::perfume::

Homem e mulher presos numa caixa metálica e se amando. Cada um num canto observam o mundo que os atravessa e se amam. O mundo mostra como a vida é veloz e as pessoas todas vazias, o homem ama a mulher e não sabe, a mulher ama o homem e não sabe. Homem e mulher se adivinham em sabores e texturas, sem olhares, sem histórias, se amam. Presos na caixa sem tempo, homem sente em seu corpo, numa angústia em suas gengivas, na vontade de morder os próprios dentes que ama uma mulher; mulher tem algo no ventre que a conta, um aperto entre as pernas e as mãos beliscadas por almas do outro mundo que lhe sussurram que ama o homem. cada segundo corrido por fora do metal, sobre a terra serve como gatilho de vulcão, o homem ama e quer a mulher, a mulher ama e quer o homem e nada os fará mais felizes naquele momento do que aquele momento em que seriam felizes.
No entanto esgotam-se os momento e abandonam o frio do metal pelo frio da chuva e o frio da pedra e frio. Homem que não e nem mulher.

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::Mr. Scarecrow::

Eu olho na direção dele e ele está lá, sendo. Desvio o olhar pro chão, penso na vida e penso numa pretensa vida pra ele, coisa de e se ele existisse. E ele está lá, ao seu modo, que me incomoda tanto. Procuro brincar com meus dedos, mas isso só me deixa mais e mais inquieto. Sei que por uma falta de opção ele me encara de volta. Sei que encarará qualquer um em seu campo de visão, que é largo, mas percorre somente a mesma maldita direção. Parado, esperando, ele é e se basta. O que mais enraivece nas existências simples é essa incapacidade de as tê-las. Eu não sei ser simples e isso torna a complexidade, a profundidade, um caminho incompleto. É elementar não se questionar. Saber é tão fácil que até mesmo os detetives sabem. Até mesmo os escritores das histórias de detetives sabem. E eu e mais quem reflita, não. Deus? Não sei. Justiça? Não sei. Amor? Não sei. Beleza? Não sei. Poesia? Não sei. É mais amplo que simplesmente acreditar ou não. Eu preciso saber, entender, esmiuçar, senão não torno meu, não usufruo. E no entanto ele continua sob as ordens e caprichos de Deus, do destino, do vento e do sol. De leve eu chuto a terra que é um ato contido de desespero para sentir a densidade e a concretute do universo nas pedrinhas e ao assistir o movimento devaneio com o momento em que ele irá se mover como eu e pensar e entender como eu, então será capaz de sofrer. E ao andar e frustrar-se, ao perceber o que é a chuva que cobre o seu rosto e se vai ele sentirá saudades. Saudades de quando não amava, saudades de quando isso era irrelevante porque era simples. E sua grande tentação é a volta, mas ela nunca ocorreria.
Mas sendo um espantalho, seu espaço é a imobilidade e apenas a chuva e o sol e a natureza de Deus poderão destruí-lo. Mesmo assim eu o vejo chorar e a lágrima de orvalho que lhe escorre e emite um pequeno brilho de jóia antes de ser sugada pelo tecido de sua pele parece-me a ação mais sensata de toda a realidade.

::1999::

