::Um espaço pra maldade. Um lugar pra fúria::

Lá no fundo está a morte. Acho que foi assim que o Cortázar começou o texto dele. E pra falar dessas coisas, melhor começar como ele: lá no fundo está a morte.
Mas há outras coisas, também.
Seu cheiro de perfume doce, misturado com cigarro. As bitucas com marcas rosadas de batom no chão da minha casa. Seu jeito de puxar meu cabelo, sinalizando que você estava pra gozar. Uma pinta bonita no pescoço branco.
E o amor selvagem, louco.
Antes da morte, havia esse amor louco, de gritos, copos jogados, de você me seguindo até os bares, fazendo escândalos e me arranhando a cara, enquanto os outros se afastavam, abafando sorrisos e fingindo susto. Porque era sempre isso e sempre assim.
Antes da morte e depois do amor havia esse ciúme que, pra mim, confirmava um e outro. Mas, talvez, eu estivesse errado.
Lembro da gente bebendo conhaque, você só de calcinha e eu olhando seu corpo, feliz, de quando em quando deixando a mão deslizar pela sua barriga, seu peito. Sei lá do que a gente falava na hora. Sei que notei algo diferente em você. Um arranhão na cintura? Um chupão? Um que eu tinha certeza que não tinha sido eu quem fez. Não sei o que percebi primeiro, porque continuei a perceber. Continuei a notar, sempre, mas preferi não fazer cena. Fiquei calado, me engasgando com as dúvidas.
A morte não estava mais tão lá no fundo. Mas o amor louco me doía. Era como o conhaque, me matava ao mesmo tempo que me tirava a dor de estar morrendo aos pouquinhos.
Você continuava linda, ciumenta, fogosa. Continuava a ser mais minha que dele (ainda). Ou não? E ele? Era uma pessoa só? Cada filho da puta num bar, na rua, nos lugares que você frequentava, emprego, escola, farmácia, era meu inimigo, meu adversário. Todos os filhos da puta. Todos, ou apenas um entre todos? Outra dúvida que me comia como uma cirrose, quando é que eu ia realmente te perder? Até quando você ficaria?
As perguntas todas iam me deixando louco como o nosso amor era louco e os seus ciúmes violentos. Ciumenta, mas me corneando! A morte, agora, estava na superfície. Andava atrás de mim, do lado das perguntas, das dúvidas, da loucura, do ódio, dos meus ciúmes.
E eu sem fazer um showzinho.
Quando eu paro pra lembrar, penso se não teria sido melhor jogar tudo na sua cara, te encher de porrada e sumir, ao invés de ficar cozinhando isso em mim.
Mas não. Só Fermentei as perguntas, os ciúmes, o amor louco. E a morte, a morte sempre andando do meu lado. Hoje, não. Hoje ela já voltou pro fundo.
Julio Cortázar, argentino, escreveu: Lá no fundo está a morte. E estava mesmo.
Não quis comprar revólver, acho que nem tinha dinheiro pra isso. Sem contar que só te dar um tiro não ia servir pra derramar tudo o que fermentei e destilei. Eu precisava derramar tudo. Pra isso, melhor a faca. Pra me livrar de tudo aos poucos, um golpe de cada vez.
Mas o mundo virou um sono pesado e sem imagens. E eu nem vi.
Quando acordei, estava todo ensanguentado. Não me sentia nem surpreso.
A polícia apareceu do nada me levou. A única coisa que eu consegui pensar enquanto era algemado foi “eu não cheguei a perceber. Eu nem aproveitei”.

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::repetir até desacreditar::

Acordei cansado dos gênios. Com uma preguiça infinita de todos os intelectuais. Queria ler, mas a ideia de abrir um livro do Guimarães Rosa ou do Borges me embrulha o estômago. Ao mesmo tempo, continuo sentindo nojo dos escritores medíocres. Quero queimar todos, juntos. Barbara Delinsky, Drummond, Paulo Coelho, James Joyce, todos numa mesma fogueira.
Acordei em cima do muro. A cidade à minha frente e o coração no passado. Na cabeça, preguiça. Mas acho que preciso ler. Não qualquer coisa, mas preciso. E Preciso andar debaixo do sol. E preciso ficar em silêncio. Dormir sem sentir sono. Ficar imóvel sem que o corpo doa de ficar imóvel.
E enquanto  estiver imóvel, sentado em algum lugar, preciso ler as palavras certas, uma história sem a genialidade dos escritores que refazem a linguagem e sem a estupidez dos que escrevem pra ensinar alguma coisa.
Uma padaria ou um bar. Se for padaria, café. Se for bar, cerveja. Qualquer coisa que combine com o sol. Mas, pelo amor dos deuses e dos demônios, não escrever nada em guardanapos.
Uma manhã sem urgências. Comer sem fome, beber sem sede, perder tempo e não aprender nada. Cultivar a preguiça como num livro fácil.
A cidade do outro lado da porta parece estar muito longe, lá na frente. O coração dentro da cabeça parece estar muito longe, lá atrás, mas sempre depois da cidade.
As coisas não estão onde deveriam estar.

