::Corsário::

Eu chego em casa mal. O estômago aperta muito e ninguém está em casa. São seis da tarde, mas está tudo escuro, tudo nublado. Caminho de forma incerta até a cozinha e me descubro encarando a geladeira aberta já há algum tempo. Fecho a geladeira e caminho até o filtro. Não há copo e eu volto até a geladeira, não sei bem por quê. Descobri que esqueci que queria um copo e me dirijo até o filtro, até o armário e de novo pra geladeira. Com muito ódio de mim faço as coisas certas e bebo água. Ao passar pelo corredor que leva ao quarto entro num outro cômodo, o banheiro, porque a água entrou em meu corpo como um veneno letal. Eu começo a vomitar e chorar compulsivamente, contorcendo o rosto e gemendo muito alto. Não há ninguém em casa. Meus irmãos estão ainda em suas escolas e mamãe trabalha compulsivamente até depois das nove. Eu me limpo, enxugo o rosto e consigo caminhar até o quarto. Me sento na cama e volto a chorar. Não há nada a fazer nesse ponto, mas eu tento procurar algo que me distraia do ridículo da situação de uma criançona de quase dezoito anos chorando enquanto ajeita meias e cuecas nas gavetas. Ligo o som, delsigo o som, ligo o som de novo e o largo ligado, a mensagem “cd” acessa em vermelho, logo depois que o “hello” se vai. Procuro por algo embaixo da cama. Há paéis e caixas de jogos e eu não quero ler nada do que está escrito nos papéis, nas cartas pra ser mais exato. Minha bíblia está lá e eu a agarro e um grande aperto no estômago me contorce de volta para o banheiro. Eu vomito com jesus e seus amigos apertados entre minhas mãos.
Não há o que procurar no livrão, mas mesmo assim eu o folheio, como se uma resposta fosse aparecer. “porque assim diz o Senhor, o Deus de Israel, a respeito das casas dessa cidade e das casa dos reis de Judá, que foram derribadas para a defesa contra as trincheiras e a espada: quando se der a peleja contra os caldeus, para que as encha de cadáveres de homens, feridos por minha ira e meu furor, porquanto dessa cidade escondi meu rosto, por causa de toda a sua maldade…”
Não, não havia ali resposta, era só um trecho inútil, como sempre, eu não me senti confortado por Deus. Peguei me celular no bolso pra conferir as horas. Sete. Voltei ao quarto e não tive coragem pra atirar longe o livro. deixei-o com o respeito de um crente sobre o travesseiro da cama desarrumada. Procurei na gaveta de músicas por um cd, o “Revolver” do Beatles. Saí do quarto e me dirigi à sala. Voltei até o banheiro, lavei o rosto, escovei meus dentes e me senti estranho. Eu continuava a chorar e não era aquele choro seco e cansado, era como se as lágrimas nunca fossem acabar. Eu tinha uma resistência fenomenal em continuar sofrendo. O Carlos morreu, eu pensava. Meu melhor amigo morreu e eu não quero mais ouvir Beatles. Sem ele não tem graça. Fechei a porta pelo lado de fora e percebi que não é a religião, mas a música que traz as respostas, porque da casa de algum vizinho sem coração me vinham os versos “Ooh, a storm e threatening, my very life today. Come on baby, gimme shelter, or I’m gonna fade away”.
I was fading away. I was a teenager then.

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