::sobrou alguém aí?..::
Era uma vez um sujeito que não sabia desenhar. Ele gostava muito de desenhar, adorava desenhos, pinturas, gravuras e tudo que fossem imagens gravadas ou desenhadas em qualquer lugar, fizessem elas sentido ou não. Só que ele não sabia desenhar e isso o deixava frustrado. Seu maior e melhor propósito era então inalcançável e isso deixava sua vida uma merda. Ele não conseguia se dedicar por tempo o suficiente a nenhuma outra ocupação, não dava a atenção necessária aos amigos e mesmo quando tudo estava bem ele sempre tinha a estranha impressão de estar fugindo de algo.
E como tinha tempo livre, esse cara resolveu que o melhor a fazer era tentar escrever. Porque se ele nunca tinha aprendido a desenhar, ler e escrever, em compensação, ele sabia desde os sete anos de idade.
Daí que esse desenhenhista frustrado se tornou um escritor meia boca, com um blog, mas passou a levar a escrita a sério. Vinham coisas, iam coisas e a escrita era levada a sério. Vinham amores e iam amores e a escrita ele levava a sério. Vinham e iam empregos e oportunidades acadêmicas e ele continuava a levar somente a sua escrita a sério. Ele não conseguia achar que todas essas coisas fizessem qualquer sentido porque ele era uma pessoa incompleta, então nada disso que diziam sentir ou oferecer à ele podia ser realmente verdadeiro. E ele tinha razão, sempre, pra infelicidade de quem lê isso que eu estou contando (compadeçam-se desse infeliz, minha gente).
Só que a vida tem um botão de foda-se ligado pras coisas que as pessoas querem ou esperam e corre como deve correr e não como um ou outro sujeito imaginam. Aconteceu de chegar um momento em que o trabalho desse sujeito começou a exigir tempo, dedicação e profissionalismo, ele se cercou de amigos, que vivem mandando mensagens dizendo que ele sumiu, a família pedia visitas e ele percebeu que chegava em casa cansado e com vontade de jogar Plants versus Zombies antes de dormir. E ele até tentava escrever, mas era só entrar na merda de uma rede social qualquer pra que algum amigo viesse com um assunto muito mais interessante que qualquer coisa que ele tivesse pra escrever. E era só ele sair de uma rede social qualquer pra perceber que as pessoas eram mais interessantes que as que ele descrevia e que o mundo era muito mais complexo do que ele imaginava.
E ele tinha muita vontade de descrever esse mundo novo e cheio de adolescentes e idas ao cinema e namoros furtivos, mas ele estava se ocupando demais em viver esse mundo. E é por isso que esse puto não tem atualizado o blog, enquanto seus amigos que gostam de escrever tem feito coisas maravilhosas nos blogs deles. Mas ele sabe que ainda vai dar um jeito, já que mesmo que ele não escreva, ele leva esse negócio de escrever muito à sério…
Esse post é baseado nos posts da Kaoru, do Diário de botas batidas.
05/10/2011 às 6:31 pm
Cara, dá uma conferida nas crases. Acho que a sério se escreve assim mesmo.
Acho que você pegou o espírito da coisa. A gente sempre vai achar a vida mais atraente que a escrita (será?), mas falo de vida de verdade. Eu sei, é clichê, mas tem um sentido nisso.
É, eu ficava acessando o blog e perguntando ao vazio, o que esse maluco anda fazendo que não continua a atualizar isso aqui? Está feliz? Satisfeito? Só pode ser isso…
Afinal, de certa forma a angústia impulsiona nossas escritas. Já conversamos sobre isso.
Estamos devendo uns aos outros uma reunião da Sociedade Secreta, do Círculo da Serpente, do Grupo dos Três (que podem virar seis). Abraço.
06/10/2011 às 2:03 am
E a minha frustração é a minha total falta de ritmo. Adoraria fazer qualquer coisa ligada à música, mas me falta o talento, o dom natural. [você não perguntou, mas eu achei interessante ser solidária com a sua frustração].
Continue vivendo, e eu continuarei vindo aqui, vez ou outra, para saber se você teve um intervalo para vir nos contar sobre a vida [contraditória e complexa, eu sei].
p.s.:adorei que vc renomeou meu blog para “desventuras amorosas em série”. =)
06/10/2011 às 9:58 am
Acho que eu conferi todas. Mas preciso de um revisor eficiente e gratuito! Ando tendo dificuldades com a língua portuguesa…
Seis? Esse negócio tá virando uma confraria. Bora organizar uma semana de arte-pósmoderna então!
06/10/2011 às 10:11 am
Dora, uma historinha real e de auto-ajuda pra você:
Havia um pianista muito foda, cujo nome não me lembro, que sempre era acossado por tietes depois de seus shows. Um dia, uma socialite, pensando que estaria fazendo um elogio, disse depois de receber um autógrafo: “Nossa, eu daria a minha vida pra ter o talento que o senhor tem!”. O tal pianista fez cara de quem comeu merda, olhou com todo o desprezo do mundo pra dona e respondeu: “Minha senhora, eu DEI a minha vida.”
Não existe esse negócio de dom, aptidão inata, língua de fogo de pentecostes ou estrela da sorte. As coisas são todas elas construídas, aprendidas e treinadas. Existe, claro, predisposição pra elas, o que é confundido com essa besteira de dom. Mas tira isso da sua cabeça! Nada é muito fácil pra ninguém…
Mas que bom que você gostou da minha brincadeira com o nome do seu blog!
06/10/2011 às 1:52 pm
Sim, sim. Concordo com você que o esforço também traz resultados. Mas também não podemos negar que há certas coisas que simplesmente não seremos bons. Enquanto outras somos ótimos. É uma parada dessas de inteligência. Já ouviu falar? Que cada um tem um tipo de inteligência melhor desenvolvida? Por isso, uns têm mais facilidade com matemática, outros com línguas e por aí vai. Acho que foi mais nesse sentido que eu quis dizer. =)
15/10/2011 às 4:05 am
É Brow… Viver gasta um tempo danado e ser feliz não traz inspiração para muitas palavras escritas…
Que bom que eu servi de inspiração!!!
Vou até postar alguma coisa um dia desses.
15/10/2011 às 4:07 am
Eu tenho algumas frustrações na vida também, como não ter dançado quadrilha quando eu era pequena. Nunca ter usado aliança de namoro. Ninguém elogiar a minha voz quando eu me atrevo a cantar… Mas como diz um outro amigão meu, o Chico Buarque, “a gente vai levando”…
15/10/2011 às 4:08 am
Mas frustração mesmo, de verdade, é não ter levado nada muito a sério nunca.