::capital, três da manhã::
Marina está completamente atordoada de vodka, com a cabecinha deitada no meu colo, mumunhando qualquer coisa incompreensível e chorando. Talvez seja um pedido de desculpas, já que ela vomitou nos meus pés e nas minhas canelas. De novo.
Enquanto qualquer outra pessoa teria se levantado e batido com a cabeça dela na parede, eu continuo fazendo carinho em sua testa, bêbado como um… como um… como sempre, enquanto repito “Calma menininha lésbica… Calma…”
Meu corpo está bambo, não consigo pensar em nada com um sentido claro e sei que essa frase, que eu fico repetindo só pra tentar continuar acordado, deve estar tão truncada quanto a fala de Marina. Acho que o melhor pra tentar me manter preso à realidade é apelar prum flashback de bêbado: quando foi a primeira vez que eu vi essa menina? Foi aquela vez na casa velha, com o sax? Não, foi antes. No show. Com o sax.
Eu estava em casa, tocando com o Ulisses e o Teo. Sou a única pessoa com mais de dois anos de idade que toca guitarra pior que Teodoro, mas isso não impede a diversão. Principalmente quando João, que é músico de verdade, não está.
Tinha cachaça com refrigerante, esse dia. E o João, que estava tocando com o Chico num aniversário, chegou em casa com uma filipeta (adoro essa palavra: filipeta, filipeta, filipeta! Repitam isso quando estiverem bêbados, é diversão garantida!) falando de um show. Parece que a banda era boa, ou quase boa, ou quase de graça, uma coisa assim. E nós fomos.
E era o velho esquema da quinta feira de noite em BH. A grande maioria das pessoas na rua estava por conta de gastar o dinheiro dos pais em boates na Savassi. Boates que os descolados estão com uma mania feia de chamar de pubs. Todo mundo muito maquiado, muito perfumado, muito de mentirinha. Um mundo de plástico, com pessoas de plástico. E nós bêbados, pobres e sem tomar banho.
Achamos nosso “pub” e fomos Procurar um lugar de onde pudéssemos assistir ao show em paz. É claro que não levou dez minutos pra uma menina chegar e me perguntar pelo Ulisses. “Minha amiga queria conhecer seu amigo” e blábláblá e conversa gritada de boate no meio das músicas sem sentido. Fui dando trela enquanto os caras da banda se preparavam, mas não me peçam pra lembrar o nome dela agora. Nem depois.
Os frescos em cima do palco estavam se comportando como se fossem arcanjos que iam fazer um concerto pra Deus. Todos estavam de tênis all star (de modelos diferentes, claro), calças muito apertadas e camisas xadrez. Xadrez. Xadrezes. Camisas xadrezes. Camisas xadrez. Deus, acho que vou passar mal.
Mas continuando, a tal amiga se juntou a nós, enquanto João e Teodoro saíam furtivamente pra comprar cerveja (e não voltar nunca mais…).
E então, de repente e sem mais nem menos, eu conheci Marina.
Simples né? Ela apareceu atrasada no palco, sendo repreendida pelos idiotas da banda e era simplesmente impossível não ficar completamente hipnotizado pela sua presença. E não era porque ela era uma gostosa com um fálico saxofone na boca. Correção: não era só por isso.
Eu me vidrei no fato dela ser uma pessoa de verdade. Sem blush, lápis de olho e olha só que incrível: sem chapinha! A presença dela deixava óbvia a mentira em que todos estamos metidos quando saímos de casa “pra night”, “pra balada”. Senti vontade de enfiar uma porrada na patricinha tagarelando na minha orelha e ir lá oferecer uma cerveja pra menina de verdade. Mas isso ia ser começar outro teatro, então fiquei na minha e ao invés da porrada, preferi só dizer um “Sério? E aí, o que rolou?” pra palhaçada continuar acontecendo.
Nisso, todo mundo no palco estava preparado e o show começou.
Foi um bom show, com certeza. Claro que pela arrogância dos caras, dava pra pensar que ia ser Eric Clapton na guitarra, Billy Nelson (do Funkadelic, povo sem cultura) no baixo e John Bonham na bateria. Mas foi legal e eles tiveram a decência de não usar a saxofonista pra tocar Kid Abelha.
