Você pressiona o dedo na corda de metal enquanto o outro a puxa e pronto, uma nota perfeitamente triste emerge do fundo de sua alma e dos livros de física. Quatro trastes depois, você faz a mesmíssima coisa e o resultado, ainda que sonoramente diferente, é subjetivemente semelhante. Sendo ou não um músico, a música se projeta em sua cabeça através de sinais não comunicativos, mas que conseguem evocar grandes de sua experiência, sendo em muitos casos uma forma de provocar reações emocionais. Mas mesmo assim, mesmo sem a história, mesmo sem que uma melodia remeta a um fato específico ou diversos pequenos fatos generalizados, o blues é triste. As notas são triste a ponto de fazer os corações mais frágeis o odiarem ou não entenderem sua arquitetura. Nada mais infeliz e miserável que cinco blue notes encadeadas terminando num vibratto. Isso apenas me ocorreu.
::fractal::
11/11/2009Pensar o infinito e que talvez haja algo realmente infinito. O infinito como conceito, que pode ser delineado, aparecer em toda a sua incomensurabilidade dentro de uma certa capacidade e ignorância humana. Observar a luz e pensar que é infinita e não se gasta. Olhar os números um e dois na régua e saber que entre eles há uma distância decimadamente infinita. A simplicidade de tender. Tender ao infinito. Tendência e Tendernência. Deixar-se numericamente acabar por existir para sempre, para sempre e para sempre… (reticências! Meu Deus, as reticências!).
É muito para minha pobre alma de ciências humanas.
::Cadê a poesia que tava aqui?::
25/10/2009E afinal de contas, a poesia das coisas está em nós ou nas coisas mesmo? Porque de repente eu estou completamente perdido no meio de toda a falta de sentido universal.
Antigamente eu era um sujeito da chuva e do álcool, um andarilho ansioso e otimista, cheio de super poderes e carisma. Tudo que eu precisava fazer era sorrir. Tudo que eu precisava estava aqui e ali, espalhado, sociedade coletora e nômade.
Hoje eu sou um velho índio delirante. Não sou andarilho, apenas vago procurando espaços para quedar sentado aos suspiros. Se chove, eu simplesmente me molho, baixando os olhos e reclamando do frio. E nada é mais tão simples, nada é tão ao alcance dos braços e os braços nem se esticam por causa disso mesmo. Ontem mesmo eu ignorei umas crianças que poderiam ser minhas e que eu não ignorei já há um tempo atrás. Outras crianças alcoólicas como eu fui. “Há com certeza algo dentro de mim, o que será?”
Ajuda-me Vincent! Ajuda-me!
::Idade das trevas::
25/10/2009O exemplo escolar é clássico: há um sujeito qualquer no alto do mastro de um navio com uma bolinha nas mãos. O navio está em movimento retilíneo uniforme, para efeitos de exemplificação, e o tal sujeito larga a bolinha lá de cima. Desprezando-se a resitência do ar, o vento e as gaivotas treinadas na recuperação de bolinhas, onde a dita cuja cairá? A resposta a essa pergunta sempre me perseguiu desde a primeira vez em que o exemplo foi apresentado. Por mais que os pacientes professores repetissem vezes e vezes que “Ao pé do mastro, devido a lei newtoniana da inércia.” minha mente tosca e medieval sempre repeliu a assertiva. Não acredito em Leis de Newton. Num mundo recheado de criacionistas, duvidar de uma lei física qualquer não é exatamente um crime grave. Além disso sempre fui muito discreto, nunca sugeri a proibição da física newtoniana ao longo do segundo grau e sempre fiz questão de escrever nas provas aquilo que os professores vinham ensinando. Seguindo o exemplo de outro grande cientista, pacientemente creio que “a verdade é filha do tempo e não da autoridade”. Imaginava que as leis de Newton nunca tinham sido suficientemente estudadas e colocadas à prova e que no momento oportuno a física quântica iria desmentir a atrocidade conhecida como inércia.
Confesso isso tudo para que meu presente estado de pavor e dúvida com relação à existência e à realidade seja devidamente entendido por quem quer passe os olhos nesse texto. Vindo mais cedo de Divinópolis para cá (Belo Horizonte). flagrei uma cena terrível e estarrecedora no momento em que meu pai fazia a ultrapassagem de um caminhão. Na lateral do mesmo havia um pequeno barril plástico com uma torneira e a maldita torneira pingava água. E pra meu desespero completo AS GOTAS DE ÁGUA NÃO APRESENTAVAM MOVIMENTO COM RELAÇÃO À TORNEIRA!!!! Elas caiam exatamente embaixo dela, ou seja, elas estavam na mesma velociadade do caminhão. Todos os meus pesadelos se revelaram verdadeiros: a lei da inércia é real. Newton tinha razão.
Estou agora com medo de sair da casa. O mundo é bem mais complexo e perigoso do que eu queria que fosse. E além de tudo é inercial…
::Dialética solitária::
23/08/2009Há mais que três dimensões e milhares de coisas novas e brilhantes que correm para os cantos todos em busca de compreensão. Não se pode ignorar efeitos e existências. Há todo um universo que deve funcionar em conjunto, mesmo que não haja um porquê claro. E não há. Mas deve haver adequações múltiplas, a mente, corpo, o mundo cheio de mentes e corpos que deveriam se saber (e não sabem) nunca sozinhos. A limitação reside não na incompreenção do pensamento do outro, mas na incapacidade de aceitar a existência do pensamento do outro. Infinitamente parecidos e categorizáveis somos, mas cada um de nós, corpos e pensamentos devemos nos acostumar com a sensação de unidade. Os outros são cada um deles assim como nós não somos uma massa existencial informe.
Há direções, há. Mas são tantas e tão complexas que o melhor a dizer é que não há direções de forma alguma, tudo é mar grande e sem bússolas. Em verdade qualquer conclusão a se chegar ao olhar pelas janelas é saber que aqui dentro estamos sempre sozinhos e inalcansáveis, mas que nunca estamos sozinhos, porque existimos assim, caoticamente únicos em conjunto. Muitos.
Tudo isso porque desde que comecei a me “tratar” de meus mals subjetivos, desde que, há um ano, comecei a me desinteriorizar, tenho me tornado um grande problema existencial. Novamente me sinto sozinho, só que por agora, do outro lado. Só eu sei que não há um consenso, afinal, ou todos os outros que partilham essa crença estão espalhados e escondidos.
Escrito por Rodrigo
Escrito por Rodrigo
Escrito por Rodrigo