::o tempo, o tempero::

Tentar não fazer algo que as pessoas façam,
principalmente sob a desculpa da transgressão
Recusar a revolta planificada, organizada, os sistemas que lucram gritando contra sistemas
Tentar amar
de uma maneira única e pessoal.
desprezar todos os
manuais
conselhos
ensinamentos
vivenciar de maneira livre, caótica, violenta, inconsequente e
verdadeiramente
apaixonada
o que você e só você chama de amor
tentar manter as amizades ruins
Não desprezar as pessoas que precisam de favores
que estão ali por interesse
que são obrigadas a fingir que gostam de você
admirar seus olhares e sorrisos
suas reações ensaiadas, desculpas sempre inteligentes
olhar para essas pessoas e admitir
que são somente humanas
humanas
repetir a palavra fundamental
humanas
tentar escrever no ônibus
Formar as letras com toda a dificuldade.
rabiscar cada letra como alguém que busca, no meio da grafia tremida, um lampejo de perfeição
pensar com o barulho do motor
as conversas
pregações
músicas
descontinuar o texto para salvar uma frase que leva muitos minutos pra ser escrita
salvar uma frase
salvar uma frase
salvar uma frase
construir o texto com a mesma dificuldade
com que um músico
medíocre troca os
acordes no violão
Tentar o ódio dissociado da violência
Tentar o dia dissociado da violência
reconhecer a violência como o nosso padrão
Fazer listas como quem escreve um poema ruim
escrever um poema ruim como quem escreve literatura
Tentar negar padrões
tentar negar transgressões
Tentar negar o que chamam de amor
e escrever no ônibus
como quem esculpe uma pedra
e tentar salvar uma frase
salvar uma frase
uma palavra sequer.

::madrugada::