E eu ficava curtindo o som, embriagado e olhando fixamente pra Marina (que eu ainda não sabia que era Marina, nem ia saber tão cedo). Até que minha acompanhante resolveu ir ao banheiro e eu fiquei, por assim dizer, descoberto. Notei na hora que ela percebeu que eu estava de olho nela. E notei que isso a desagradou profundamente. “Patricinha esnobe”, pensei exatamente isso. Ou qualquer coisa mais feia. Ou não. O fato é que eu sabia que ela estava incomodada e continuei olhando. Faltou só aquele lance de passar a língua pelos lábios, bem nojentão. Mas só funcionou pra outra menina ficar meio com ciúmes e achar que tinha que me agarrar com toda a força. Me senti o mais grotesco, calhorda e sexy filho da puta da boate. Isso também não foi ruim.
Lá pelas tantas, como é o destino de todo bebum, pedi licença pra ir ao banheiro e não voltei mais. Ulisses me buscou desmaiado e vomitado, pra levar embora. Olhando pro meu estado agora, fico me perguntando por que é que nessas histórias eu tenho que terminar sujo?
O flashback me fez muito bem, já dá até pra entender o que a Marina está dizendo. Já, já posso pensar em me levantar e arrumar o sofá pra ela dormir.
Marina está chorando o nome de Cláudia, seja lá quem for essa. Marina tem um filhote de lobo preso no coração.
10/10/2011 às 12:16 am
Personagem definitivamente sequestrada! Puxa, você cumpriu a emaça, caro Teixeira. A casa velha recebe mais um hóspede!
Episódio muito divertido. Além de nostálgico, pois lembrei das minhas próprias bebedeiras.
Espero que não fique ofendido com o divertido, mas é esse o termo. Bem escrito também, mas você definitivamente já sabe disso. Ah, e para de comparar escrita com desenho. Continua escrevendo que esse negócio tá muito bom.
10/10/2011 às 11:59 am
Pois eu, particularmente, prefiro a palavra bolo. =)
gostei da linearidade da sua história embriagada. Quando eu conto essas histórias para mim mesma, num esforço de memória, não consigo decidir o que vem primeiro.
p.s.: espero que o Nerito tenha querido dizer “ameaça”.
10/10/2011 às 5:26 pm
Nossa Senhora da Dislexia e o Menino Jesus da Língua-presa que iluminem o Nerito por nós, né Dora?
Mas pra saber mais sobre essa minha “emaça” leia o blog “Cálida Poesia, linkado ali em cima. Roubei a personagem de lá!
11/10/2011 às 3:00 pm
Agora ficou claro para mim o filhote de lobo preso no coração. Eu achei que era uma metáfora sua [sim, é sua, claro. Mas achei que era só sua!]. Gostei muito da indicação.
Quem não gostou foi o meu mestrado. Mas um blog, mais um texto, mais uma história que eu, prazerosamente, terei de acompanhar.
A CAPES não vai gostar nada disso =p.
Bjo bjo
13/10/2011 às 1:16 am
Eu sou um especialista em contrariar a CAPES… quase um mestre.
14/10/2011 às 4:37 pm
Então, como diria Che se ele tivesse feito pós no Brasil,
“Se você treme de indignação perante as exigências da CAPES, então somos companheiros.”
16/10/2011 às 6:57 pm
Chegando tardiamente a esta conversa…
Sim, sim, era ameaça que eu queria dizer. E olha que eu quase escrevi aemaça…
Que coisa, né? Ainda bem que o Teixeira de vez em quando me ‘salva’ lá no blog quando aponta essas ‘dislexadas’ minhas…
17/10/2011 às 1:54 pm
Mas, Rodrigo de Deus, gostei demais deste furto! E essa mudança de ponto de vista, hein? O teu personagem sendo o cara de quem Marina se escondeu atrás das próprias pálpebras fechadas quando tocava sax, naquela quinta-feira plastificada.
E que bela essa tua transformação de uma simples tatuagem numa BELÍSSIMA (!!!!) imagem de poesia!!!!!!!!
Bravo, bravo, bravissímo!!!!
Esterei acompanando as incursões de Marina na casa velha.
bjão
17/10/2011 às 1:55 pm
Ops. ESTAREI acompanhando. Tô parecendo o Nerito.. rsrsr
25/10/2011 às 1:17 pm
Teixeira, meu rapaz, quando vi seu comentário lá no blog, pensei que você tinha estendido mais um pedaço deste universo. Er… não. Então fico esperando. Atualiza, cara!