Que é pra reafirmar pra mim que é muito importante fazer todas estas coisas que faço já que através delas eu me sinto indivíduo e portanto, completo assim mesmo. Carece pensar no que faço de tempos em tempos como todo ser humano. É de se estranhar que hajam prós além dos contras. Mas há e eu os colho com ar desconfiado. Prós. Estranhos e unicamente perceptíveis por mim mesmo, que sou por inteiro. Mas mesmo assim algumas coisas não podem valer a pena, já que há pouco dinheiro envolvido. Mas sou eu e que fique isto bem claro.
::Cadê a poesia que tava aqui?::
25/10/2009E afinal de contas, a poesia das coisas está em nós ou nas coisas mesmo? Porque de repente eu estou completamente perdido no meio de toda a falta de sentido universal.
Antigamente eu era um sujeito da chuva e do álcool, um andarilho ansioso e otimista, cheio de super poderes e carisma. Tudo que eu precisava fazer era sorrir. Tudo que eu precisava estava aqui e ali, espalhado, sociedade coletora e nômade.
Hoje eu sou um velho índio delirante. Não sou andarilho, apenas vago procurando espaços para quedar sentado aos suspiros. Se chove, eu simplesmente me molho, baixando os olhos e reclamando do frio. E nada é mais tão simples, nada é tão ao alcance dos braços e os braços nem se esticam por causa disso mesmo. Ontem mesmo eu ignorei umas crianças que poderiam ser minhas e que eu não ignorei já há um tempo atrás. Outras crianças alcoólicas como eu fui. “Há com certeza algo dentro de mim, o que será?”
Ajuda-me Vincent! Ajuda-me!
::Idade das trevas::
25/10/2009O exemplo escolar é clássico: há um sujeito qualquer no alto do mastro de um navio com uma bolinha nas mãos. O navio está em movimento retilíneo uniforme, para efeitos de exemplificação, e o tal sujeito larga a bolinha lá de cima. Desprezando-se a resitência do ar, o vento e as gaivotas treinadas na recuperação de bolinhas, onde a dita cuja cairá? A resposta a essa pergunta sempre me perseguiu desde a primeira vez em que o exemplo foi apresentado. Por mais que os pacientes professores repetissem vezes e vezes que “Ao pé do mastro, devido a lei newtoniana da inércia.” minha mente tosca e medieval sempre repeliu a assertiva. Não acredito em Leis de Newton. Num mundo recheado de criacionistas, duvidar de uma lei física qualquer não é exatamente um crime grave. Além disso sempre fui muito discreto, nunca sugeri a proibição da física newtoniana ao longo do segundo grau e sempre fiz questão de escrever nas provas aquilo que os professores vinham ensinando. Seguindo o exemplo de outro grande cientista, pacientemente creio que “a verdade é filha do tempo e não da autoridade”. Imaginava que as leis de Newton nunca tinham sido suficientemente estudadas e colocadas à prova e que no momento oportuno a física quântica iria desmentir a atrocidade conhecida como inércia.
Confesso isso tudo para que meu presente estado de pavor e dúvida com relação à existência e à realidade seja devidamente entendido por quem quer passe os olhos nesse texto. Vindo mais cedo de Divinópolis para cá (Belo Horizonte). flagrei uma cena terrível e estarrecedora no momento em que meu pai fazia a ultrapassagem de um caminhão. Na lateral do mesmo havia um pequeno barril plástico com uma torneira e a maldita torneira pingava água. E pra meu desespero completo AS GOTAS DE ÁGUA NÃO APRESENTAVAM MOVIMENTO COM RELAÇÃO À TORNEIRA!!!! Elas caiam exatamente embaixo dela, ou seja, elas estavam na mesma velociadade do caminhão. Todos os meus pesadelos se revelaram verdadeiros: a lei da inércia é real. Newton tinha razão.
Estou agora com medo de sair da casa. O mundo é bem mais complexo e perigoso do que eu queria que fosse. E além de tudo é inercial…
::crônica do mundo cruel::
16/09/2009É um rapaz que diriam ser bonito. Cabelos curtos e louros, armados com gel em milhares de pequenas espigas e a pele muito branca (levemente esverdeada) com algumas poucas sardas no nariz e bochechas. Tem o nariz fino e um olhar petulante de quem cresceu ouvindo pouquíssimas negativas ao longo da vida. Tipo do sujeito que cresceu mandando.
