::caso no Rio (que pode servir de preâmbulo prum outro caso a se contar)::

Segundo disseram depois, Ulisses chegou à casa velha e perguntou ao Teo a programação pro final de semana, se havia alguma prova ou trabalho escolar complexo em vista. Na ausência de quaisquer perspectivas o plano de Ulisses era genial, perfeito. Ele havia arrumado amigos, amigas e carona pra ir ao Rio, só de curtição. Desconsiderando o fato de eu não entender a agenda do Ulisses – que trabalha num shopping center, pensei apenas que levar Teodoro com ele era o mesmo que levar uma granada sem o pino. Mas no momento em que pensei isso eles provavelmente já deveriam estar chegando. Tudo começou muito bem, da maneira como tudo sempre começa muito bem. Teodoro sabe ser simpático e o consumo constante de álcool imbute nele  uma espécie de ar maduro, ou isso ou a barba que o deixa com cara de integrante de banda indie brasileira. Eles foram pra um apartamento de um sujeito na Lapa, lugar sujo e que funcionava como ponto de tráfico improvisado, com pessoas fumando cachimbos plásticos e cheirando pó em espelhos quebrados. Lá, começaram a beber (os habitantes da casa velha não consomem drogas ilícitas, à excessão do João, que fuma maconha) e discutir futebol com os anfitriãos, o que também foi excelente pra Teo. Resolveram então sair e curtir a noite do Rio de Janeiro. A Lapa estava cheia (e pelo que sei, a Lapa está sempre cheia), fazia o calor do Rio de Janeiro e as pessoas estavam bêbadas e alegres. Mas para um cara instável como Teo a primeira quebra de clima foi suficiente para a alteração do humor e aflorou o personagem que até hoje Ulisses chama de “Sr. Hyde”. Nas palavras dele: “de repente a gente foi pra rua e o Teodoro vira o senhor Hyde. Passa a encarar todas as pessoas com um tom feroz e a esbarrar os ombros com qualquer um, independente do tamanho do cara ou da turma do cara.” Eu já vi  o Teodoro assim e sei como isso termina, mas vamos pela ordem de Chronos. Eles descobriram um bar/boate de blackmusic que cobrava simbólicos três reais pela entrada e segundo informações confiáveis, vendia cerveja a um preço justo. Ulisses comete o deslize de abandonar Teodoro à própria sorte, para curtir com uma de suas mulheres randômicas e dentro de uma hora e meia e algo entre sete ou oito latinhas de cerveja, ele percebe um círculo se formando num dos pontos do galpão onde corria o show. Já sabendo o que seria, instruiu a moça de que ela e as amigas deveriam não esperar por eles e que se vissem o… rafael… ou rogério (eu nunca sei os nomes do coadjuvantes, mas esse era o motorista e dono do carro), que era pra ele também não se preocupar.
Heróico? Estúpido? Consciente de que ninguém deve pagar pela idiotice do Teodoro? Não sei exatamente como julgar a atitude de Ulisses.
Mas ele sabia e eu já sabia que o círculo era uma briga e que quem brigava era Teo, embriagado e não percebendo de onde vinham chutes e sopapos. Segundo o relato, a idéia de Ulisses era retirar Teodoro do círculo e sair do lugar com ele, direto pro apartamento. Não confio nisso e acredito piamente que ele chegou como se fosse o protagonista de um filme de ação, distribuindo porrada aleatoriamente como se sua beleza fosse a garantia de que ele era intocável, invencível. A coisa não durou um minuto e ambos foram imobilizados por seguranças e jogados pra fora, debaixo de porrada. Segundo Ulisses, o senhor Hyde ainda não estava sob controle e Teodoro mumunhava algo com a boca sangrando, quando os dois começaram a sentir estranhamente intimidados, sem a muita certeza do que causava aquela sensação neles. Algo entre doze e vinte adolescentes, aguns com facas ou garrafas quebradas nas mãos iam se enconstando pra assistir ao espetáculo de Teo contra as portas do bar/boate e esperar como esperam as Hienas. Duas pessoas sensatas admitiriam a má sorte e dialogariam pela saúde, entregando dinheiro, tênis e telefones. Com isso em mente, Ulisses olhou bem pra Teo e disse: “Corre, maluco!” e a coisa saiu do controle. os dois foram perseguidos por algumas ruelas que eles desconheciam e os perseguidores dominavam e em dois quarteirões estavam cercados, deitados e tomando uma surra homérica, dessas em que as certezas somem e as preocupações são com os pés e não com os donos dos pés que batem.
Aí eles ouviram um tiro. Com o tiro, pararam de apanhar e Ulisses disse ter pensado ser a polícia. Mas não era. Seis homens armados saíam de dentro de um carro e vinham na direção deles. Os assaltantes se dispersaram, Teo estava todo arrebentado e Ulisses conseguiu ficar sentado. Os caras os agarraram não amigavelemente pelos braços, mas deu pra reconhecer o dono do apartamento. Em carioquês eles foram explicados de que precisavam dar umas voltas por outros bairros por causa do tiro, que não seria bom ficar por ali caso alguém reconhecesse o veículo para a polícia. Teo estava encolhido num canto do carro com a mão sobre o olho e Ulisses ficava repetindo baixinho pra ele “filho da puta”. Depois de um tempo rodando, o carro entrou numa favela e todos desceram para tomar cerveja num boteco onde havia samba (isso não acontece só nas minisséries da rede Globo). Voltaram ao apartamento no sábado pela manhã. Os dois ainda tiveram tempo de fazer os bons passeios de turista e pegar praia em ipanema no Domingo de manhã, antes de voltarem (e o Ulisses voltou com o msn de uma carioca). Em algum momento, na praia, os dois tiveram uma profunda conversa sobre o que aconteceu, mas isso eu conto depois.
Assim que acabou de contar todo o caso, a Amanda, que estava horrorizada com o olho de Teo (que parecia uma batata azul) e os arranhões que eles traziam pelo corpo, arriscou a pergunta: “e quando é que vocês voltam lá?” O Ulisses responde: “se tudo der certo, eu volto em duas semanas e o senhor Hyde nunca mais vai ver o mar.” e o caso é esse.

