::Leo e Bia::

Sabe o amor? Aquele? Acho que é de mentira. Ou é como acreditava o Andersen, quando comparava o amor do homem ao soldadinho de chumbo, indestrutível, mesmo que só levasse bolada nas costas, enquanto o amor da mulher era como a bailarina de papelão, que no primeiro aperreio cai na fogueira e… bom, ela era de papelão. E há outras dificuldades pra entender esse amor, há as intensidades com que cada pessoa sente o que sente e o que é que cada um do nós espera do outro e da vida e de si. Mas essa metáfora do Andersen (que já aparecia na literatura de shakespeare) é sempre aplicável e “extraível” da maioria das grandes histórias do amor, principalmente no cinema (“As Pontes de Maddison”, “Closer” ou mesmo “PS: eu te amo”). O soldadinho de chumbo morre e se transforma num grande coração metálico e eterno enquanto a bailarina sublima na fogueira e ao fim não resta nada que se possa chamar de lembrança. Chato, mas está lá. E está também naquela mesa de bar, onde acabo de perceber que o casal não bebe mais com o mesmo entusiasmo e os olhares não se cruzam, apesar de se perseguirem vez por outra. A cerveja está choca e nenhum dos dois tem mais que vinte e dois anos. Talvez ele tenha vinte e três. O certo é: eles sentem como sentem quase todos nessa primeira metade dos vinte, com uma firmeza que é impossível nos adolescentes, mas como muito mais otimismo e idealização do que os adultos de verdade, os pais solteiros e divorciados, os casais com muito tempo de estrada e que atravessaram à força de muita paciência e antidepressivos crises fortes. Há uma tensão melancólica que emana deles e que eu posso quase pegar no ar e misturar à minha cerveja, com duas cores distintas, dois tons de verde únicos, que se referem aos amores “andersenianos” dos dois. A tristeza dela é uma vontade de prender um amor que ela sente e que tenta fugir de dentro de seu peito. É incontrolável, mocinha, seu amor quer deixar-te, é uma dessas plumas que ao tentarmos pegar acabamos por afastar de nós devido ao ar que nossa mão movimenta. Sua dor vem de uma certeza de que você não devia tentar prender um amor. Sua dor é a vontade de um amor que você já não sente. Sua dor é a culpa pela ausência de sentimento.
O verde que contorce o rosto magoado do rapaz me é um velho conhecido… a tristeza rancorosa da percepção de que você não vale à pena. E não vale e seria absurdo e ridículo se valesse. O amor se constrói ao redor de coisas que não valem à pena, que são efêmeras e simples. Irmão, meu desconhecido irmão, essa dor é um pedaço de chumbo derretido que você vai arrastar no peito. Dói porque é pesado e só deixará de ser quando você for forte o suficiente pra carregá-lo sem curvar o corpo. Eu não ouço o que eles falam, não sei o tempo que os prende e nem quais as memórias lindas e doloridas cada um irá arrastar pelo espaço, mas sei que às vezes é assim. Eu olho duas crianças mais velhas que eu, porque o momento as faz assim, velhas e tristes, e penso que eu acreditaria no amor se eles acreditassem no amor. Mas eu misturo todo o verde que se desprende do éter em redor da mesa à minha cachaça e com meus olhos vagos e sonolentos apenas duvido…

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