::Depois de muito ler Kerouac…::

Era uma vez um monge budista muito bom naquilo que fazia, sendo, praticamente, faixa preta em budismo. Como é simplesmente com a maioria dos budistas de verdade, que evitam lojas de conveniências, livros caros e comida natural, o sábio monge gostava de se isolar, meditar e observar a natureza, amando e chamando tudo de vazio. Certo dia, caminhava o homem Buda pela floresta e enquanto cria que tudo aquilo que era projetado pela sua mente e não existia era lindo e fantástico, deparou-se com uma montanha. “Uma bela montanha que merece ser escalada” lhe ocorreu. Careca, forte, ofegante e sujo, subia o monge alaranjado montanha acima, desconcentrando-se de toda a filosofia e sentindo com muita força o mundo que se forçava sobre ele mesmo. Era necessário parar e rezar, parar e pedir, parar e entender que nada e absolutamente nada era real e apenas Buda era a verdade. O vazio, mas um vazio que doía como o inferno em suas pernas. Ao atingir o cume da montanha, a agora pequenina figura do monge foi recompensada por uma nascente fresca, uma macieira e sombra para todo o sol e calor. Enquanto sentia sua mente recompensando-o, tomou um susto: havia mais alguém ali, estendido na terra, olhando pra cima e aproveitando tudo aquilo tanto quanto ele. “Olá senhor, sou um monge. O que faz sozinho aqui no alto da montanha?” O sujeito olhou e abriu um meio sorriso preguiçoso, do tipo que é apenas um vãozinho por onde passa amistosidade.”Olá monge, sou um pierciano e estou aproveitando aquilo que posso da realidade desta montanha.”
Monges budistas, mesmo os muito bons, tendem a se sentir magoados quando suas crenças mais profundas são assim abaladas por tão pouco. “Mas não há realidade e nem montanha, senhor. Tudo isso é uma invenção de sua mente, uma mentira necessária à evolução kármica. São seus sentidos que imaginam aqui uma montanha.” O pierciano olhou-o sério como todos os pragmáticos fissurados pelo rigor científico e respondeu. “Certamente são meus sentidos que projetam os signos da montanha em minha mente. Mas para que façam isso, têm todos eles que receber um estímulo externo. Não é uma mentira a realidade que vejo, apenas uma meia verdade, que é a interpretação que sou capaz de fornecer de um mundo real e imutável que nos cerca. Sendo assim, só posso ver a montanha e sentir a montanha e entender a montanha porque há um montanha a ser vista e entendida pelo meu ser.”
Os dois se maravilharam por um momento com a importância que ambos davam aos sentidos, dentro de suas próprias filosofias e como ambos consideravam os sentidos humanos culpados pela incapacidade de enxergar a verdade. Em nome disso, mais tarde, ao descer da montanha, encheram a cara de cerveja e se despediram prometendo repetir a dose. E a lição é: nem sempre há lições, nem mesmo nas coincidências. O budismo continuou sendo budismo e a semiótica de Pierce idem, mas tudo isso foi muito bom.

Um comentário em “::Depois de muito ler Kerouac…::

  1. dThara disse:

    Dentro de uma perspectiva schopenhaueriana, a conclusão me forneceu o que eu costumo chamar de otimismo do pessimismo (Embora os acadêmicos condenem a salada semântica; Parvos rogados!)… Obrigada por isso.

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