O miado atravessa a rua, vindo de não sei onde e entra pela janela, me invadindo um sonho. Acordo, assustado, já sem lembranças do que sonhava. Estou suado e sinto a garganta seca. O miado provavelmente me salvou de alguma coisa ruim. Quero água.
Caminho no escuro até a cozinha, onde a luz da geladeira ataca meus olhos. Sinto a temperatura do copo nos dedos e o frio se irradiando por dentro do meu peito, enquanto a água desce pela garganta. O choque da água com o calor do meu corpo é bom. É um pouco de paz, penso.
Mas não pode haver paz. Nunca.
Um barulho no quarto. Fico alerta. Mais e mais fortes miados lá fora. Um gato? Teria entrado pela janela? No terceiro andar? Não é um gato. Alguém está andando pelo apartamento onde moro sozinho e cada passo dessa suposta pessoa faz com que os pelos dos meus braços e pernas se arrepiem. Mais e mais. Estou em pânico. .
Lá fora, os miados continuam. Um vulto aparece na porta da cozinha e fica ali, parado. Não consigo distinguir seu rosto. Tento me mexer, mas meu corpo parece imobilizado, feito de chumbo e tudo ao meu redor é medo. Quero dizer algo, mas minha língua parece crescer e se enrolar por dentro da minha boca. os miados não param.
A sombra dá um passo pra dentro da cozinha. Ainda não consigo focar suas feições. Sinto que meu corpo vai cair. A única coisa nítida em toda a cena são os malditos miados, que parecem tão fortes que conseguem desviar minha atenção de todo o resto para me perguntar “como eles chegaram até aqui?”.
Despenco.
Acordo. Molhado. Eu, o lençol, tudo é suor na minha cama. Dessa vez me sento e coloco a mão na testa. Não tenho febre. Tenho um pesadelo dentro de um pesadelo.
Continuo com sede, mas tendo medo de ir à cozinha. Os miados estão lá fora, reais. Resolvo sair da cama, tomando o cuidado de ir acendendo as luzes.
Na cozinha, abro a geladeira. Olho a garrafa de água por um tempo e pego uma cerveja. Vou pra sala, atento, mas já sentindo o medo diminuir. Sinto um incômodo leve na sala, mas não consigo definir exatamente o que é. Talvez eu não queira entender o que há de errado. Melhor me distrair dos detalhes.
Abro a janela. A madrugada é quente como qualquer outro horário nesse verão infernal. Nenhum vento entra pela janela aberta. A cerveja não parece ter gosto de nada, mas sei que é diferente da água.
Observo a rua silenciosa, com prédios e casas de poucas janelas acesas e muito escuro. Ninguém na rua. É estranho, eu penso, esse silêncio todo. Onde estão os miados? Prestando mais atenção, percebo, no silêncio, mais ausências além dos miados. Carros e ônibus, outros animais, nada faz barulho na noite. A cidade parece ter se tornado um cadáver, mas um cadáver quente.
Percebo um movimento na rua. Um gato. A pelagem branca, fantasmagórica, brilha na madrugada.
E ele vem, silencioso, subindo a rua com sua elegância arrogante de gato.
Percebo logo que ele está arrastando algo que parece preso ao seu corpo, pela parte de trás. E percebo, mesmo da distância, que ele tem os olhos amarelados fixos em mim, na janela.
O medo volta com toda a sua força paralisante. Não posso me afastar da janela. Preciso assistir ao gato que arrasta algo que sai de dentro de si. Uma estranha bolsa de carne, cheia, presa em seus quartos traseiros e deixando um rastro fino de sangue pelo caminho. E ele me olha. E eu sei o que é essa bolsa.
Horrorizado, sou obrigado a assistir a gata branca arrastando sua placenta rua acima em silêncio absoluto.
Para bem debaixo da minha janela, no meio da rua. Começa a se soltar do embrulho, como se tivesse vindo trazê-lo pra mim. E então mia.
O miado é um lamento fino e longo que me faz querer olhar de volta pra sala, pra carta que eu ignorei sobre a mesa. A carta que não deveria estar lá e é o terrível detalhe do qual me esquivo. A gata começa a rasgar a placenta com seus dentes e garras e de lá, tira um filhote morto e sujo. Esse filhote viscoso é um bebê humano. A gata continua a se lamentar em miados doloridos e num momento ela não está mais sozinha. Outros miados se juntam aos dela e outros gatos vão surgindo, vindos de lugar nenhum, pelas pontas da rua.
Estou dentro da algaravia de miados, sem nenhuma existência, sou um observador sem corpo desse espetáculo de terror. A gata se aproxima do bebê morto e o morde seu rosto.
A cena apenas existe, então não posso me esquivar. A gata arranca pequenos bocados do rosto do bebê, enquanto os outros gatos vão se aproximando e começam a atacar todo o corpinho.
Acordo de uma vez, me debatendo na cama e chorando. Abraço o travesseiro e deixo os soluços virem, tomando conta de tudo. Na rua, gatos acasalam e fazem um barulho infernal e humano. Olho para a janela do quarto e percebo que a madrugada já trocou o negro pelo azulado que indica o amanhecer em breve. O choro diminuiu e eu me levanto, sem nenhum medo, mas completamente desesperado. na mesa da sala, a carta, o envelope rasgado ao seu lado. Os gatos lá fora, impossivelmente reais e barulhentos. Fora dos pesadelos, o maior e mais perverso deles.
Assentado na mesa, já ouvindo um início de movimentação na rua (os primeiros ônibus, as primeiras pessoas, a vida mecânica), pego a carta e meus olhos passeiam pelas palavras, como se estivesse diante de uma língua desconhecida e sem sentido. Mas a indiferença diante de tudo não ameniza o peso do que eu leio. A confusão em que me encontro e os resquícios dos pesadelos não diminuem a verdade escrita ali, em meio aos lamentos e aos insultos.
“Eu nunca quis o aborto. Eu vivi a perfeita ilusão de que éramos felizes, de que você e eu estaríamos pra sempre juntos. Nunca imaginei, seu canalha, que o mundo simples e bonito onde eu vivia não passava de um devaneio no qual você me envolveu, enquanto me traía e planejava uma forma confortável de se livrar de mim. Pois eu espero que a imagem da coisa que seria o nosso filho te assombre pra sempre, seu desgraçado. O inferno é um lugar doce, perto do que você me fez. Do que você me fez fazer.”

