::vago, mas completo::

Eu quero muitas coisas. Eu sei porque te ouço e quando ouço, meu cérebro pede coisas aos meus outros sentidos e ao ouvir de todos eles diversas negativas, se enraivece e cessa a comunicação com o universo e então eu já não quero mais nada. Quando há essa noção perfeita de que as coisas estão aí simples e prontas, de um tempo cristalizado, de que nada há a querer ou fazer, sabe-se que a vida é incompleta e que o que houve foi um desprezo cerebral de um espírito que queria usar você e os próprios sentidos para se tranqüilizar. Quando nada me falta sua ausência se comprova e isso me faz querer me sentar e não viver e nem morrer e nem acabar e nem existir.

::Lugar comum::

Era bastante pontual e responsável. Tinha suas coisas todas muito organizadas e limpas. Sabia também opinar quando oportuno, o que transparecia uma pessoa com gosto pelas coisas que fazia e muito satisfeita com o rumo da vida. Mas não. Acordava de manhã com a mesma preguiça dos funcionários omissos e pensava com o mesmo rancor dos preguiçosos sobre a enorme de carga de trabalho. Odiava os engenheiros, criaturas medonhas que abdicaram da capacidade de pensar em função de suas calculadoras e pênis. Se levantou com um mal humor profundo e foi tomar banho. Não tinha vocação pra ser pobre, pensava. Não tinha vocação pra ser mulher e pobre. Passou muito tempo debaixo do chuveiro quente, sentindo-se melhor gradativamente e sem perceber. Se lembrada, odiaria a tudo e todos, como antes, mas o banho é um espaço (mais um momento, mas também espaço) místico e abençoado onde se esquece os problemas do universo, desde que haja sabonete e shampoo em abundância. Saiu enrolada na toalha e parou em frente à geladeira. Colocou e tirou a mão da alça na porta como se a houvesse queimado. Desde de criança morria de medo de acabar toda torta por culpa de um choque término, como uma tia da avó, figura utilizada pela mãe para lhe assombrar. Sem pensar nem por um segundo nessa ciranda familiar, foi ao quarto terminar de se secar, cantando um samba muito bonito que num outro momento poderia lhe trazer más recordações. Mas como nenhuma  lhe ocorreu, por obra do sono, da fome e de certa pressa, continuou a cantar enquanto secava os cabelos e vestia o sutiã, peça ingrata e incômoda, que quanto mais necessária, mais odiada. Podia odiar os seus com bastante moderação e esse pensamento lhe agradou. Mas só até o momento em que percebeu que arfava para conseguir fechar as calças. De qualquer forma, não era uma manhã mais feliz ou mais triste que as outras, tomou seu café sozinha, os pais não se levantavam tão cedo. Havia um quê de angústia e ressentimento no fato de morar ainda com os pais, ressaltados pelo fato deles não estarem ali com ela, como se aquela ausência momentânea da presença dos dois fosse um fortificante de sua presença constante e do assenhoramento deles à sua vida. Era mulher e morava com os pais, o que significava que nunca seria maior de idade. Saiu de casa preocupada com o horário do ônibus, pensando numa casa que seria só sua. Não tinha um namorado, não tinha um amor, não tinha uma visão completamente romântica do mundo, mas se atrapalhava com esse pensamento por não saber se o sonho da casa deveria comportar o sonho de uma companhia, de um amor ou um desses genéricos pós modernos. Não dependia dos homens. Nem eles eram estúpidos os suficiente para dependerem de si (para terror de suas mães), mas pensar numa casa sua e vazia a deixava desconfortável e de certa forma um pouco vazia como a idéia da casa. Chato como sou, se estivesse ali ao lado dela e participasse dessa reflexão, tentaria explicar à ela que não, a falta que sentimos da companhia não tem relação com dependência, mas se estou aqui escrevendo a história é porque não estou lá ao lado dela nem de nenhuma outra mulher que por ventura creia no amor como essa idéia narcótica do vício e da submissão. Mas não as culpo, e muito à nossa personagem que se dirigia a um escritório de engenheria onde exercia a subalterna função de secretária e teve que agüentar o trocador do ônibus a encarando durante todo o trajeto. Encarando seu decote, obviamente.