::primeiro::
Amante número um: Maurício é um negro, muito grande e forte, rosto anguloso, cabelo curto e costeletas muito finas, emendadas com o cavanhaque. Se conheceram num forró e dançaram juntos durante quase toda a noite, mas não se beijaram. Nesse dia ela estava disposta a não beijar ninguém. O problema é que ele não saiu de sua cabeça e ela acabou arrumando uma desculpa para voltar até lá, na esperança de encontrá-lo novamente. Deu sorte. Os dois passaram o tempo conversando e dançando. Ela sentia seu cheiro e se lembrava dos comentários racistas da avó. Não se importava, é claro. Achava o perfume dele maravilhoso e o hálito de menta em seu pescoço fazia suas pernas falharem. Depois de se roçarem grande parte da madrugada, como manda o bom forró, saíram juntos dali direto para um motel.
Maurício é, talvez, o amante mais bonito, mas é um tanto desajeitado. Goza rápido e não sabe o que fazer direito com as mãos. De qualquer maneira ela foi se viciando nele, gostando do tempo que passavam juntos e do modo como ele fazia carinho em seus cabelos depois do sexo. Maurício era um homem bom e não exigia nada. Conversavam muito, mas nunca tocavam assuntos delicados, como política ou filosofia existencialista. Entraram numa quase rotina de encontros, que se resumiam a boates e motéis. Só uma vez o levou à sua casa.
Nunca passou pela cabeça dela deixar o marido para ficar só com ele.