::O que me traz o ano novo::

Uma barata agoniza no quarto. Acordei e a encontrei perto do quarda-roupas, em frente a mala aberta, quase desfeita, que por alguma razão eu ainda não guardei, mesmo tendo voltado de viagem há quase dez dias.
Quando me mudei, o apartamento havia sido dedetizado e esse guarda-roupas, embutido na parede do quarto, cheirava veneno. Passamos os primeiros dias, o gato e eu, ofegando e um tanto zonzos. Depois o cheiro se dissipou. Ou nos acostumamos, o que é quase a mesma coisa. O cheiro era invisível, um fantasma disfarçado entre outros que fiz questão de trazer para o apartamento.
Houve uma noite em que eu ouvi algo rastejar e se debater dentro do guarda roupas. Acordei de madrugada assustado. O barulho indicava que algo grande se jogava contra a madeira, pelo lado de dentro. Torci pelos demônios, porque eu não saberia lidar com um rato em casa (não ataco vertebrados, mas bebo do sangue de qualquer um que tenha sido abatido por outras mãos).
No outro dia, uma barata morta, no mesmo lugar onde essa outra, hoje, agoniza. Eu não imaginava que uma barata pudesse fazer tanto barulho, na tentativa de não morrer.
Concluí que baratas são assim: tentam manter-se discretas, sujas e caminhando pelos cantos, mas como todos os outros, são escandalosas diante do próprio fim.

E agora essa outra barata.

Acordei e ela estava lá, como um deja vu da primeira, patas pra cima, imóvel, antenas finas e compridas. A primeira dúvida: será que ela andou realmente comigo, passeando pelo meu corpo, enquanto eu dormia, ou só convivemos no mesmo apartamento, no mesmo quarto e estamos, nesse momento derradeiro, apresentamos nossos corpos um ao outro. Julguei que ela era um cadáver, mas um movimento das antenas me alertou para o contrário. me aproximei e a encarei de perto. As antenas se mexeram com um pouco mais de força e ela chegou a dobrar duas patinhas.
Mesmo que todo mundo ache baratas criaturas nojentas (e eu não discordo), sinto uma curiosidade de gato (de lobo?) diante delas. Pensei em pisar nessa barata e jogá-las fora, mas a certeza de que seu corpo esmagado iria sujar o chão do quarto e- muito provavelmente- a minha melhor mala de viagem, me fizeram optar por assistir em silêncio a morte fazer seu trabalho. Não sei quanto tempo ela levará pra morrer. Estou numa espécie de vigília, de tempos em tempos observando seu corpo rijo de inseto, virado pra cima, em busca de algum sinal definitivo de que ela esteja morta. Mas baratas são criaturinhas insistentes. Há sempre um retorcer das pernas, um movimento da cabeça, algo que indica que ela ainda vai incomodar a desarrumação do meu quarto por mais tempo.
Numa das vezes em fui conferir, ela arqueou a cabeça e a posição ridícula em que se encontrava a fez parecer com alguém que pedisse clemência. Ajuda. Uma barata pede clemência, ou só quer esticar as patas e se agarrar em algo, provavelmente transmitindo alguma doença?
Um pequeno monstrinho no armário, que fugiu, tarde demais, pra não ser asfixiado. E agora oscila entre o desespero de se saber acabando e o cansaço imóvel de quem sabe que o esforço é inútil.
E eu não quero ter que pisar na barata, mas sei que quando chegar o momento derradeiro, ela fará como a outra e vai se debater como um Mercucio quitinoso, amaldiçoando tudo, a vida, o mundo e os próprios amigos, se é que uma barata tem amigos (elas têm colônias grandes. Então são, pelo menos, sociáveis). E, nesse momento, pra não perder o controle, eu vou ser obrigado a abreviar as coisas e esmagá-la.

Vocês sofrem de Asperger.
Talvez eu sofra de Asperger, não vocês.
Talvez todos nós estejamos doentes. Não Asperger. Depressão?
Somos incapazes de olhar para a realidade, incapazes de ser objetivos e, ao mesmo tempo, incapazes de lidar com o mundo imaginário, com as entrelinhas, com os significados que ficam apenas sugeridos em nossas frases, livros, assuntos.
Deprimidos e muito perigosos.
E muito provavelmente não é nada disso.
Muito provavelmente não há ninguém doente.
Somos só perigosos. E somos perigosos porque além de violentos, nos fingimos de doentes.
Vocês não têm Asperger, não é mesmo?

