::A fábula do gato::

Quando o moleiro morreu, deixou aos 3 filhos o moinho, o burro e o gato, todos conhecem essa parte da história.
O moinho era um objeto útil e com sua utilidade era possível viver.
O burro era um animal útil e com sua utilidade era possível que o dono vivesse e o burro morresse de tanto trabalhar.
O gato não tem uma utilidade, o que o aproxima muito de um ser humano. A diferença é que uma pessoa pode querer se tornar útil e se transformar num burro. O gato não abre mão de sua inutilidade. Se sente fome, caça. Se sono, dorme. Não tem essa de ócio criativo.
O filho que ficou com o gato, pensou em transformá-lo em um par de luvas de pelica, o que me entristece porque ele não chegou nem mesmo a cogitar um tamborim.
O gato, pensando em como nós não entendemos nada, convidou o rapaz para um passeio.
Enquanto andavam, observavam a vida.
As cidades eram pequenas e o sistema capitalista não havia sido instituído com a mesma violência de hoje. Havia florestas e animais para serem caçados. Áreas vazias que podiam ser convertidas em roças.
Os rios estavam ali, sem a Samarco. As praias, idem.
Pessoas plantavam, pescavam, moíam e cozinhavam. Num mundo ainda não tão populoso, já havia gente o suficiente fazendo coisas o suficiente.
Venha, vamos caçar perdizes, disse o gato. E foram.
Os irmãos trabalharam e trabalharam, sem nunca se tornarem eternos, sem se tornarem ricos ou nobres. Não há mais que um parágrafo de história sobre eles em qualquer versão de O Gato de Botas.
O filho mais novo do finado moleiro e o gato comeram perdizes e o rei daquele lugar nunca descobriu como era boa aquela carne porque o gato não se deu o trabalho de levar nenhum presente.
O gato nunca se prestou a calçar botas, ou dar ideias ou enfrentar magos em nome de uma riqueza inventada.
No máximo, se deitava sobre os chinelos do rapaz, quando tomavam sol do lado de fora da choupana onde viveram, ora felizes, ora tristes, até o fim de suas vidas, que naquele tempo eram bem mais curtas que hoje.

::Sem teias::

Eu era o Homem-Aranha. Às vezes era o Homem-Aranha, no duro, em outras estava interpretando. Meu inimigo era Chucky, o boneco assassino ruivo de 60cm. Pensei: “Bom, eu sou o Homem-Aranha. Vou matar esse filho da puta”. Isso resolvia o problema e eu ia poder passar o resto do tempo dando voltinhas de teia. Só que alguém, talvez o diretor, me lembrou que o Homem-Aranha não mata, eu precisava seguir o roteiro. Entrei num dilema moral: queria matar o Chucky, mas queria ser fiel ao personagem. Resolvi que ia tocar o barco e deixar pra decidir o que fazer na hora que o enfrentasse.
Mas, mesmo nos momentos em que estava encenando, ele continuava a ser Chucky, o brinquedo assassino de verdade e tentava matar os câmeras e contrarregras. Eu estava com medo da minha esposa (que era Ráisa, a legítima, não a Mary Jane) aparecer e acabar virando uma vítima. Precisei partir pra ação direta.
Começamos a briga e alguma coisa me fez pensar que eu teria mais chance se saíssemos na porrada deitados na minha cama.
Nossas forças não eram muito diferentes, apesar dele ser bem pequeno. E ele ainda tinha uma faca.
Fiquei bem puto porque se eu era o Homem-Aranha deveria ser mais fácil dominar um brinquedo. De repente consegui tirar a faca da mãozinha dele, aproveitei que a cama fica encostada na parede e o travei ali, pela cabeça. Se eu empurrasse a cama, ele morria esmagado. Caso contrário, podia escapar e continuar matando.
Então aconteceu um problema de transmissão. Não sei o que foi, mas houve um grande apagão e, quando voltei, a briga tinha acabado. A cena já era outra, uma coisa nada a ver. Fiquei sem saber se tinha matado o Chucky.
Chamei o diretor. Ele explicou que sim, eu matei o boneco. “Ainda está lá, prensado contra a parede”.
Fui até lá e arrastei a cama. O rosto do brinquedo estava desfigurado, quebrado, olhos saltando das órbitas, a pele rasgada, sangue pra todo lado. Apesar de ser um boneco, ele tinha pele e sangue e ossos, quem diria.
Minha maior preocupação era limpar antes que a Ráisa chegasse e visse que eu tinha sujado a parede toda com sangue.

