::Meu relógio parou::

E era uma vez uma moça que amava um moço que não, não sabia que ela existia. Mas ele soube, ele nunca a amou de volta e mesmo assim eles foram os dois juntos e de mãos dadas inventando um amor que não existia e fingindo que eram felizes. Não eram, porque tudo isso que é inventado pros outros ou inventado fraquinho pra mente não é sólido, não tem perfume e pode ser que acabe sempre pra sempre. A moça amava sem saber que o amor é uma coisa que nasce do antes, de um tempo que existe dentro de tudo que é falso, mas sólido. O tempo de verdade por não existir não né capaz de dar cria, principalmente uma difícil como amor certo. Acaso não havia ela amado antes do tempo, antes mesmo de saber que amava? E é assim com coisas que não se constroem. Mas feito de enganações, o mundo seguiu calado quanto aos sentimentos daquele casal, planejava arruiná-los em tempo certo, provando aos dois a fragilidade disso que consideravam miseravelmente como certa. Brotou das paredes, nos sonhos e através de todos os canais de comunicação (internet, televisão, cartas, aparelho de som, todos os aparelhos de som) um amor que era de verdade, mentirosamente sólido e infinito, já nascido assim e que não carecia de bobagens como companhia ou laços pra existir. Nasceu, eu disse, mas não pros dois. Havia outra pessoa envolvida na questão do amor. Coincidência ou crueldade planetária, essa nova pessoa – outra mocinha – também fazia par com o amor expontâneo e sentia também amor que sim. A primeira moça era impotente cotra o tempo, contra o mundo, contra Deus e o sofrimento. Ela abaixou a cabeça, apagou a luz e se foi. O amor de verdade triunfou e isso é lindo, mas dá dó dos amores não correspondidos que criam os vilões das histórias.

::Um menino caminha::

Post originalmente publicado em 25/08/2006

As pessoas acordam com todo o tipo de sensações diferentes, algumas com uma disposição imensa de concluir projetos e executar idéias. Podemos responsabilizar por isso o clima, pois é muito melhor agir conforme nossa própria vontade quando temos sol e brisa à favor. Sendo recente ou antigo, o plano estava sendo posto em prática após a última xícara de café.
O homem se levantou, limpo e perfumado, para sua caminhada até uma distribuidora de embalagens. No caminho cumprimentou um vizinho, não muito efusivamente, mas com a cordialidade que lhe era própria e ao atingir a rua foi impossível esconder a ampliação de sua satisfação por ter escolhido um dia tão belo para tomar uma decisão tão importante. O embrulho adquirido na distribuidora era leve, porém desajeitado, atabalhoando o caminho de volta e dificultando o atravessar de ruas. Era como uma grande folha de papelão, envolta em papel de embrulho para se proteger de quaisquer intempéries, por mais pecaminoso fosse pensar nelas naquela muito específica manhã.
De volta à casa, o homem levou o embrulho até o quarto e tirou-lhe o papel, dobrando-o e colocando-o com todo o cuidado dentro da lixeira. Voltou ao quarto e transformou a grande folha de papelão em uma caixa grande. Grande o suficiente para conter um homem.
Foi ao quarto de despensas e voltou com um pincel e uma lata de tinta vermelha. Escreveu algumas letras, guardou pincel e tinta e voltou ao quaro, onde se assentou apreciando a caixa.
Após alguns minutos de contemplação, se levantou e entrou dentro da caixa, deitando-se ao fundo. Sua completa solidão e o feriado seriam a garantia de que não seria incomodado na execução deste pequeno projeto particular.
O sol entrava por uma fresta da cortina, deixando uma meia luz no quarto e ele sentia o cheiro e a textura do papelão, enquanto se ninava com o pulsar calmo de seu coração.

