam e o sujeito balançava os ombros no rítmo o mesmo em que a velha cantava. A carne de Júlio, exposta, mostrava o muito que havia peito adentro e num momento, peito afora. Era o coração pregado no punhal sendo colocado na caixa. A caixa de ferro amassada, com coração apunhalado por dentro e era de Júlio o coração. Nem de Deus seria. Os versos não cessaram enquanto ele esteve acordado, mas dormiu logo e nunca soube por quanto tempo eles ainda duraram.
Júlio acordou com a cabeça dolorida, deitado num banco do parque municipal, como um mendigo qualquer. Passou um bom tempo avaliando a própria situação, olhando para o céu e o dia que começava aos poucos, ainda recostado no fim da madrugada. o corpo dormente e a vontade de olhar o peito, mas junto à ela vinha o medo. Nesse momento Júlio sentiu medo, mas com outra intensidade. Era um medo que vinha dum fundo de piscina e que não alcançava a superfície. Não sabia mais sentir medo direito, então foi fácil tatear o corpo e descobrir um enorme cicatriz no lado esquerdo de seu peito. virando a cabeça com cuidado por causa da ressaca encontrou no chão, ao lado do banco, a caixa.
Depois disso Júlio estudou. Arranjou emprego. Namorou quando achava que tinha que namorar e terminava quando chegava a hora. Conheci o Júlio triste tomando sua cerveja e ele não tinha vontade de morrer. Me mostrou a cicatriz, disse que escondia a caixa por medo. Fui embora acreditando que Júlio não vivia, porque pra mim essas coisas tem muito a ver umas com as outras.
05/11/2009 às 11:45 am
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