::cítrico::

copo morango finalizado com fundo

Enquanto lavo os morangos, penso na água fria molhando meus dedos. É importante que os morangos estejam limpos, mas eu demoro mais que o necessário com eles na torneira, porque a água me leva de volta à infância.
Quando era um menino, acordava sempre às 5h30, tomava banho, ajuntava minhas coisas e ia pro clube. Caminhava 10 minutos à pé, as ruas quase vazias. O dia sempre começava frio ou, sei lá, fresco (pra mim era a mesma coisa), independente do mês.
As aulas de natação começavam às 6h. Entre 6h e 7h ouvíamos (eu e outras crianças) o professor gritando instruções, fazendo piadinhas, explicando o que devíamos sentir, como o corpo devia responder à água. A água era sempre fria, principalmente às 6h da manhã. Depois, entre 7h e 8h eu podia ficar no clube, nadando à toa, brincando, passando o tempo com a cabeça debaixo da água. Não precisava interagir com ninguém. Era água e eu. Depois disso vinha a aula dos meninos maiores e eu precisava sair dali.
Guardo essa memória com muito carinho, porque sou uma dessas vítimas sistemáticas de bullying. O clube era um lugar onde eu era deixado em paz.
Não posso lavar os morangos pra sempre. Eu os deixo num prato e dou um gole na cerveja. Separo o gelo, vodka, o açúcar. Bato alguns morangos e os transformo em suco. Adoço. Coloco a vodka e misturo.
Não sei fazer isso com elegância, acrobacias, essas coisas. Talvez meu charme seja essa completa ausência de charme.
Sirvo um copo, esperando que esteja bom. Nunca vou saber, não gosto dessas coisas.
Pego um morango e começo a cortar em fatias. Quanto mais finas, melhor. Pra isso é importante ter uma faca bem, mas bem afiada. Caso contrário, a gente tem que apertar o morango e tudo se transforma num desses pequenos desastres.
Espeto as fatias e as equilibro na borda do copo, pensando que eu devia ter pensado em usar açúcar na borda, ia ficar bonito.
Coloco o copo na mesa, Clara sorri aquele sorriso bonito e pega. Pela cara que ela faz, sei que acertei.
Fico de costas pra ela e abro o forno, pra conferir a carne assando. Não precisava. Virei porque a culpa me obrigou. Pode ser o bullying. Aliás, acho importante culpar o bullying. Anos me sentindo um merda, sendo tratado como merda, têm consequências.
Não me sinto no direito de fazer o que eu quero fazer. Esses anos escolares fazem eu não saber se quero fazer o que quero. Levanto o papel alumínio que envolve a carne. Rego a parte de cima com o suco que o papel reteve. É um ritual que eu domino, mesmo sem muito equilíbrio, enquanto estou abaixado. Minha falta de charme pras coisas.
Quase caio pra trás, de bunda. Ela ri.
Era pra ser uma situação normal. Eu devia rir também, mas alguma coisa dói no riso dela, esse riso direcionado a mim. Me forço a rir com ela e fecho o forno. Respiro fundo. Penso na piscina, a cabeça embaixo d’água, o corpo em movimento (desajeitado, mas funcional) e penso no que há pela frente.
Meço a situação, o quanto ela bebeu da vodka com morango, o quanto eu bebi de cerveja, quanto tempo falta para a carne ficar pronta e determino qual seria o melhor momento pra começar a discutir sobre um divórcio.

Texto escrito a partir da ilustração de Val Armanelli. O blog dela está linkado na seção “Mundo Cruel” à direita.

::Voltei pras redes sociais::