::mais uma de flor::

Nasceu uma flor no quintal de trás da casa. Fiz um café forte e fui me assentar lá pra ver. Descobri a flor à noite, pouco antes de dormir, fechada ainda. Imaginei que ia abrir de manhãzinha.
Como uma pessoa que se coloca de frente pra uma instalação de arte, ou de um quadro, pra “sentir” e “entender”, me coloquei diante da florzinha, sentado na terra do quintal. Tem grama, mas é mais terra e mato que grama. O ambiente é importante, talvez tanto quanto a flor. O sol das sete e meia, o vento que eu não sei de onde vem, mas vem, o cheiro de verde, sempre um pouco triste, que exala do conjunto de plantas. A terra debaixo de mim, sujando a bermuda e um pouco das minhas pernas.
E a florzinha lá, no meio da manhã acontecendo. As pétalas vermelhas e ainda tímidas e duas folhinhas ainda enroladas no caule frágil, de um verde pálido que diz “eu ainda não estou verdadeiramente viva. Morrer ainda é a operação mais fácil”. Mesmo sabendo que sou eu que estou pensando essas coisas sobre ela, a corrijo: morrer é a operação mais fácil em qualquer momento da vida.
Não sei que flor é essa. Podia disfarçar e dizer que é uma coisa filosófica, de não nomear as coisas, mas é só porque eu me esqueço de pesquisar depois. O certo é que eu nunca planto nada aqui. São os bichos que plantam. Eu vejo depois, acho tudo muito bonito, muito interessante, mas me falta a curiosidade de biólogo, pra buscar uma foto e um nome num livro ou no computador. As plantas nascem como têm que nascer e eu só me dei o trabalho de cercar essa parte da casa porque senão alguém cimenta, asfalta, concreta, cava e faz uma piscina azulejada. Outra mentira seria dizer que eu não gosto de nada disso. Adoro. Mas gosto de terra, também. Das coisas desgovernadas, que acontecem por acontecer.
E da chance que tenho de fingir que uma flor vermelha, desconhecida, que pode simplesmente ser pisada pelo cachorro, represente qualquer coisa de diferente, uma promessa, um amor, a esperança que um filho provoca.

::Defected::

Me sinto um tanto destruído, como se o sangue não corresse. Tenho um verso preso na mente, mas não consigo esticar esse verso num texto inteiro, num poema, não consigo transformá-lo em qualquer coisa. Apenas repito mentalmente a frase, que me reflete, e me pergunto se há algo mais, outros significados, um caminho e qualquer conclusão. Não. Apenas isso e apenas ela. Me sinto destruído, como se meu sangue não corresse. Sinto que deveria me esquivar das minhas verdades, transformando minhas frases em textos ou poemas, mas não há força física, narrativa, criativa. Sou lento e… me sinto destruído. Nada em mim pulsa.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu coração é um bloco pesado de chumbo.
Meu sangue não corre mais.

::Um dia, daqui pra frente…::

