::Cadê a poesia que tava aqui?::

E afinal de contas, a poesia das coisas está em nós ou nas coisas mesmo? Porque de repente eu estou completamente perdido no meio de toda a falta de sentido universal.
Antigamente eu era um sujeito da chuva e do álcool, um andarilho ansioso e otimista, cheio de super poderes e carisma. Tudo que eu precisava fazer era sorrir. Tudo que eu precisava estava aqui e ali, espalhado, sociedade coletora e nômade.
Hoje eu sou um velho índio delirante. Não sou andarilho, apenas vago procurando espaços para quedar sentado aos suspiros. Se chove, eu simplesmente me molho, baixando os olhos e reclamando do frio. E nada é mais tão simples, nada é tão ao alcance dos braços e os braços nem se esticam por causa disso mesmo. Ontem mesmo eu ignorei umas crianças que poderiam ser minhas e que eu não ignorei já há um tempo atrás. Outras crianças alcoólicas como eu fui. “Há com certeza algo dentro de mim, o que será?”
Ajuda-me Vincent! Ajuda-me!

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::Idade das trevas::

O exemplo escolar é clássico: há um sujeito qualquer no alto do mastro de um navio com uma bolinha nas mãos. O navio está em movimento retilíneo uniforme, para efeitos de exemplificação, e o tal sujeito larga a bolinha lá de cima. Desprezando-se a resitência do ar, o vento e as gaivotas treinadas na recuperação de bolinhas, onde a dita cuja cairá? A resposta a essa pergunta sempre me perseguiu desde a primeira vez em que o exemplo foi apresentado. Por mais que os pacientes professores repetissem vezes e vezes que “Ao pé do mastro, devido a lei newtoniana da inércia.” minha mente tosca e medieval sempre repeliu a assertiva. Não acredito em Leis de Newton. Num mundo recheado de criacionistas, duvidar de uma lei física qualquer não é exatamente um crime grave. Além disso sempre fui muito discreto, nunca sugeri a proibição da física newtoniana ao longo do segundo grau e sempre fiz questão de escrever nas provas aquilo que os professores vinham ensinando. Seguindo o exemplo de outro grande cientista, pacientemente creio que “a verdade é filha do tempo e não da autoridade”. Imaginava que as leis de Newton nunca tinham sido suficientemente estudadas e colocadas à prova e que no momento oportuno a física quântica iria desmentir a atrocidade conhecida como inércia.
Confesso isso tudo para que meu presente estado de pavor e dúvida com relação à existência e à realidade seja devidamente entendido por quem quer passe os olhos nesse texto. Vindo mais cedo de Divinópolis para cá (Belo Horizonte). flagrei uma cena terrível e estarrecedora no momento em que meu pai fazia a ultrapassagem de um caminhão. Na lateral do mesmo havia um pequeno barril plástico com uma torneira e a maldita torneira pingava água. E pra meu desespero completo AS GOTAS DE ÁGUA NÃO APRESENTAVAM MOVIMENTO COM RELAÇÃO À TORNEIRA!!!! Elas caiam exatamente embaixo dela, ou seja, elas estavam na mesma velociadade do caminhão. Todos os meus pesadelos se revelaram verdadeiros: a lei da inércia é real. Newton tinha razão.
Estou agora com medo de sair da casa. O mundo é bem mais complexo e perigoso do que eu queria que fosse. E além de tudo é inercial…

::Alter::

Ele era como todos os outros bebês do mundo, rechonchudo, com dobrinhas nas juntas e pés de pão doce. Mantinha sempre um ar de surpresa meio catatônica na cara afundada entre duas bochechas gigantes e perfumadas. Irresistível, como o são todos os bebês. Exatamente isso fazia dele uma criaturinha onipotente, capaz de dobrar a vontade e a força de todos os adultos milhões de vezes maiores e mais sábios. Tinha a mania, como a de um rei bondoso, de acenar continuamente. “Dá tchauzinho”, diziam os pais enquanto do alto de toda a sua magnanimidade ele sacudia o braço rosa e estufado. Apaixonante e magnético não havia olhar que se desprendesse de sua presença ou expressão que quedasse indiferente aos seus acenos. Sorria aos súditos que se curvavam entre caretas e falsetes sem sentido, que, com as bocas cheias de água, aguardavam ansiosamente a oportunidade de morder-lhe as bochechas ou apertar aqueles pezinhos mínimos e perfumados.
O passar do tempo é uma coisa vertiginosa para bebês que dentro de uns poucos dias e umas ralas horas dobram o tempo de existência e ignorância sobre o universo. àquele tampinha não havia mais sentido algum que o de acenar. Se completava assim, emitindo vez por outra grunhidos. Os instintos determinavam sempre a hora de chorar e sorrir e as presenças ao redor cusavam conforto e estranheza, traziam sempre formas e cores, sons e cheiros novos que iriam fazer parte de partes do subconscientes sobre o qual milhões de cientistas se debruçam na tentativa de mapear como diabos se forma o pensamento e qual a raiz do sofrimento humano. Mas isso, o sofrimento, não passava de um borrão para a figurinha que se limitaria a mastigar, babar e destruir com toda a empolgação do mundo todas essas teorias, ao modo dos grandes gênios.
E em um desses dias muito próximos entre si, o bebê efusivamente acenava, acenava e se enchia de beleza e inocência, desaprendendo os adultos de sua etiqueta e seu conhecimento. Até que se estacou a sua frente, abaixando-se sobre seu carrinho a pitoresca figura de um rosto. Tal rosto era magro e detentor de uma barba negra e cheia, que guardava os odores de humanidade e cigarro em proporções não identificáveis, mas que estavam lá. O sujeito dono daquele rosto sorria e agarrando a mãozinha que acenava disse com muita empolgação “não se despeça assim de mim bebezinho. Melhor é cumprimentar que despedir-se.” dizendo isso deixou na testa da criaturinha um beijo, levantando-se a indo.
Após aquilo o bebê cresceu, dizem uns por culpa do tempo. O fato é que dentro daquele típico desenvolvimento humano, de ganhar músculos, gordura e estupidez contínua, algo dentro dele havia se quebrado, ou funcionava mal. O ser humano que o bebê havia se tornado nunca foi capaz de acenar ou cumprimentar, ou sorrir ou chorar, conversar e mentir. Morreu distante e casca, longe de tudo, de todos e  quietinho dentro si.