Natália,
Sonhei novamente com você. Os conteúdos dos sonhos são irrelevantes, amo você e é a sua imagem que permanece colada à minha mente depois de acordado, mesmo quando choro. Você estava com o uniforme da escola e eu pedia sua compreensão. A Manu também estava no sonho e pedia que você não olhasse para trás.
As pessoas ao meu redor dizem coisas horríveis sobre você e eu tenho um pânico constante de que em algum momento você acredite que eu pense como elas. Não penso. Nem mesmo como Ismael, que apesar de tudo, tem sido minha melhor companhia.
Nós nos amamos, Natália, isso não some assim e não pode ser ignorado em função de uma diferença tão mesquinha de opiniões. Já disse, mas penso que a repetição pode levá-la a refletir melhor e quem sabe…, tomei minhas decisões pensando no melhor para nós. Talvez não no que nos seja imediatamente melhor, mas pensando num futuro. Um futuro com filhos, conforto e vários canteiros de margaridas que eu faria questão de plantar pra você! Nunca conseguiria isso se continuasse com o emprego antigo, eu ia tomar bomba e você sabe!
Acredito em nosso amor com a mesma cumplicidade e inocência que têm os peixinhos que seguem os tubarões. Pode parecer uma comparação boba e provavelmente não passa disto, mas é a analogia perfeita, visto o medo que todas as pessoas têm de que esse amor mesmo que sinto (e que sei que você sente) será responsável pela minha morte. Mas eu simplesmente acredito que não, que o amor irá alimentar-me até o fim, até que deixemos juntos de existir (e eu mesmo deixaria de existir antes do amor, que é tão real que poderia ser abraçado e acarinhado por mim). Ontem Ismael me mostrou o “poeminha do contra” de Mário Quintana e não posso deixar de repetir continuamente em meus pensamentos “Eu passarinho, Natália! Eu passarinho!”
Sou irremediavelmente seu, sempre.
Teo.

Teo,
De novo: pára. Você ligou novamente para a minha casa e minha mãe disse que você estava bêbado. Me deixe em paz. Sua inconveniência vai acabar muito mal, você sabe que meu pai não está nada satisfeito com seu comportamento e se souber que você continua a me seguir depois das aulas é bem provável que vá novamente à sua casa ou o que é pior, que lhe dê uma surra.
Eu não me importo com o que dizem as pessoas. Nosso tempo passou e eu fui honesta e madura o suficiente para entender isso. Acredito que o que Ismael quer é que você cresça e se torne um inútil como ele mesmo. Ouça sua mãe e pare de andar com esse sujeito.
Me esqueça Teo, deixe seus delírios de lado e tente aproveitar sua vida. Não me ligue e não volte à minha casa, por favor, é o que lhe peço. Tenha um pouco de consideração e um pouco de compostura. Gostaria de não precisar repetir isso.
Cordialmente,
Natália

::Filosofia platônica aplicada a epistemologia teológica::

O sujeito faz a pergunta como se fosse uma adivinha popular, dessas conhecidas por todos:
_O que é, o que é: vive no escuro, mas não consegue viver no sol?
_Vive no escuro?
_É.
Eu estou sentando longe de onde vêm as vozes, mas imagino um ar compenetrado de um senhor de mais de sessenta anos procurando uma resposta.
_Não vive no sol.
_Não consegue.
_E o que é?
_O diabo. Que não consegue, uai, viver no sol.
Confesso que teria passado muito tempo refletindo sobre a questão, mas a réplica foi tão assustadora que não me permitiu formular um argumento.
_Mas e o diabo do sol?
_Como assim?
_O diabo, uai, do sol. Se tem um diabo na Terra, logicamente tem um no sol. Ele tem que viver lá.
Deus existe porque podemos desenvolver uma concepção exata de sua presença (não tanto de sua figura) e de sua moral governando nosso destino. Logo, Deus é acessável do mundo das idéias (eu li “O mundo de sofia”, então eu sei). Partindo dessa premissa, o segundo velhinho (eu precisava realmente ter explicado que eram velhinhos antes?) estava coberto de razão.
_O sol já tem o benefício de ser quente e de não ter as pessoas pecadoras. Então tem um diabo do sol que vive no claro e no escuro.
Acho que a discussão continuou. Aliás, tenho certeza, porque nesse momento começava a interferir o trocador de ônibus, que me pareceu evangélico. Mas eu precisava muito descer, tinhas meus compromissos. Até agora não sei se qualquer um deles era realmente tão importante quanto essa presença nefasta de um diabo no sol.

