::Houve um tempo de inocência::

publicado originalmente em 04/04/2007

Ela também gostava de Legião Urbana, mas acho que eram motivos diferentes. Eu gostava de Legião por ser triste, sozinho e isso se expressava muitíssimo bem com Renato Russo. A realidade era aquele amontoado de mentiras das quais temos saudades e sobre as quais pensávamos por não ter qualquer outra responsabilidade ou função enquanto seres vivos. Combinava com a Legião Urbana. O mundo se desvelava hipócrita e cruel, os dias se arrastavam, os hormônios nos faziam cheirar mal, mas um mal muito bom. Assim como a Legião Urbana. A Legião sempre acompanhou meus caminhos adolescentes, recheados de maus-momentos e pesadelos. Havia sempre um verso que explicava o mundo, uma melodia que saltava em minha mente e pincelava uma situação que muda já era infeliz o bastante.
Ela não. Elas gostava de Legião Urbana porque não entendia absolutamente nada de música ou de poesia. Considerava Dado Vila Lobos o maior guitarrista da história do Brasil. Achava uma maravilha cantar Faroeste Caboclo e falar os palavrões salpicados na letra. Legião era diferente da música sertaneja que eu sei que ela ouvia. Era longe de toda aquela bobagem Baiana que despontava. Pra ela, todo o universo rebelde e melancólico era uma coisa característica da banda e não da vida. Aquilo lhe era complexo, empolgante, alienígena e bonito. A tristeza da Legião Urbana era a felicidade da Urbano Legio omnia vincint. Uma coisa ridícula. Mas ela era mais feliz que eu.

::Corsário::

Eu chego em casa mal. O estômago aperta muito e ninguém está em casa. São seis da tarde, mas está tudo escuro, tudo nublado. Caminho de forma incerta até a cozinha e me descubro encarando a geladeira aberta já há algum tempo. Fecho a geladeira e caminho até o filtro. Não há copo e eu volto até a geladeira, não sei bem por quê. Descobri que esqueci que queria um copo e me dirijo até o filtro, até o armário e de novo pra geladeira. Com muito ódio de mim faço as coisas certas e bebo água. Ao passar pelo corredor que leva ao quarto entro num outro cômodo, o banheiro, porque a água entrou em meu corpo como um veneno letal. Eu começo a vomitar e chorar compulsivamente, contorcendo o rosto e gemendo muito alto. Não há ninguém em casa. Meus irmãos estão ainda em suas escolas e mamãe trabalha compulsivamente até depois das nove. Eu me limpo, enxugo o rosto e consigo caminhar até o quarto. Me sento na cama e volto a chorar. Não há nada a fazer nesse ponto, mas eu tento procurar algo que me distraia do ridículo da situação de uma criançona de quase dezoito anos chorando enquanto ajeita meias e cuecas nas gavetas. Ligo o som, delsigo o som, ligo o som de novo e o largo ligado, a mensagem “cd” acessa em vermelho, logo depois que o “hello” se vai. Procuro por algo embaixo da cama. Há paéis e caixas de jogos e eu não quero ler nada do que está escrito nos papéis, nas cartas pra ser mais exato. Minha bíblia está lá e eu a agarro e um grande aperto no estômago me contorce de volta para o banheiro. Eu vomito com jesus e seus amigos apertados entre minhas mãos.
Não há o que procurar no livrão, mas mesmo assim eu o folheio, como se uma resposta fosse aparecer. “porque assim diz o Senhor, o Deus de Israel, a respeito das casas dessa cidade e das casa dos reis de Judá, que foram derribadas para a defesa contra as trincheiras e a espada: quando se der a peleja contra os caldeus, para que as encha de cadáveres de homens, feridos por minha ira e meu furor, porquanto dessa cidade escondi meu rosto, por causa de toda a sua maldade…”
Não, não havia ali resposta, era só um trecho inútil, como sempre, eu não me senti confortado por Deus. Peguei me celular no bolso pra conferir as horas. Sete. Voltei ao quarto e não tive coragem pra atirar longe o livro. deixei-o com o respeito de um crente sobre o travesseiro da cama desarrumada. Procurei na gaveta de músicas por um cd, o “Revolver” do Beatles. Saí do quarto e me dirigi à sala. Voltei até o banheiro, lavei o rosto, escovei meus dentes e me senti estranho. Eu continuava a chorar e não era aquele choro seco e cansado, era como se as lágrimas nunca fossem acabar. Eu tinha uma resistência fenomenal em continuar sofrendo. O Carlos morreu, eu pensava. Meu melhor amigo morreu e eu não quero mais ouvir Beatles. Sem ele não tem graça. Fechei a porta pelo lado de fora e percebi que não é a religião, mas a música que traz as respostas, porque da casa de algum vizinho sem coração me vinham os versos “Ooh, a storm e threatening, my very life today. Come on baby, gimme shelter, or I’m gonna fade away”.
I was fading away. I was a teenager then.