Antes, eu tinha o hábito de ler um poema. Eu procurava o livro na estante, ou jogava o nome do poeta no Google e lia o poema.
Isso parece distante e quase vazio. É preciso que eu fotografe o poema, que eu faça um vídeo lendo o poema, que eu envie um áudio para diversos grupos, para que eles me ouçam lendo, para que eles saibam que eu sei, para que eles gostem porque eu gosto.
É um comportamento padrão e ampliado pra tudo. Eu tenho o mesmo comportamento quando quero comer um sanduíche, tomar uma cerveja, quando frito uns bolinhos, monto uma salada ou quando coloco/tiro minha roupa. Os remédios, visitas, recordes nos jogos, toda a minha vida é filtrada, transformada em imagens e exposta em rede.
E se só eu fizesse isso, todo mundo ia dizer: esse cara enlouqueceu. Mas todo mundo faz o mesmo, então pouquíssima gente realmente percebeu que eu faço todas essas coisas. Pouca gente percebe que eu enlouqueci.
Enlouquecer é como sentir dor. Se você cai e rala o joelho, dói, mas ninguém vai deixar de brincar, correr, andar de bicicleta porque ralou um joelho. Faz parte. Mas se você tem uma fratura exposta, uma dor crônica, se desenvolve enxaqueca, você vai precisar se tratar, tomar remédios, se internar, tirar o time de campo. Perder as pernas quase sempre significa que sua carreira como jogador de futebol acabou.
Enlouquecer é isso. A gente pode ser um pouco louco, impulsivo, excêntrico. Pode ter manias. Pode conversar com algumas vozes na sua cabeça. Mas se a coisa se amplifica e você se torna perigoso pra você e pros outros, se se torna completamente incapaz de funcionar no meio da rua, aí tem que fazer tratamento. E tem. Eu fiz, foi bom. E como alguém que teve uma fratura exposta, hoje eu até me arrisco de novo nas mesmas coisas que me estropiaram da outra vez, mas passei um tempão me cagando de medo.
Mas não era disso que eu estava falando. Ninguém notou que eu enlouqueci. Que eu adoeci. Mas eu não adoeci desse comportamento compulsivo de replicar tudo que eu faço em uma foto ou um vídeo. Eu adoeci disso nos outros. De um maremoto de fotos, vídeos, gente sem roupa, poemas, gente fantasiada, histórias, peitos, tatuagens, bundas, sofrimento, soja mastigada e cozida, ironia com pau pequeno, endeusamento de pau grande, erotismo de gente gorda e muita, muita violência, praticada em todos os níveis, contra todas as pessoas. É importante destacar a violência, embrulhar os estômagos de todos com a violência, para que as pessoas se… sensibilizem? Ou se tornem insensíveis? Doentes, como quem rompeu os nervos e não sente mais a perna.
Nós, em rede, estamos doentes.
Aí eu vou lá e faço o quê? Tiro mais uma foto. Faço mais um vídeo. Desenho e publico, pedindo um pouco de afeto porque eu tenho os peitos grandes e não uso mais sutiã, ou porque eu não como carne, ou porque eu sou só um pobre homem contando violências e aprendendo a não ser machista.
E eu tenho tanto a dizer. Tenho tanto a pedir, a observar e analisar.
Eu vou ler e não vou contar pra ninguém. Vou comer a comida mais bonita, mais gostosa, mais cheirosa sem tirar uma foto. Vou escrever no meu caderno e não vou publicar. Vou publicar num livro. Vou vender 100 exemplares e só 40 pessoas vão ler e só 28 vão ler até o fim e umas 15 é que vão gostar e perguntar se eu vou escrever mais e quase ninguém vai lembrar depois e meus 200 seguidores do Instagram e meus 800 amigos do Facebook e meus contatos do Whatsapp não vão ter nada com isso.
E aí, meus amigos, aí eu vou poder tomar café e ouvir discos conceituais com músicas de 20, 30 minutos, sem desespero. E vou ajudar umas Ongs, ouvir uns companheiros e ler os teóricos indígenas e os brancos, as filósofas brancas, sociólogas negras, antropólogos negros e asiáticos. Porque não vai ter mais o maremoto e eu vou conseguir me encontrar, escolher e pensar.
Pensar nas coisas ainda vai deixar de ser uma doença.

PS: meu corretor automático considera a palavra “filósofa” um erro ortográfico.

::oração a uma rainha morta::

ave maria
mãe inexistente e perene
não a deixaremos descansar em paz

colocamos em tua memória nossa dor
nossa angústia e doença
e os crimes dos homens
que chamamos teus filhos

não nos socorra nem nos advogue
fantasma sem culpa e sem responsabilidades
pois somos nós os culpados por aquilo que
a vós rogamos neste vale de lágrimas

caminhe por nossa memória
com teus peitos grandes e caídos de amamentar
teu quadril largo de parir
teus olhos fundos de chorar

e seja pra sempre um símbolo limpo
que mostre que tudo o que és é feio
que tudo o que sentes é mau

que somente o fruto do teu ventre
que diariamente nos mata
nos empobrece e nos estupra
pode nos salvar

desde que silenciemos num choro
que nos contorce a cara
que nunca questionemos
a ausência eterna de respostas
diante de todas as nossas súplicas

pelos améns de todos os séculos

::I know you are, but what am I?::

