::Um amigo meu – que não sou eu…::

Originalmente publicado com o título: “Perpetual love” (12/01/08)

Infinito é uma grandeza relativa à uma quantidade qualquer de qualquer coisa. Um tamanho, um tempo, um peso. E ao amor, aplica-se o termo “infinito” pensando especificamente em peso, em tamanho. O tempo, aquela medida inventada, quando utilizada para mensurar o amor, mostra toda a sua ridicularidade e limitação conceitual. Não há um espaço de tempo dedicado ao amor. O porquê, eu não sei.
Não conseguia se livrar das fotos dela. Guardava os bichos de pelúcia que recebeu de volta, cuidadosamente encaixotados. Todos os dias havia mais ou menos o mesmo ritual, envolvendo grandes quantidades de vinho, música triste, maldições. A cada dia uma promessa nova de extinção. Do amor, da tristeza, da vida. Nenhuma concretizada. Quando suas condições de locomoção se tornavam questionáveis sabia que era exatamente o momento de exercê-las e saía para intermináveis caminhadas, onde cantarolava com sua voz embargada as músicas que havia acabado de ouvir e bebia mais e mais, enquanto suas pernas e estômago o permitissem. O amor, a ausência do amor, a presença constante e esmagadora de um amor infinito faziam dele um homem sozinho. Um eremita isolado dentro de sua mente torcida. Ela nunca voltaria e isso o colocava num círculo vicioso de lamúria e solidão. Precisava dela pra ser feliz. Precisava ser feliz pra se fazer importante. Talvez nem pra ela, mas para alguém. Alguém. Alguém. Alguém. Ele? Não, não seria nunca importante pra si. O amor infinito tomava conta de sua de toda a sua capacidade de sentir, de pensar, de se importar. Não há como existir pra si quando já se existe para um sentimento que apagou os outros sentidos. Diferentemente de som e silêncio, a presença e ausência de seu amor coexistiam, complementavam-se, faziam-se ainda mais presentes e mais vazios dentro do vasto campo que o eremita percorria bêbado e torcido. Era o famoso som do silêncio. Ou uma embalagem lacrada a vácuo. o copo vazio, vazio, vazio. Sem ar.
Ao retornar pra casa, já semi consciente, passava a uma adoração lamuriosa de seu passado, amaldiçoando sua felicidade, odiando sua tristeza, enconlhendo-se cada vez mais no fundo de sua própria saudade, como uma tartaruga que, ao nascer, procurasse se enterrar mais e mais fundo ao invés de buscar o ar e o oceano. Quando se considerava minúsculo e já não conseguia distinguir mais os grunhidos e as palavras, respirava fundo, ligava o som, se aconchegava aos bichos de pelúcia e tinha a certeza que ela estava aconchegada a alguém melhor, maior e que definitivamente nunca sentiria falta dela, seja pela constante e infinita presença dela à vida de outrem, seja pelo desamor que suas certezas obrigavam a creditar ao mundo. Mas sabemos que ele talvez e talvez esteja enganado.

Anúncios

::To do list::

  • ler um conto da Lygia Fangundes Telles;
  • Ler um poema do Álvaro de Campos;
  • Ouvir Cristo Redentor (Donald Byrd);
  • Ouvir Love, your spell is everywhere (Kenny Burrel);
  • Ler um poema do Álvaro de Campos ouvindo Cristo Redentor;
  • Me deprimir, sentir pena de mim mesmo. Observar os efeitos da pena, achar tudo isso engraçado. Me animar com os sonhos dos outros.;
  • Pensar em Deus;
  • Arrumar a cozinha;
  • Cortar o cabelo;
  • Ganhar dinheiro pra tomar um milk shake e/ou comprar uma garrafa de Santa Silva (tinto e Seco).