::O que me traz o ano novo::

Uma barata agoniza no quarto. Acordei e a encontrei perto do quarda-roupas, em frente a mala aberta, quase desfeita, que por alguma razão eu ainda não guardei, mesmo tendo voltado de viagem há quase dez dias.
Quando me mudei, o apartamento havia sido dedetizado e esse guarda-roupas, embutido na parede do quarto, cheirava veneno. Passamos os primeiros dias, o gato e eu, ofegando e um tanto zonzos. Depois o cheiro se dissipou. Ou nos acostumamos, o que é quase a mesma coisa. O cheiro era invisível, um fantasma disfarçado entre outros que fiz questão de trazer para o apartamento.
Houve uma noite em que eu ouvi algo rastejar e se debater dentro do guarda roupas. Acordei de madrugada assustado. O barulho indicava que algo grande se jogava contra a madeira, pelo lado de dentro. Torci pelos demônios, porque eu não saberia lidar com um rato em casa (não ataco vertebrados, mas bebo do sangue de qualquer um que tenha sido abatido por outras mãos).
No outro dia, uma barata morta, no mesmo lugar onde essa outra, hoje, agoniza. Eu não imaginava que uma barata pudesse fazer tanto barulho, na tentativa de não morrer.
Concluí que baratas são assim: tentam manter-se discretas, sujas e caminhando pelos cantos, mas como todos os outros, são escandalosas diante do próprio fim.

E agora essa outra barata.

Acordei e ela estava lá, como um deja vu da primeira, patas pra cima, imóvel, antenas finas e compridas. A primeira dúvida: será que ela andou realmente comigo, passeando pelo meu corpo, enquanto eu dormia, ou só convivemos no mesmo apartamento, no mesmo quarto e estamos, nesse momento derradeiro, apresentamos nossos corpos um ao outro. Julguei que ela era um cadáver, mas um movimento das antenas me alertou para o contrário. me aproximei e a encarei de perto. As antenas se mexeram com um pouco mais de força e ela chegou a dobrar duas patinhas.
Mesmo que todo mundo ache baratas criaturas nojentas (e eu não discordo), sinto uma curiosidade de gato (de lobo?) diante delas. Pensei em pisar nessa barata e jogá-las fora, mas a certeza de que seu corpo esmagado iria sujar o chão do quarto e- muito provavelmente- a minha melhor mala de viagem, me fizeram optar por assistir em silêncio a morte fazer seu trabalho. Não sei quanto tempo ela levará pra morrer. Estou numa espécie de vigília, de tempos em tempos observando seu corpo rijo de inseto, virado pra cima, em busca de algum sinal definitivo de que ela esteja morta. Mas baratas são criaturinhas insistentes. Há sempre um retorcer das pernas, um movimento da cabeça, algo que indica que ela ainda vai incomodar a desarrumação do meu quarto por mais tempo.
Numa das vezes em fui conferir, ela arqueou a cabeça e a posição ridícula em que se encontrava a fez parecer com alguém que pedisse clemência. Ajuda. Uma barata pede clemência, ou só quer esticar as patas e se agarrar em algo, provavelmente transmitindo alguma doença?
Um pequeno monstrinho no armário, que fugiu, tarde demais, pra não ser asfixiado. E agora oscila entre o desespero de se saber acabando e o cansaço imóvel de quem sabe que o esforço é inútil.
E eu não quero ter que pisar na barata, mas sei que quando chegar o momento derradeiro, ela fará como a outra e vai se debater como um Mercucio quitinoso, amaldiçoando tudo, a vida, o mundo e os próprios amigos, se é que uma barata tem amigos (elas têm colônias grandes. Então são, pelo menos, sociáveis). E, nesse momento, pra não perder o controle, eu vou ser obrigado a abreviar as coisas e esmagá-la.

Vocês sofrem de Asperger.
Talvez eu sofra de Asperger, não vocês.
Talvez todos nós estejamos doentes. Não Asperger. Depressão?
Somos incapazes de olhar para a realidade, incapazes de ser objetivos e, ao mesmo tempo, incapazes de lidar com o mundo imaginário, com as entrelinhas, com os significados que ficam apenas sugeridos em nossas frases, livros, assuntos.
Deprimidos e muito perigosos.
E muito provavelmente não é nada disso.
Muito provavelmente não há ninguém doente.
Somos só perigosos. E somos perigosos porque além de violentos, nos fingimos de doentes.
Vocês não têm Asperger, não é mesmo?