Não, não te culpo. Até porque não há culpas nesses momentos, a gente vive seguindo desejos que são sempre egoístas, a vida de um vai ser sempre um pouco calhorda aos olhos do outro. Incompreensível e cruel, cada uma das nossas escolhas. A pergunta séria, essa que me faço aqui, fumando e encarando a garrafa quase vazia de Presidente, não é a razão de você ir, isso já estava definido, respondido e esclarecido no dia em que veio. A pergunta é “por que veio?”. Esse é um mistério interessante com o qual eu possivelmente vou me ocupar durante uns meses, um ano, sei lá. Vou encontrar outras mulheres, várias bebedeiras, vou sair com o Teodoro, vou ouvir o sax de Marina e vou me perguntar “por que diabos Melissa me escolheu?”.
É bem engraçado que seja um término sem começo, ou esse vazio nulo de tristeza. Você era inteligente e esquiva o suficiente até pra isso, não deixar que eu me apaixonasse.
Há, quem sabe, as possibilidades absurdas. Você tem um câncer e antes que as terapias comecem a engolir seu corpo e sua beleza, você quis ser a deusa que dança, a dona do sexo dos homens. Uma mulher feliz antes de dar adeus aos cabelos, retirar os seios, perder o viço e mesmo assim, morrer.
Você é casada. Seu corpo não tem indício de filhos, mas você se casou cedo demais e pouco depois de um ano vocês se viram em uma crise que só poderia ser vencida através de compreensão e liberdade. Vocês viajam, cada um pra uma cidade (e eu imagino que seu marido seja um homem bonito e interessante como você), onde irão flertar com pessoas, conhecer gente, vão se divertir e trepar até se reabastecerem de saudades e vontade de estarem de novo um com o outro. Ou talvez ele seja corno. Você o engana, mas depende dele por qualquer razão.
Ou talvez, e isso é mais óbvio que o resto, você seja só uma mulher solitária, cínica, que despreza esses valores maiores, mais profundos e complexos dos relacionamentos (terá sido traída? Caiu num desses relacionamentos abusivos e resolveu nunca mais se apaixonar? Por problemas psicológicos, nunca conseguiu desenvolver afeto por nenhum companheiro?) e pula de parceiro em parceiro, desaparecendo ao menor sinal de um laço afetivo que se forma, ou de uma rotina que se desenha. Deve sentir algum tipo de prazer quando os caras começam a ligar, a falar em saudades, a prometer coisas.
No meu caso foi um acidente completo, por eu também não querer estar preso e te ter como companhia divertida, como sexo, como algo fútil e belo. Talvez você, na primeira troca de olhares, já soubesse que haveria livros mais importantes pra mim, do que você. Que na verdade, há solos de guitarra mais importantes que sua presença.
Você me escolheu pelo silêncio? Por acaso? Porque nunca tinha transado um cara que trabalha com livros? Qual a verdadeira razão?
O certo, Melissa, é que sua presença me distraiu de uma maneira deliciosa, dessa minha dor esquisita de existir. Você diluiu minha angústia durante esses dias e eu te sou muito grato por isso. Sua ausência vai me encher de perguntas tão deliciosas quanto você mesma foi. Seu fantasma, ao invés de me assombrar, me faz a mesma companhia que você…

::inícios::

Mas é claro que uma mulher assim, com esse jeito de estar no mundo, de fugir de si, de arrumar estados temporários de existir, se aproximaria de mim. Sei ouvir música em silêncio, sei contar minhas desventuras para preencher o tempo, sei passar as mãos na mão dela de um jeito leve e sensual, que a deixa, apesar de tudo, meio tímida. Essa coisa de ver a adolescente onde está a mulher, de descortinar uma fragilidade que todo mundo tem. Ela se aproximou pelo que havia em mim que não remetia à vida dela e eu optei por não perguntar e não querer participar. Isso talvez a tenha feito ficar.
Ela definia assuntos vagos, “ontem vi um filme” ou “perdi a virgindade com meu vizinho, aos 14 anos” e me contava, nua, depois do nosso sexo, a falta de jeito com que um rapaz muito mais velho, mas tão inexperiente quanto ela, tentava, bêbado, coordenar penetração, ereção e ejaculação. Ria, concluindo “foi um desastre” e se virava para me encontrar encarando seu sorriso.
Evitar Melissa era o melhor jeito de me manter perto de Melissa. Ela confia em mim, porque não precisa me dar nada, podemos fingir, criar, nos distrair com coisas frívolas ou poéticas (se é que há diferença), caminhar pela rua da Bahia desde a praça da Liberdade até o centro, onde vamos nos juntar aos meninos hipsters do Malleta e eu vou me sentir levemente incomodado pela presença do sebo, mas vou pedir uma cerveja e assistir enquanto todos dançam.
Não dançar nos aproxima, também. Poderia nos afastar, mas não. Porque ela é uma mulher de espaços e vazios. Dança pra si, ou pra ser assistida. Quer que eu a observe- e eu observo. Todas as pessoas bêbadas, formam um balé caótico, um texto beat ao vivo. Há uma ligação entre nosso funk, cru e eletrônico e o bop dos anos 50, 60, que é negado pela maioria das pessoas, mas está ali. Melissa, alta, negra, dançando num ritual frenético que ela repetirá, mais tarde, pra mim em particular. A música criada num gueto cultural, negada por nossa sociedade, consumida cinicamente por pessoas que ampliam essas distâncias. Era o mesmo com o blues e o jazz dos anos 50. Era assim com Mardou, no livro que nos aproximou.
Melissa dança entre as pessoas e se liberta. Por um momento não há sebo, não há casa velha, não há Teodoro eternamente deprimido e magoado, ou Ulisses raivoso e pervertido. E eu percebo que esse meu afastamento da minha vida, dos meus contextos, do meu passado e do meu presente problemático, isso é estar com Melissa. E é bom. Não sei se quero que ela se vá. Não sei se estou à vontade com a ideia de transformar em lembrança, a pessoa que me ajuda a esquecer as minhas. Melissa dança e enquanto dança torna menores, os meus problemas.