::Ulisses, por si::

Você não é as roupas que veste. Não é o conteúdo de sua carteira. Não é o carro que dirige ou seus móveis caros, em apartamentos de bairros nobres. Esse pensamento é ridículo, porque pra mim, quanto mais você discorda dele, maior fica minha comissão, logo não quero te fazer pensar. Você nunca conseguiria. Você quer cores e coisas da moda. Xadrez está na moda. Os anos 80 estão na moda. Vaca fútil. Vaca fútil e gostosa. Mas não tenho nada especialmente contra você. Foi criada para a imbecilidade, assim como os Rps e administradores de empresa. Vocês incoscientemente tornam o mundo muito pior, com suas mentezinhas rasas e incapacidade para pensar a liberdade ou desejos e necessidades “realmente” coletivos. Vocês são uns néscios, mas porque não poderiam ser diferente, afinal são burros demais para pensarem por si. O que realmente me irrita, o motivo de eu acreditar indiscutivelmente no poder da violência, na efetividade da tortura como instrumento de ensino são as pessoas que, treinadas para pensar, de posse de mais nada que se diferencie de intelecto, optem por ser como vocês. Nada dói (mesmo que seja uma dor comissionada) tanto quanto vender calças largas e rasgadas ou muito pretas e justas aos punks de botique que cursam Letras ou Filosofia, vender tímidas camisas de malha de 80,00 pra pseudo-indies que assistem semanalmente filmes de Bergman e Fellini. Vocês leram Todos os fancy escritores, Roth, Borges, Casares, Barbery. E por isso tinham o dever de se levantar contra tudo isso e não se levantam. Pendantes! Filhos da puta! Um dia eu os matarei a todos. Mas você é quem vão me dar o dinheiro com o qual eu comprarei as balas.
A revolução é impossível, improvável. O sistema capitalista desigual da direita globalizada venceu tão logo acabou a segunda guerra mundial. No Brasil o PSDB virou à pouco oposição e já tem gente que esqueceu! Esqueceram por que é que nos opúnhamos à eles… e eu nem votava, mas sempre me pareceu tão importante para que vocês se esquecessem…
Sejamos sinceros, sim, sejamos, para que com isso seja combatida a hipocrisia e o preconceito. A pobreza de espírito. Já que nos é impossível a anarquia, subvertamos os sentidos do sistema e façamos os caminhos inversos. Eu vendo roupas caras, de marcas que às vezes penso que terei que pagar para pronunciar o nome. E subverto a história, o sitema e o senso comum (o cimentinho do sistema) não aceitando ser mais um idiota a serviço de uma vida que não é a minha. E vivo e convivo com os grandes deuses da liberdade. Gente que não se importa ou que enlouqueceu. Gente sincera, mas tão sincera que acabou sozinha na casa velha! Eles são meus irmãos, meus mestres e meus soldados. Mesmo que eu não entenda direito Teodoro e João não tenha sido feito pra entender. Meu sentido só existe quando eles estão existindo e mostrando que sim, devemos ser sinceros e lutar para que com isso o universo se adeque. Eu quero ser feliz através de minha sinceridade. Quero que cada uma das pessoas desse maldito shopping esteja em constraste comigo, com minhas opiniões e que todos saibam que eu estou aqui para que a minha vida e meu espírito e meus pensamentos sejam dialéticos. Eu sei o que sou e isso me torna maior que todos vocês. Eu não sou o conteúdo de minha carteira, meus documentos ou mesmo os colchões velhos de meu quarto. Eu sou completo porque reflito. Eu sou a negação e a contradição. Eu confio em mim!

::Saint Stephen ou Ziggy Stardust::

Preciso me sentar e conversar um pouco mais com João. O homem é esguio e longíncuo. Não conversa, sorri de lado e odeia olhar no olho. Mas existe um romântico ou carente ou alguma coisa que seja macia debaixo do ar casmurro e da obssessão pelo violão. Ao contrário da maioria dos desiludidos e cínicos, João acredita na alma humana, pelo menos como um conceito. E é por isso que não gosta de conversar, porque pensa o temo todo a possibilidade de um diálogo mais denso, mais completo, estabelecido pelas almas. Uma bobagem? Pois sim. Mas é a forma dele encarar a vida. Pra João as almas se parecem com jardins (acho que pra Clarice Lispector, idem). Ou não, talvez as almas sejam vegetação. Algumas pessoas escolhem transformar suas almas em jardins. Flori-los, apará-los, dar todo o sentido da ordem, do perfume. Outras tantas se cansam de tudo isso e preferem simplesmente aproveitar o próprio espaço. Cimentam. João jura que possui um jardim, mas qualquer um que possa olhar demoradamente a alma de João verá que não. É tudo caótico, disforme e primitivo. Não há um princípio de organização e o mato cresce livremente. A alma de João cheira à terra molhada e úmida. Planta podre e viva, uma se alimentando da outra. Há flores, há. Mas estão espalhadas pela alma e é necessário uma caminhada cuidadosa para que se encontre. Mesmo assim, não é uma caminhada desagradável, isto é, pra quem não tem gastura de sujar os pés e arranhar a cara.
E João faz essa caminhada a todo instante. Às vezes unicamente pela própria alma e em outras tentando trespassar tudo e caminhar os pés nos jardins, quintais, na grama dos outros. Por isso quase não conversa. Mas leva consigo uma rosa e onde quer que vá, só vê pessoas reclamando.