::tum-dum-tss!::

Entramos num bar, Álvaro de Campos, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos e eu. Não pude deixar de notar a proximidade dos nomes de todos eles, pensando que a vida é, de momentos, tão parecida com as histórias em quadrinhos. Eu era único ali em diversos aspectos:
_O único cujo nome não se iniciava com “A”;
_O único cuja a capacidade de expressão em versos era nula;
_O único que falava de mim fanlado de mim e não do universo;
_O único vivo;
_O único que não fumava, o que, pra mim, era realmente o mais incômodo.
Apesar disso, tudo correu tranqüilamente (ou como eu imaginava). Campos assustava os outros dois, com ceninhas e tapas na mesa, bebíamos compulsivamente, nenhum de nós tinha muito a perder (e isso tem pouca relação com o fato de se estar ou não vivo) e eu pude fazê-los rir. Quase o tempo todo. Acho que o Álvares de Azevedo realmente gostou de mim. Bastante… demais… acho que eu devia deixar umas coisas claras pra ele ou não convidá-lo pro próximo encontro. Mas isso não foi o importante da noite. Sucede que eu pude ouvir os pontos de vista de três moribundos, rejeitados (“Eu sou a crise! Eu sou a expressão da crise maior! Poderia ser qualquer um de vocês” bradava Campos, cuspindo fumaça). Eu fiz o que sempre soube. Me insinuei entre as personalidades deles e num determinado momento eu era como cola, não muito vistoso, mas imprecindível para que as peças continuassem ali (sem se agredirem). Pensei que poderia me aconselhar com todos eles, mas esse é um pensamento tão fracassado que chega a ser hilário. Viveram pouco e durante esse tempo não eram exatamente sábios. Sabiam, cada um, da própria solidão, do sentimento de não-pertença, da inutilidade dos esforços humanos, onde creio que devo entender “humanos” como eles mesmos. Creio, inclusive, que levaram de volta pro túmulo uma ou outra palavra que teria sido útil em vida. Pena não haver no espaço em que cada um viveu, livros de auto-ajuda. Pra minha sorte, isso proporcionou-os a mim.
O mais distante, observador, de certa forma indiferente era Augusto dos Anjos. Falava pouco, demonstrava pânico olhando de lado. Sorria comedidamente com a mão sobre os lábios. Tentava se mostrar seguro, mesmo que eu soubesse que não tinha a mínima idéia de que sentimentos eram aqueles que eu expunha bebadamente. Até que ao fim, perto do fim, agarrei sua manga e perguntei “Como?! Como, eu te perguntou, você sabia de todas as conclusões, todos os finais? Como sintetizou em apenas um poema? Uma merdinha de soneto! Está tudo ali!!!” Então ele se recompôs, olhando obliquamente pra todos nós, querendo apenas medir o silêncio e sentir a glória da pergunta que foi destinada a ele e a nenhum dos que estavam bem mais envolvidos comigo.
“Está nas pequenas coisas” disse ele. “Nos avisos, nas mentiras, nos desejos afogados. Em tudo que é insinuação e duplo sentido. A certeza de que nós vamos nos ferir, de que o ser humano é cruel, ingrato e egoísta. Estamos todos à deriva, buscando um Deus inexistente pra guiar nossas consciências e leis científicas que governem nosso envelhecimento, nosso constante apodrecer. Estamos todos nos tornando piores, vivos ou mortos, com a passagem dos segundos.” Álvares de Azevedo abriu um largo e amargo sorriso, levantando seu vinho de brindando aos versos íntimos. Brindamos todos, mas eu continuei onde estava, de onde não havia saído. A eterna mania de duvidar, de ficar, fincar o pé. Vou morrer mula, tive certeza. Mas já ultrapassei em anos dois, falta um que vai ser ainda difícil, mas é só fincar o pé e não desistir, mesmo lutando a guerra que todos perdemos há anos.
Mais tarde que aquilo pagamos a conta e voltamos cada um com sua tristeza pros buracos de onde saímos. Eu levava comigo ainda o medo da morte, que talvez devesse ter entrado na lista de coisas que me tornaram único ontem. Eu ainda me importo. Eu ainda penso na morte sem fazer parte dela. E aí passou meu ônibus.