::Querido diário…::

Eu não me entendo. Eu não entendo o mundo e definitivamente não entendo as pessoas. Talvez isso seja síndrome do pânico, porque me dá medo. E às vezes, mesmo com o alegrato de felicitol, eu acordo triste por nada, sendo nada esse sentimento de vazio e abandono que o remédio tinha a obrigação de fazer sumir. O que há na minha vida que se justifiqu por si? Eu perdi a fé e o fio da meada e já não sei mais onde estão os valores das coisas que me tornem digno de ser eu. Mas bah, isso já aconteceu antes e antes de antes. É cíclico e temporário. Amanhã eu vou merecer sorrisos, ou talvez hoje mais tarde.

PS: a poesia prevalece!

::De algo não explicado::

Sabe, eu não faço fé nessa minha loucura
E digo
Eu não gosto de quem me arruina em pedaços
E Deus é quem sabe de ti
E eu não mereço um beijo partido
Hoje não passa de um dia perdido no tempo
E fico longe de tudo o que sei
Não se fala mais nisso, eu sei
Eu serei pra você o que não me importa saber
Hoje não passa de um vaso quebrado no peito
E grito
Olha o beijo partido
Onde estará a rainha que a lucidez escondeu?
Hoje não passa de um vaso quebrado no peito...
(Milton Nascimento - Beijo Partido)
E é isso.

::Eu queria fazer teatro só por causa da putaria::

Eu disse isso ontem, no meio de um monte de atores, diretores e artistas cênicos. Era uma piada inocente, mas aparentemente mexeu com uma diretora, que por defender com muita vontade seus próprios pontos de vista, deve passar uma ou duas noites sem dormir toda vez que ouve algo do tipo. Meu irmão (que é ator), me mandou uma mensagem dizendo de um suposto “choque” dela sobre a frase e sobre a vontade dela de escrever sobre isso. Daí eu pensei “foda-se! A frase é minha e eu quero escrever também!!!”.
Eu sou um escritor amador, contador de histórias amador, bibliotecário amador, resumindo, um ser humano amador, o que me dá uma certa plasticidade pra assumir sempre a visão do público, a subjetividade do simples gostar ou não do que faço e do que consumo. Não me preocupo com pra quem estou escrevendo e a muito tempo não conto histórias como um sujeito que incentiva a leitura e sensibilidade nas pessoas. Faço o que tenho vontade, quando tenho vontade e isso retira a beleza e a responsabilidade de qualquer coisa que eu acabe produzindo. Portanto, a primeira constatação que faço sobre o que disse é que é uma frase minha que critica uma postura minha, de sujeito tosco que, por opção, não se aprofunda no entendimento com uma determinada área. Logo, se eu fosse fazer teatro, seria também de uma forma amadora, só pela diversão, porque é divertido, porque é meio obsceno e delicioso.
Mas deixo claro que eu sei o que é o trabalho poético, sei o que é a postura profissional e a dedicação possuída por um diminuto grupo de pessoas no mundo não somente no sentido de aperfeiçoar o próprio trabalho, mas principalmente de tentar romper as barreiras do moralismo aprisionador, da imbecilidade generalizada, dos determinismos religiosos. Além disso eu acredito piamente no poder transformador da poesia e da liberdade no sentido de nos tornar menos miseráveis e mesquinhos.
O mundo é por si, imoral, mesquinho, cheio de putarias, violências, distorções, meias verdades, coersões e tiranismo. Invariavelmente qualquer forma de expressão artítistica sincera vai esbarrar incomodamente nisso, independente do ângulo que assumir (de descrição ou contestação) do assunto.
Escrevo isso porque todas as noites eu vou dormir pensando sobre as minhas exclusividades diantes de um mar de pessoas reprimidas, mal-amadas, que crêem que a felicidade se constrói através do aprisionamento e controle dos desejos alheios. E eu penso “Deus, seria eu um libertino porque não tenho medo do meu sexo, porque não sou homofóbico, porque não me preocupo com quem dá pra quem ou quando isso acontece? Deus, o senhor me odeia porque eu simplesmente deixo que os outros seres humanos façam suas próprias escolhas?”
Sou um amador sim, mas porque ainda não escolhi qual dos problemas do mundo deveria combater com toda a minha fé, se a fome, a ignorância, a violência ou a descrença. O fato é que respeito e aprecio as pessoas que fizeram essa escolha e estão por aí tentando se satisfazer e fazer do mundo um lugar menos estupidificado, mesmo que nem sempre elas saibam disso. Mas eu acho que elas sabem.

