::Ladies and Gentlemen: Mogwai!::

É noite e não se enxerga estrelas. Chove. Imaginar que a lua seria nova pode servir de alento, não haveria nada lá, caso houvesse um lá. A gente passa apressada mesmo debaixo dos guarda-chuvas. Têm medo da chuva, os humanos. Os que aparecem sem proteção correm como loucos e protegem os peitos. Não os recrimino porque sei que a água incomoda bastante as sobrancelhas e escorre para dentro das narinas. Não é uma piscina, não é um rio. É chuva e está tapando a lua nova. Uns poucos pedantes passeiam como se nada daquilo importasse, provavelmente porque levam algum pouco de amor nos bolsos e a chuva o faz inchar. Pedantes e esbanjadores, ora vejam só. No fim, eu gosto muito da chuva e do efeito sobre as pessoas. Quando chove eu quero estar lá junto dos pedantes e me sentir assim, “blasé”, homem-não-de-açúcar. o vento incomoda, a água nas sobrancelhas incomoda, o frio deixa uma certa vontade de dizer palavrões e cantar, mas é boa a chuveirada. Eu quero sair e cantar debaixo da chuva, mesmo que desafine, tussa e engula água suja. Mas não vou. No fim, não há nada lá.

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::Rainbow::

Meus sentidos não se enganam, mas me enganam sempre. A chuva está lá, como eu a vejo, como a conheço. Existe no cheiro de coisa molhada, nas coisas úmidas, em tudo que é particular ao universo da chuva que consegue penetrar em mim e dizer olhe, sou chuva. Mas eu sei que há mais na chuva do que isso que se escapa pra dentro de mim. Há mais e Deus é um brincalhão por me fazer perceber isso quase só. Minha percepção da chuva é a minha percepção da chuva e nunca a chuva em si. Eu acho que vejo a chuva, mas pode ser algo completamente diferente. Um rabisco sensorial, perto da coisa completa. Pode ser, pode ser e tudo que pode é, em verdade, uma possibilidade dogmática. Pode ser que Deus não exista. Pode ser que os astros determinem minha inteligência e minhas escolhas. Pode ser que haja uma a todos uma sombra de esperança e que a felicidade seja realmente uma escolha. A chuva faz a gente pensar. Uma coisa miúda da qual se sabe a formação molecular, se conhece o cheiro, o formato é, ainda assim, tão misteriosa quanto aquele espaço infinito inventado entre o 01 e o 02 na régua. Qualquer distância pode ser dividida infinitas vezes. Divisões infinitas entre cada pedacinho de coisa que há. E mesmo assim, tamanho metrificáveis e um número determinado de canais com os quais eu me comunico com o mundo. E se essas coisas coisinhas simples são todas elas infinitas e inexplicáveis, ininteligíveis, o que dizer das coisas complexas, daquilo que eu sou, daquilo que eu quero pra mim. Analogias, meu caro, analogias. Muitos creem que Deus é meramente ilusão coletiva que conforta a alma do homem, pois bem, o amor então é o mesmo que Deus, um conceito coletivamente aceito e inexplicado que conforta minha mente de suas sensações indescritíveis. Um imbecil sempre irá recorrer à solução química do cérebro, mas a solução química do cérebro é só um motorzinho de realidade, eu vou sempre refletir sobre reflexões, sobre particularidades. O estado de delícia e caos proporcionados pela ebriedade sempre superam o simples fato do álcool no sangue. Ninguém fica bêbado igual, ninguém ama igual. A manifestação do amor é tão grandiosa que chega a ser triste e obtuso se lembrar de hormônios. Afasta-me da física, metafísica divina! Afasta-me do mundo, loucura. Mantenha-me seguro na bruma dos sentidos inventados, praga miserável, imperdoável, amor.

::Nada mais faz sentido::

E eu observo, de fora de mim e atônito uma, duas, milhares de vidas pequenininhas, frágeis, muito velozes, que passam de maneira independente e isso me deixa triste e maravilhado. Como, meu Deus, como eu não havia notado antes a imensa desimportância da unidade, da versão, daquilo que é o outro pela mente do primeiro?
Do lado de fora somos Deus, meu Deus, a pegar pequenas vidas e observá-las e pensarmos Deveria eu amá-los como a Deus? Seriam quaisquer dignos de que me importe, eu que sou Deus, com eles?
Mas é inútil, pois isso que eu gostaria muito que fosse um amor, é, quando muito, uma das formas que a química induzida tem de dizer “não morra, rapaz, não morra…”

::Colunismo::

Não escrever mais sobre as minhas impressões sobre mim e os sentimentos. Tentar observar diariamente situações que mereçam uma narração e tentar narrá-las. Emitir, como a maioria dos blogueiros, opiniões pessoais mal elaboradas sobre a situação política, econômica e ecológica do mundo. Fica mais ou menos assim:

“O mundo está uma merda e eu não estou achando que vai melhorar. Aliás, acho que ele nem dura muito tempo. Mas eu baixei o primeiro disco do Pixies e é ótimo.”

Se eu for fazer isso todo dia, o blog vai ficar monótono, não é sempre que eu baixo um disco.

::Observação de ano novo::

Há sol, chuva, vento e toda a natureza. Gente dorme e acorda, conversa, anda. Gente vive. Como um grande grupo de gladiadores, de ladrões, que se divide em pequenos outros grupos que se assaltam para continuar vivendo. O mundo de verdade é feito de concreto, as casas de verdade são feitas de concreto. De fato, tudo pulsa e tudo é muito velho e repetitivo e esse é o universo que vestimos.
Eu fui me embrenhando por dentro da minha mente, rasgando diversas capas de pensamentos, esticando sombras, fechando portas e portas. Meu pensamento é uma saleta pequena e escura, com cheiro forte de corpo, de dormido, mui quente e um pouco abafado. Há em meu pensamento uma cama e um cobertor, para que eu me deite nessa saleta e fique imóvel no escuro, sentindo muito medo de que alguém me veja ali e me tire da cama. Eu fiquei preso em meu pensamento muito tempo, refletindo e me amedrontando, esperando um sinal divino que representasse uma melhor hora de abandonar a cama e deixar a saleta. Eu senti meu próprio cheiro até que as minhas narinas adormeceram às coisas comuns ao meu corpo e, no escuro, me desliguei do reflexo de minhas formas. Eu era uma alma dentro de um pensamento. Eu era apenas uma idéia de mim. Eu não esperei mais nenhum sinal, entendendo que talvez essa percepção de ausência fosse o verdadeiro sinal de Deus. Então eu me levantei e já não era apenas uma idéia. O mundo fez com que eu percebesse cada um dos detalhes e os milhões de defeitos do meu próprio corpo. Viver é uma sensação estranha de agulhada, por causa de toda a tristeza que é sempre verde e não se esconde. Mas depois de tanto tempo dentro de mim, eu vejo todas as coisas do mundo e acho que tenho que passar um tempo do lado de fora.