::Lullaby::

Fazia um calor danado e mesmo com o vento eu me sentia meio incomodado. O sol das quatro horas queimava meu cocoruto e minha camisa preta só aumentava a sensação de que eu cozinhava minuto após minuto. Mas eu estava feliz, já que aquele era um dos momentos que vinha aguardando com certo anseio. A criança loira e de olhos muito grandes e bonitos se aproximava com seus passinhos rápidos de criança, o vento atrapalhando seu cabelo comprido e naturalmente desgrenhado. Eu talvez devesse, não fosse uma pessoa tão cínica pra todas as coisas do mundo (em especial pras do mundo das crianças), fazer uma reverência ao principezinho que se aproximava, bochechas redondas e mordíveis na moldura do sorriso, mas preferi sorrir em sua direção e cumprimentá-lo com meu “bom dia” de praxe.
“Bom dia” – me respondeu ele. “Vim, como disse e você já sabia que eu vinha.”
Havia em sua voz o orgunlho de uma palavra rígida e cumprida ao cabo, que era a de estar ali e a de principalmente, deixar-me estar ali ao seu lado, aprendendo com ele um segredo eterno que me faltava. Ele colocava em mim uma grande vontade de sorrir ao mesmo tempo que me evocava o medo de que de alguma forma isso pudesse magoá-lo. Não queria que nunca se pensasse que meu sorriso (que poderia muito bem se expandir em gargalhadas) se devia ao fato de achá-lo ridículo e é o que as crianças pensam quando não as levamos à sério, mesmo quando não as levamos à sério de brincadeira. Me controlei, mas ouvia meu coração muito alto.
“O que devemos fazer? Eu gostaria muito de aprender. É difícil?” Perguntei a ele sabendo já de todas as dificuldades.
“É fácil, mas exige paciência. Porque tudo exige, principalmente o carinho. Nós vamos nos sentar aqui e esperar no sol quente. Tente manter o olhar por cima dos ramos e não se enraivessa por mais que nada de bom nos aconteça agora.”
E ele se assentou e eu me assentei e ficamos os dois a observar os ramos verdes de capim e uma ou outra árvore ao longe. Quis conversar sobre um não-sei-o-quê, não ficar parado, me aproximar dele e enchê-lo de cócegas, mas a lição estava exatamente na espera, uma que eu nunca soube esperar. Eu tinha que fingir que ele não estava ali, porque tudo se tratava de estar, ainda, sozinho.
Eu não me diverti e não sei se alguém consegue se divertir em meio a esse tipo de expectativa vazia, sem eco, com a única certeza de que o tempo deve passar e não passa e portanto tem o peso exato do que é cada instante perdido a observar o céu e pensar na própria solidão. Mas mesmo assim eu continuei sentado ao lado do Pequeno Príncipe, que olhava compenetradamente para o horizonte e para dentro de si, que de tempos em tempos movia os lábios numa conversa muda consigo mesmo, abraçado aos joelhos,  com o cabelo caindo-lhe pela cara.
Depois de um tempo infinito e dolorido de mais de uma hora, quando o sol também já dava seus sinais de cansaço, é que algo de importante nos aconteceu. Na linha do horizonte, onde repousavam os olhos do Principezinho, delineou-se uma silhueta tímida de coisa que não queria estar lá, mas estava. Arqueei minhas sobrancelhas e apertei com força as mãos, de angústia, de nervo de me levantar e correr pra pegar. Finalmente enxergávamos a raposa que deveria vir ao nosso encontro e que traria a outra metade da lição.
“Nós não podemos nos mexer. A raposa é um bicho arisco e medroso. Nós estamos aqui e ela está lá por uma razão: ela não confia em nós e não nos ama”.
“Você ama a raposa, Pequeno Príncipe?” Eu não resisti, eu precisava perguntar. E percebi imediatamente o efeito que isso teve nele, pois foi como se outra raposa, ou um exército de raposas loucas o cercassem e tomassem de assalto sua pequena segurança de menino. Seu rosto ficou sombrio e confuso por um tempo. Ele mordeu os lábios e me olhava com medo e desconfianaça. Abruptamente se levantou e saiu correndo em direção oposta à raposa. A raposa ao perceber a movimentação grosseira e espontânea, correu, por sua vez, de volta à inexistência do além do horizonte. Eu continuei sozinho, sentado no capim, sabendo que havia procedido mal e estragado tudo, mas que havia ali ainda, a minha lição, mesmo que eu fosse um péssimo e reprovado aluno. Ele simplesmente não tinha se dado conta de que também temia a raposa. E que também temia a mim. E que as esperas silenciosas e tristes eram, talvez, campos de segurança para todos nós e eu havia feito o de sempre, afastando as pessoas por penetrar bruscamente em seus territórios sagrados. Eu sabia o que deveria fazer, mas continuava, como sempre, sem a mínima idéia de como fazer…

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Um comentário em “::Lullaby::

  1. Gigi disse:

    o silêncio me apavora!!!
    mas nunca desaponte uma criança… elas depositam total confiança em nós!!!

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