::Lullaby::

Fazia um calor danado e mesmo com o vento eu me sentia meio incomodado. O sol das quatro horas queimava meu cocoruto e minha camisa preta só aumentava a sensação de que eu cozinhava minuto após minuto. Mas eu estava feliz, já que aquele era um dos momentos que vinha aguardando com certo anseio. A criança loira e de olhos muito grandes e bonitos se aproximava com seus passinhos rápidos de criança, o vento atrapalhando seu cabelo comprido e naturalmente desgrenhado. Eu talvez devesse, não fosse uma pessoa tão cínica pra todas as coisas do mundo (em especial pras do mundo das crianças), fazer uma reverência ao principezinho que se aproximava, bochechas redondas e mordíveis na moldura do sorriso, mas preferi sorrir em sua direção e cumprimentá-lo com meu “bom dia” de praxe.
“Bom dia” – me respondeu ele. “Vim, como disse e você já sabia que eu vinha.”
Havia em sua voz o orgunlho de uma palavra rígida e cumprida ao cabo, que era a de estar ali e a de principalmente, deixar-me estar ali ao seu lado, aprendendo com ele um segredo eterno que me faltava. Ele colocava em mim uma grande vontade de sorrir ao mesmo tempo que me evocava o medo de que de alguma forma isso pudesse magoá-lo. Não queria que nunca se pensasse que meu sorriso (que poderia muito bem se expandir em gargalhadas) se devia ao fato de achá-lo ridículo e é o que as crianças pensam quando não as levamos à sério, mesmo quando não as levamos à sério de brincadeira. Me controlei, mas ouvia meu coração muito alto.
“O que devemos fazer? Eu gostaria muito de aprender. É difícil?” Perguntei a ele sabendo já de todas as dificuldades.
“É fácil, mas exige paciência. Porque tudo exige, principalmente o carinho. Nós vamos nos sentar aqui e esperar no sol quente. Tente manter o olhar por cima dos ramos e não se enraivessa por mais que nada de bom nos aconteça agora.”
E ele se assentou e eu me assentei e ficamos os dois a observar os ramos verdes de capim e uma ou outra árvore ao longe. Quis conversar sobre um não-sei-o-quê, não ficar parado, me aproximar dele e enchê-lo de cócegas, mas a lição estava exatamente na espera, uma que eu nunca soube esperar. Eu tinha que fingir que ele não estava ali, porque tudo se tratava de estar, ainda, sozinho.
Eu não me diverti e não sei se alguém consegue se divertir em meio a esse tipo de expectativa vazia, sem eco, com a única certeza de que o tempo deve passar e não passa e portanto tem o peso exato do que é cada instante perdido a observar o céu e pensar na própria solidão. Mas mesmo assim eu continuei sentado ao lado do Pequeno Príncipe, que olhava compenetradamente para o horizonte e para dentro de si, que de tempos em tempos movia os lábios numa conversa muda consigo mesmo, abraçado aos joelhos,  com o cabelo caindo-lhe pela cara.
Depois de um tempo infinito e dolorido de mais de uma hora, quando o sol também já dava seus sinais de cansaço, é que algo de importante nos aconteceu. Na linha do horizonte, onde repousavam os olhos do Principezinho, delineou-se uma silhueta tímida de coisa que não queria estar lá, mas estava. Arqueei minhas sobrancelhas e apertei com força as mãos, de angústia, de nervo de me levantar e correr pra pegar. Finalmente enxergávamos a raposa que deveria vir ao nosso encontro e que traria a outra metade da lição.
“Nós não podemos nos mexer. A raposa é um bicho arisco e medroso. Nós estamos aqui e ela está lá por uma razão: ela não confia em nós e não nos ama”.
“Você ama a raposa, Pequeno Príncipe?” Eu não resisti, eu precisava perguntar. E percebi imediatamente o efeito que isso teve nele, pois foi como se outra raposa, ou um exército de raposas loucas o cercassem e tomassem de assalto sua pequena segurança de menino. Seu rosto ficou sombrio e confuso por um tempo. Ele mordeu os lábios e me olhava com medo e desconfianaça. Abruptamente se levantou e saiu correndo em direção oposta à raposa. A raposa ao perceber a movimentação grosseira e espontânea, correu, por sua vez, de volta à inexistência do além do horizonte. Eu continuei sozinho, sentado no capim, sabendo que havia procedido mal e estragado tudo, mas que havia ali ainda, a minha lição, mesmo que eu fosse um péssimo e reprovado aluno. Ele simplesmente não tinha se dado conta de que também temia a raposa. E que também temia a mim. E que as esperas silenciosas e tristes eram, talvez, campos de segurança para todos nós e eu havia feito o de sempre, afastando as pessoas por penetrar bruscamente em seus territórios sagrados. Eu sabia o que deveria fazer, mas continuava, como sempre, sem a mínima idéia de como fazer…