::segredos::

Em algum lugar há uma pessoa que ama Ismael. E exatamente por saber disso, por pensar e martirizar-se com a sensação é que Ismael sai de quando em quando do mesmo rítmo que os outros habitantes do planeta, caminhando ermamente e procurando por algo. O espaço comum em que pode se ocupar de si e dessas pequenas reflexões é aquele fim de tarde, já quase noite, onde todos estão apressadamente voltando pra suas casas, tentando abandonar a escravidão das máscaras sociais. Ismael não. Sua máscara talvez seja mais forte, ou talvez inexistente porque estar ou não pra ele é indiferente. Sabe que alguém o ama e pressente nisso algo de horrível. Dentro da confusão de corpos sons e cheiros que se amontoam no caminho de sempre, Ismael pensa e procura soluções, tenta desentender todo um universo para que a insignificância de tudo represente a insignificância do amor e, portanto, de si. E após muito esforço ele parece perceber um ponto do qual é feita a realidade, pois ele deixa seu caminhar lento para assumir uma pose estacada, cenho franzido, obervando um buraco de sua alma refletido na sua frente, uma pequena abertura do mundo no meio das pessoas que voltam pras próprias casas. Ismael tenta tocar esse vão e estica o braço e arranca algo da matéria do universo, mas se percebe louco como um macaco que catasse um piolho do ar. Viver é muito estranho e Ismael precisa pegar o ônibus pra casa velha.

::Quase que não dá::

Há dez minutos do finalzinho do dia:

Eu tô doidin por uma viola
Mãe e pai, de doze cordas e quatro cristais
Pra eu poder tocar lá na cidade
Mãe e pai, esse meu blues de Minas Gerais
E o meu cateretê lá do Alabama
Mesmo que eu toque uma vezinha só
Eu descobri e acho que foi a tempo
Mãe e pai, que hoje ainda é dia de rock”
Eu tô doidin por um pianin
Mãe e pai, com caixa Leslie e amplificador
Pra eu poder tocar lá na cidade
Mãe e pai, um rockizinho para o meu amor
Depois formar a minha eletrobanda
Que vai deixar as outras no roncó
Eu descobri e acho que foi a tempo
Mãe e pai, que hoje ainda é dia de rock
Que hoje ainda é dia de rock
Que hoje ainda é dia de rock
Eu descobri olhando o milho verde
(eu descobri ouvindo a mula preta)
Mãe e pai que hoje ainda é dia de rock

(Sá, Rodrix & Guarabira)

Obrigado, Poetinha

::And the Band Played On::

O que há nas ruas é lixo, muito lixo. E em nós uma certa falta de propósitos. Caminhamos os que não temos filhos com um ar abobalhado semelhante ao dos pais e mães que circulam entre nós. A diferença é que eles têm por quem se esfalfar e às vezes até mesmo empurram nós outros. Há barulho de asfalto, motor, metal. Tudo amontoado sempre e com pressa. Essa pressa é uma coisa danada. Se vejo o que há é porque procuro um algo que haja, que haja pra mim. Sentido que não está ainda onde procuro. Sabendo de onde não se encontra deveria talvez, quem sabe, não procurar aí por ele.
Mas procuro.
É como quem dorme pra esquecer a fome ou como alguém que mergulhe os pés numa bacia com gelo para que não se durma. Eu procuro pelo lado de fora um sentido que não há pelo propósito de evitar o outro lado. Me convenço dessa simplicidade besta do existir nas faces de meus pobres amigos, os seres humanos. Suas mãos calejadas não perguntam e não filosofam e vários buscam em cigarros e tragos de cachaça uma mímica disso na cabeça. Deixam meus irmãos que a alegria do espírito esteja nas moças bonitas e redondinhas em seus corpos pequeninos, ou nas cores exuberantes das vitrines ou nos rapazes parrudos de braços de fora. Em qualquer lugar que não seja na consciência de que há um espírito a se alegrar por isso, até porque talvez não haja e isso amedronta demais para que se perca tempo.
Procuro querer o que querem meus irmãos, sentir como eles e por isso deliro, já que neles a ausência é, simplesmente, enquanto eu procuro pelo não estar, pela abstinência de uma mente. Tenho que pensar no não pensar e isso é irracional e é devaneio. E em devaneios eu sou cada um deles e me sinto pleno por isso e tudo é só apenas.
Triste, procuro sentir os cheiros e sons e sabores da cidade, tateando-a com meus pés. Flanelo andarilho por quarteirão após quarteirão, sendo louco com as luzes e a luz da lua, que é bonita e poética por ser um pedregulho absurdamente gigante e tão leve que flutua.