Está metido numa calça muito larga, cheia de bolsos e um par de tênis coloridos, cheios de furos, detalhes, entalhes amortecedores místicos, com motores de propulsão a jato. A camisa, um uniforme de um colégio particular qualquer. Tudo isso, somado ao celular ligado à fones de ouvido exalando new metal, fazia a mais perfeita cena do tipo de adolescente muito rico que costuma frequëntar o shopping onde eu trabalho.
Ele entra pela loja e para encarando o terminal de consulta. Olha atentamente até entender que os comandos funcionam com touchscreen e começa a digitar e franzir o cenho, dedando a máquina de quando em quando.
Eu o deixo fazer isso porque é bom pro crescimento das pessoas perceberem que não, elas não são capazes de operar mecanismos incrivelmente simplórios sem que uma terceira possa dar instrunções apropriadas.
Então educadamente ofereço ajuda.
Ele não está olhando pra mim, está me avaliando. isso é muito comum nos clientes, tentar decidir com o olhar qual o meu grau de instrução, os nomes dos meus pais ou das escolas que eu frequntei. Todas essas primeiras impressões tendem a mudar depois de conversarmos um pouco, mas também acho isso educativo.
Eles precisam saber que não, eles não possuem a mínima capacidade de produzir julgamentos sobre a realidade em que vivem.
_Você tem algum livro do Kropotkin?
Eu faço um movimento que sugere que talvez eu precise usar o computador atrás dele e ele se move e fica parado ao meu lado, torcendo pelo meu fracasso, a única coisa que serviria de álibi para o fracasso que acabou de cometer ao não saber utilizar o terminal de consultas. Assim que eu coloco os dedos no teclado ele começa a soletrar “K-R…” enquanto eu escrevo o nome “KROPOTKIN” de uma só vez, sem olhar para ele e me surpreendo com vários registros surgindo na tela. Felizmente, todos zerados.
A maioria das pessoas se dá por muito satisfeita com o próprio analfabetismo funcional. Meu cliente novamente perde algum tempo analisando atentamente os resultados em sua frente pra perguntar em seguida se eu poderia mostrar-lhe os livros que estavam ali na tela.
Diante de meu sorriso assalariado e servil que nega e explica que “os estoques de todos eles estão marcados como “zero”, isso significa que eu não os terei na loja, senhor.” ele precisa fazer o que considero um esforço hercúleo para que sua interpretação do mundo (que é uma projeção de sua vontade) se encaixe naquilo que estamos acostumados a chamar realidade (e funciona de maneira muito diversa para cada um de nós). Não há nada de pejorativo no meu “senhor”, eu o acrescento por praxe. Vícios, todos temos.
_Tenta então Proudhon.
Proudhon, apesar de não ser soletrada, foi dita bem devagar, que era pra eu entender.
Novamente, nada. Nenhuma obra e nova explicação, seguida de protestos sobre a minha livraria nunca ter os livros procurados e blábláblá. Blá.
Num mundo ideal eu o teria atacado tão logo pedisse o primeiro livro e o colocado pra fora do shopping depois de machucá-lo bastante. Uma vez que o mundo não é ideal, simplesmente observei suas roupas, sua procedência e o local onde meu cliente esperava encontrar obras sobre a anarquia, enquanto o mesmo se afastava. “A propriedade é um roubo”, pensei. “Pra sorte dele e só dele, ninguém precisa saber disso…”.
::Sobre as formas e a forma::
16/09/2009“Vês agora que nós, poetas, não podemos ser nem sábios nem dignos? Que fatalmente incorremos em erro, que fatalmente permanecemos devassos e aventureiros do sentimento? A maestria de nosso estilo é mentira e estupidez(…)“.
(MANN, Thomas. Morte em Veneza. 2.ed. Rio de Janeiro: NOva Fronteira,2000.)
Escrito por Rodrigo
Escrito por Rodrigo
Escrito por Rodrigo