Entro em casa sentindo o corpo pesado e sujo. Carrego nos ombros os clientes, pessoas nos ônibus, os pedintes, todo o barulho da rua, meu próprio suor, o peso da jaqueta e da mochila velha.
Mesmo tão preso em mim, noto algo errado na casa, os barulhos estão mal distribuídos e diferentes. Melhor ignorar, por enquanto. Jogo a mochila e a jaqueta no chão da sala, vou pra cozinha, onde não acho ninguém.
Abro a porta da geladeira e fico olhando pras prateleiras quase vazias. Pego a manteiga e antes de fechar a porta, continuo encarando o interior da geladeira, esperando, como se uma refeição maravilhosa fosse se materializar do nada e eu pudesse trocar a manteiga por ela.
Sigo ignorando as pequenas manifestações de vida na casa. Não consigo lidar com o que sei, ou acho que sei, que está acontecendo. Mastigo pão com manteiga contrariado pela garrafa de conhaque vazia na mesa, de frente pra mim. Sei que debaixo da pia alguém esqueceu uma garrafa de cachaça. Termino o pão e começo a procurar. Vila Velha, uma das maiores atrocidades que o capitalismo fez contra os trabalhadores.
Sirvo um copo, seguro o fôlego e bebo. Bebo de duas vezes, porque tenho pena de mim mesmo. Se eu tentasse virar tudo de uma vez, corria o risco de vomitar na mesa. Prolongar o sofrimento por mais que duas goladas seria masoquismo.
Encontro João no quarto, sentado na cama, abraçado aos joelhos. Olha pro nada e chora baixinho. O violão dele está na minha cama.
Pego o violão e coloco com muito cuidado no suporte no chão.
Os olhos do João me acompanham, mas ele não se mexe nem para de chorar.
Eu não sei porque o João chora. Mas imagino que as pessoas que prefiram o silêncio, que prefiram a música, tenham muitos motivos pra chorar.
Eu podia sentar e chorar com ele, mas não estou no clima. Ou melhor, estou sempre no clima pra chorar, mas falta força. Aquele ânimo necessário pra buscar todo o lodo dentro de si e colocar pra fora, como um vômito efêmero.
Chorar dá trabalho. Eu continuo seco e sério, deixando João chorar por nós dois até cansar.
Quando ele para, se levanta e coloca a mão no meu ombro. Os olhos estão vermelhos e inchados, mas serenos. Eu não vejo o meu rosto, não sei se disfarço a tristeza, ou se pareço mais arrasado que ele.
João alonga os braços, estrala os dedos, pega o violão e sai, limpando o nariz na manga da camisa. Eu resolvo que preciso tomar um banho.

*O título desse texto é o título de uma canção da Mogwai

::miniconto de terror::

Um dia apareceu o primeiro zumbi. Não sabemos se por acidente, projeto de arma biológica, bruxaria ou castigo divino, mas o primeiro zumbi surgiu e começou a vagar pelas ruas.
Nenhum de nós deu tempo a ele. Assim que a humanidade identificou o primeiro zumbi, deixamos aflorar décadas de filmes ruins e péssima literatura sobre o tema. Arrancamos suas pernas, para que não corresse. Extraímos seus dentes e unhas, temendo que a infecção se espalhasse e depois atiramos na cabeça do zumbi, para matá-lo.
Começou uma discussão sobre a ideia de matar o zumbi. Se ele já era morto, não faz sentido dizer “matar” o zumbi. Os bons e velhos engraçadinhos ressuscitaram a piadinha infame “um zumbi eliminado é um morto a mais ou um morto a menos?”. Os cristãos venceram a questão, com o argumento de que se existem duas vidas, podem existir mais mortes, também. E que elas ocorram todas na Terra, já que no paraíso as vidas são eternas.
Um cientista, esquecido do que acontece quando um cientista fala entre religiosos, sugeriu que o corpo do zumbi fosse levado para análise. Os mortos também dão respostas sobre o que acontece no mundo dos vivos, ele disse.
Não deixamos. Os filmes nos ensinaram sobre o que acontece quando um corpo de zumbi vai parar num laboratório. O zumbi foi queimado, amarrado ao cientista.
Passamos algum tempo nos encarando desconfiados pela rua, todos com medo de que qualquer um de nós se transformasse no próximo zumbi. Foi emitida uma lei que nos obrigava a dormir afivelados a nossas camas e os cintos de segurança de ônibus e aviões passaram a incluir algemas e mordaças.
Apesar disso, o segundo zumbi surgiu. Nunca o descobrimos. Ao sentir o coração parar de bater, as vistas se turvarem e a fome infinita pela carne humana invadir seu corpo, o segundo zumbi se afastou da cidade. Vagou perdido pelas estradas durante muito tempo, até entrar no mato. caminhou por dentro do que sua semi mente de zumbi acreditava ser uma floresta. Seguiu até que os bichos voltassem a fazer barulho, ignorando a sua presença. Procurou um lugar qualquer e assentou-se, abraçando os joelhos. Abaixou a cabeça e ficou parado, pra sempre, com medo do que poderia lhe fazer a humanidade, se fosse encontrado um dia.