::Conto profético::

Publicado originalmente como “conto” em 23/01/2007.

Ela acorda de manhã e percebe que em suas costas figura um belíssimo par de asas, tal qual o maior e mais brilhante de todos os anjos. Desce encantada as escadas e é com gosto que exibe essa dádiva à família, porque sim, porque é uma dádiva aquilo que recebeu, concordaram todos. Uma tia mais afoita chegou a pedir ao senhor Deus de todas as coisas que conservasse aquele par de asas às costas da sobrinha que há tanto precisava de asas pra que passasse a desejar com mais afinco a própria felicidade.
Como não pára a vida, essa inominada protagonista toma o rumo da que julga sua, dirigindo-se ao trabalho nosso de cada dia após dia após dia. E já aí, começa a refletir se sua nova condição de ser alado e feliz era realmente uma condição especial e se era realmente um motivo ou convite à felicidade. Tomando o coletivo percebeu que seu adendo dificultava sua locomoção e seu desenvolvimento em locais pouco espaçosos como o interior desses ônibus horríveis a que recorremos na falta de quaisquer outros recursos de deslocamento de massas. As pessoas observam com todo tipo de reação as grandes extensões emplumadas da senhorita, algumas com olhar de inveja, outras com sincero desaprovamento, uma moça não deveria exibir tão vistosas asas, afronta direta à superioridade de qualquer anjo sobre reles humanos, onde já se viu?
Homens são como aquela moléstia que nos rogou o cão e não se contentam com asas que pendem num indivíduo alheio a eles mesmos. Todos queriam tocar, acariciar, machucar, conhecer daquelas asas, um verdadeiro martírio o trajeto casa trabalho com o coletivo mediador. Ao alcançar seu objetivo, com um pouco de atraso, devido aos engarrafamentos, foi atribuída àquelas asas o grande motivo pela descoordenação da prefeitura em mapear as necessidades dos patrões e dos empregados em se estar em determinado horário para que cumpram os segundos suas determinadas funções. Além de tê-la atrasado, as asas agora eram também um grande entrave ao progresso e ao trabalho, já que precisavam de acomodações especiais (não se senta em qualquer cadeira quando se possui estes voadores de invejar condor) e por especiais seu patrão entendia simplesmente dispêndio, atraso e qualquer coisa de aleijo no tratar com a subordinada que o colocava na delicada situação de quem vê cair a efetividade de seu contingente sem poder atacar as raízes de seu problema, por um dilema ético e cristão de rejeitar uma sujeita com asas, como qualquer santo. Ou anjo. Ou o diabo, que seja.
É fato que importunou o patrão a referida durante todas as suas nove horas de clausura, culpando onde podia todo e qualquer corpo que possuísse apêndices incomuns, indesejados ou não, especiais ou tacanhos, que atravancavam o navegar dos lucros para os cais de nós sabemos bem quando vemos quem reclama com tanta amargura e tristeza no olhar.
Exausta, a moça volta pra casa, pedindo cama, pedindo a cama e um algo de comer que as forças lhe faltam do tanto que trabalhou, chefe insensível, pessoas ordinárias que a cercam.
Os olhares da família a tolhem. Porque agora tinha um par de asas- bonitas asas, contudo- ela já começava a sentir-se maior ou melhor ou tudo em relação aos comuns, à sua família. Vão-se as asas, mas a família nunca te abandona, pensou a mesma tia, com um pouco de arrependimento, não se sabe se pelo pensamento ou pelo pedido feito de manhã.
Ninguém a iria entender. Nenhum deles havia nascido alado ou acordado assim numa bela manhã de sol, eram todos iguais os de dentro e os de fora, não sabiam como se sentia ela, que na verdade também não sabia. E esse foi o primeiro dia.
No que se passaram os dias, suas atribulações apenas se faziam aumentar. O pó grudava em suas penas. A água do banho as fazia cheirar mal. O sabão irritava a pele angelical ou de ave, que formava aquele adendo estranho. Não havia caminho em que não se maravilhassem ou lhe repreendessem as pessoas por verem as asas, não importando que aquilo nada tivesse a ver com elas mesmas, mas com a moça e com a moça só. Talvez com as asas, sabe-se lá se asas têm o poder de verem-se o alvo qualquer de uma situação. Melhor é pensarmos que não.
Mas enfim, toda a pressão da família, dos amigos, do trabalho, da vida, mas que coisa! acabaram por lhe convencer que, as asas nada mais eram que dois suplícios. Se Deus tinha planejado algo, era seu castigo por algum pecado muito, muito grave que havia de ter cometido numa dessas vidas que duvidamos que sejam computadas no livro do Grande, pelo menos uma mulher no trabalho duvidava. E se eram assim, tão lastimosas, o melhor era se ver livre delas logo. Mancar arrancar as vilãs. Fazer com a custa de alguma dor com que a dor sumisse dentro de um gemido seco e sentido.
A notícia preencheu a casa e as conversas da família. Não, ninguém iria consentir com o coração leve naquela decisão. As asas eram dela, conseqüência de uma vida e vereda aberta à felicidade, como ela, logo ela que as carregava podia pensar em mandar arrancá-las? Faça logo suas todas obrigações e não pense mais nessas bobagens, era uma espécie de coro ribombando pela vida de nossa anja.
Mas o pai (e o que se passa ao pai dessas moças?) que era um desvirtuado, em conversa assim meio triste, é quem acabou reencorajando a menina, porque se ela não conseguia se ver como alguém feliz com todo aquele peso inútil preso ao corpo, que mandasse arrancar-lhe fora, era apenas aquilo de peso inútil e servia como garantia apenas ao sofrimento exacerbado.
Arrancar as asas é dolorido como arrancar qualquer membro do corpo, por maiores sejam as anestesias. Na dúvida peça seus esclarecimentos aos montes de coxos, leprosos agnósticos e outros que precisaram abrir mão de prolongamentos vitais de si mesmos em função de desvio ou acidente físico. Arrancar as asas dói, elas são suas e doem ao sair em meio ao sangue. O pós operatório é complexo e a moça saiu de circulação por um tempo, até que não restassem mais que algumas cicatrizes que puxavam um pouco a pele das costas.
Já re-estabelecida, a moça voltava à velha vida, com emprego, família, amigos, enfim, a mediocridade cotidiana que nos cerca. Sem asas. Numa dessas cenas, estava ela sentada com um seu amigo, um que tomava cerveja aos borbotões e acreditava em algumas coisas que ninguém mais ousava pronunciar. Ao narrar-lhe a história estranha das asas, ele perdeu o olhar no teto e enquanto imaginava um céu perfeito falou quase que pra si: “Se elas ainda tivessem servido pra voar…”
E isto foi algo que nunca havia ocorrido à moça.

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Um comentário em “::Conto profético::

  1. É uma pena que você nunca deixe vencer essa mulher alada, Nice da vitória, da força e da velocidade. Mas deve ter os seus motivos. Continuarei torcendo por ela.

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