::Summertime::

Quando a mocinha briga com o primeiro namorado, que é uns bons anos mais velho que ela mesma, resolve fazer o que há de sensato e que propicie o tempo necessário para cogitar as razões daquela briga e da infidelidade. Ela chora. Copiosamente. Pra isso é que ela está agora na roça, usando um vestidinho branco que deixa suas pernas magras e compridas de fora. É um dia de sol pesado e modorrento, do tipo que distorce as imagens e obriga que tudo seja feito em lentidão, com as pessoas se arrastando e olhando o chão. Enquanto tudo o que deve ser é o as coisas que simplesmente devem acontecer estão assim, acontecendo, vem vindo devagar e felino pelo chão de terra um grande negro de olhos curiosos e braços excepcionalmente largos.
Dependendo de quem a veja assim, rosto inchado, boca muito grande e vermelha, os ossos muito finos e compridos, ia achar que não é mais que uma menininha que se espichou demais e quem sabe antes da hora. Ou vai observar a pele pálida que é quase da cor do vestido, os cabelos longos e pretos como a moldura da janela e sentir de longe o cheiro gostoso de mulher que ela tem e vai pensar que nada compõe assim uma idéia tão intensa de beleza e ainda assim aparenta a tristeza.
Tendo se aproximado o suficiente para que lhe ocorressem os dois pensamentos, o negro estaciona a uma distância mínima daquela criaturinha, que se encontra num estado entre fada e ninfa (e os homens todos sabem a diferença) e a observa. Possui ele os traços angulosos e firmes de objeto entalhado em madeira e ao mesmo tempo seu olhar é curioso, móvel, denontando tudo o que um olhar masculino é capaz de denotar de ruim e de incrível na presença de uma mulher. Por tê-lo ali, tão assustadoramente próximo e enorme ao seu lado, a menina contém o choro, a respiração, os batimentos cardíacos e a vontade de qualquer coisa, imersa no mesmo pânico petrificado de um coelho que foi apanhado por uma coruja.
Tudo isso dura um período de oito ou nove segundos, tempo necessário para que o homem ajunte suas razões todas de dentro da natureza, coce os braços e comece a explicitar as razões do que ele mesmo crê de absurdo no mundo e que se traduz na presença do pequeno ser feito de puberdade chorosa e amedrontada que o encara com seus olhos lindos:
_É verão.
Ele se abaixa, engole saliva:
_É verão e você não trabalha, tem seu pão pronto na mesa antes de pensar que está com fome.
Sua vida é muito fácil. É tão fácil que chega a dar na gente uma contrariedade, uma coisa esquisita só de estar assim, perto. Se você olha o campo, o algodão está lá, branco e bonito igual a você, sendo colhido por gente que não é você. Se você olhar pro rio, ele é cheio e os peixes nadam, brilhosos e suculentos, sendo pescados pra você, a vida deles pela sua.
Tudo isso que pra mim é beleza e motivo, é só dinheiro pro seu pai. Ele tem dinheiro pra te comprar um sono e um sorriso. Ele pode. E esse seu rostinho não veio de dentro da terra, menina. Não. Esse olho é de sua mãe, essa boca é de sua mãe. E ela sabe ser linda e fazer do seu pai, o homem rico, um homem apaixonado e por isso é tão bom ser você. Você não é muito mais que uma criancinha e deve de ficar feliz com tudo que uma criancinha precisa pra ser feliz. Um dia não. Um dia em que tudo for mais sério e você souber o valor que as coisas têm, mesmo que elas ainda sejam fáceis, aí você vai saber o que é o mundo e do que ele é feito. Seu corpo vai ganhar carne e você vai ter asas nas costas tão bonita que você vai se tornar. Aí menina, aí você você vai chorar sim, com motivo e com vontade verdadeira. Mas agora, sendo só uma cria do papai e da mamãe, nada vai te fazer mal, menininha. Nada. Então o melhor é parar com isso. Calaboca. Não chora.