::Bordões e gritos de guerra::

“I hunt, therefore I am”

Depois de alguns anos, essas coisas se tornam todas muito interessantes. Não há manuais. Ou há, mas são para os fracos, pros que não entendem onde está a parte boa de fazer o que eu faço. É a diferença entre o Bungee Jump e o tranquilo acampamento de final de semana. O primeiro até parece mais emocionante, arriscado, libera uma quantidade absurda de adrenalina em milésimos de segundo. Mas é de mentira. Você está muito bem preso à cordas e equipamentos de segurança. O salto é falso, a queda é falsa, o medo é provocado, como numa experiência conduzida em laboratório. Já num acampamento tudo pode dar errado. Você é mais um elemento da equação, uma das coisinhas que se esbarram caoticamente. Loucos, cachorros do mato, vacas desembestadas, quedas de barrancos, afogamento, tudo isso está na lista de quem gosta e de quem odeia acampamentos. São os motivos. Não há câmeras ou cordas filmando a realidade.
Não sabemos viver em paz como os antílopes e os coelhos porque somos carnívoros, porque temos os olhos na parte posterior do crânio e não nas laterais. Podemos sim, com a bênção da engenharia de alimentos e de um exército de nutricionistas, abdicar da carne. Mas todas as outras características carnívoras não nos abandonam. Brincamos, nos amamos e fazemos planos a todo o instante. Somos, infelizmente, caçadores por natureza. Caçamos pessoas, palavras, sentido.
Enquanto nascem prontos os herbívoros, com sua pelagem, e mecanismos naturais de defesa, o caçador precisa de mais que seu corpo, precisa de estratégia e adaptação. Quando você se pega escolhendo a roupa com que sai de casa: estratégia. Quando escolhe a hora de pedir aumento: estratégia. Quando escolhe as palavras e os verbos que arranjará em versos lindos e cativantes: estratégia. Coisa de quem não consegue viver em paz mascando suas folhinhas ou acumulando sementes.
A compreensão deturpada desse princípio gerou na grande maioria das pessoas a sensação de que vamos para um campo de caça, caçar e ser caçados numa estranha dança sexual onde todos pensam estar conduzindo. Falso. O que temos nas noitadas, boates, festas é simplesmente bungee jump. Emoções padronizadas, escolhidas e facilmente contornadas.
A vida começa a fazer sentido onde as coisas podem dar errado, onde a vida é realmente alterada pelo poder das ações. Onde são respeitadas as vontades individuais e não as convenções sociais de um determinado local. O sentido pra tudo vem da improbabilidade, vem do que não se pode controlar. Significado está em fazer parte de um sistema desconhecido e caótico, sabendo que cada uma de suas atitudes vai e vai (E VAI), desencadear uma série de consequências boas e ruins, todas inesperadas. Ou quase todas inesperadas.
Meu objetivo é fazer do mundo um local mais agradável e feliz pra todos os que me cercam. Impossível, mas eu continuo bolando os estratagemas. Eu continuo caçando em nome da beleza e da poesia.

::(:-(-:)::

Estou triste, de alma tranqüila e feliz. Estou triste de alma tranqüila e feliz. Ou não. Ou melancolicamente feliz e calmo, esperando explodir sabendo que não vou. Melancólico sigo, às vezes feliz e às vezes triste, sem reconhecer ou conhecer oslimites certos ou certas personagens dos sonhos. Tudo é muito. Longe e estrangeiro. Drummond, meu amigo, eu também não vi meus alienígenas.

Acho que triste… hoje.

::Lua e conhaque::

Retirado daqui que retirou daqui primeiro…

 

cda

 “Antologia poética”, de Carlos Drummond de Andrade

“O primeiro amor passou / O segundo amor passou / O terceiro amor passou / Mas o coração continua”. Estes versos tocam você, pois você também observa a vida poeticamente. E não são só os sentimentos que te inspiram. Pequenas experiências do cotidiano – aquela moça que passa correndo com o buquê de flores, o vizinho que cantarola ao buscar o jornal na porta – emocionam você. Seu olhar é doce, mas também perspicaz.
“Antologia poética” (1962), de Drummond, um dos nossos grandes poetas, também reúne essas qualidades. Seus poemas são singelos e sagazes ao mesmo tempo, provando que não é preciso ser duro para entender as sutilezas do cotidiano.