::No sonho ela se vestia de preto::

Vagava por um casarão esquisito. Esquisito porque não era propriamente sujo, mas havia o cheiro da velhice que encarde as coisas. E muitos corredores e muitas portas. Mas era uma casa, não um hotel. Casa e estava perdido nela. Achava que havia barulho, parava pra escutar e nada, mas daí achava novamente e partia em busca. Não sabia o que procurava, mas zanzava de um corredor pro outro, de vez em quando abrindo uma porta pra espiar o lado de dentro. O que há do lado de dentro de uma casa tão comprida.  Talvez estivesse procurando pela saída, mas tinha a noção de que havia perdido algo e precisava procurar antes. Até que num dos cômodos havia Nossa Senhora. Sentada numa mesa, era uma senhora séria e de ar resignado diante de muita tristeza. Viveu a vida e perdeu, pobrezinha. Mas continuava, infinita, ainda que vencida e de olhos baixos. Vagarosamente sacudia a cabeça numa negativa lenta diante de um fato que não era negado por ela, mas desentendido pelos outros. “Sabe por que Jesus morreu?”
“Para nos salvar?”
“Não. Mais ou menos. Morreu porque contrariou a lei. Nada há de mais agressivo às leis que o perdão. E jesus morreu porque perdoou muito. Todos. Fazia até milagres de bondade e era meu filho.”
“Era uma questão assim, tão política?”
“Não sei de política. Sei que perdi meu filho e que ele morreu pra que não se cresse mais em livro nenhum, todos mentem.”
Mas isso já não importava. Triste uma mãe que perde um filho. Mais triste ainda quando se tem a eternidade como espaço de sofrimento. Tomando as mãos de nossa senhora, disse:
“Não se obriga assim a desobedecer. Fazemos isso sozinhos. Deve haver outro motivo.”
E ao resolver que deveria continuar procurando pelos corredores, acordado já estava.

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::egoísmo::

_Mamãe, quando eu crescer quero ser muito melhor que as outras pessoas.
_Eu sei, filhinho. É só arranjar um emprego que te dê muito dinheiro.
_Não mamãe, elas não vão precisar saber.