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::Macho::

O que mais me assombra em Julio Córtazar é o fato de ele ser o único escritor sincero de verdade que eu já li. Sincero mesmo. Ao ponto de ser um traidor de si e eu sempre pensar “você não podia ter dito isso Córtazar, ninguém quer saber sobre a sinceridade, todos querem só a poesia”. E como é poético o filho da puta…

::Jeremy::

Houve um que se chamou Jeremias. Fosse hoje, poderia ter sido um bom nadador, talvez não um medalhista, mas ainda assim alguém que vivesse feliz passatempando algo em que não se sentisse medíocre. Jeremias era ruim de futebol.
Hoje, Jeremias estaria bem, porque bem desenhava e isso o tornaria um arquiteto, ou um professor de Artes, ou talvez nada disso. Mas tinha a letra feia e disforme, o Jeremias, muito feia.
Jeremias teria se casado aos trinta e cinco, tarde. Alguns de seus contemporâneos o fizeram aos vinte. Mas ele cresceria com uma estranha crença em seus próprios sentimentos e acabaria tomando uma precipitada e certeira decisão de casar-se com a quinta namorada, uma mulher muito mais nova que ele e que o fazia ser menino, sem que com isso perdesse a perspectiva de um futuro sério e o futuro é realmente um seríssimo afazer.
Veríamos então, fosse hoje, um sujeito que não ficou rico, não revolucionou as ciências ou os esportes. Alguns cruzariam com ele nas ruas, ou nos bares e o achariam vulgar, comum. Outros o considerariam um homem um tanto charmoso, com seu estar calado e cabelos castanhos muito claros, em óbvio constraste com as sobrancelhas negras. Jeremias, o cara legal, razoavelmente bom colega de trabalho e bom marido, apesar das normais discussões com a esposa.
Mas houve um chamado Jeremias que não é. O que era? Era o vazio existencial na vida de seu pai, que não sabia. Era a razão dos antidepressivos que a mãe tomava, o explícito retrato de que vivemos no escarafuncho do sofrimento e onde não falta a comida nos falta sentido. Jeremias era o desprezo dos amigos, o número da chamada e suas notas estranhamente baixas para uma criança tão compenetrada. Jeremias era o que era, apenas seu nome e um ato.
Não há Jeremias que não seja a lembrança de uma criança atordoada que entra atrasado na sala de aula e como explicação para a interrupção dos cursos das vidas que não se importavam, desferiu um tiro contra a têmpora esquerda, fazendo a professora sentir o sabor do que existe de mais material no espírito humano.
E era exatamente isso que Jeremias desafiava as pessoas a esquecerem.

::Crise da segunda idade::

…ou segundidade, dependendo do quão pierceano for o leitor. A crise em si (ou melhor: em mim) deve ter começado no último aniversário, mas eu sou lento e só me dei conta dela ouvindo o disco do Them Crooked Vultures, a nova banda do John Paul Jones. Ouvi com muita calma o disco e conclui: uma porcaria sem tamanho. Em termos de música até que não, mas em termos de rock and roll, em termos de John Paul Jones, meu Zep preferido, um lixo. Coisa de tocar em barzinho cult. Essa sensação é deu a dimensão da crise se espalhando ao redor da vida. Percebi lendo o Guimarães Rosa que eu não merecia escrever nem recado em papel de rascunho. Percebi que as pessoas olham meus projetos pessoais com sorrisos complacentes. Percebi que mesmo não estando mais deprimido, prostrado, persiste a sensação de eu contra o mundo. Isso não é bom. Só que não é mais rebeldia sem causa, sensação de deslocamento, não é mais adolescência. Agora o que me morde os calcanhares é um sentimento de urgência com tudo, porque aos 27 anos a gente percebe que apesar de não estarmos velhos, não somos mais muito novos pra nada. Tudo está em tempo ou passando da hora. Quem queria independência, está passando da hora, quem queria uma casa, está em tempo, quem ainda não sabe dirigir, precisa correr atrás, porque o tempo corre, quem tem projeto de família, precisa começar logo a pô-lo em prática. É o diabo. E nada parece sério o suficiente e se em algum momento você pensa em se espreguiçar e se dizer que não tem que ser tão sério, mil pessoas frazem os cenhos e dizem que tinha que ser mais sério do que o que você consegue. E quem pensa o contrário disso é má influência, gente que não cresceu porque esqueceu o que é o mundo ou porque ainda não está na hora. Tente relaxar aos 27, malandro, playboy, imaturo, que você vai ver só. Tente sorrir da vida que alguém com certeza vai tentar lhe quebrar os dentes. A crise da segunda idade é onde você descobre que nem o projeto de um dia colecionar revistas em quadrinhos deu certo. E que se tivesse dado, você seria taxado de fútil. O mundo é um lugar muito estranho…

::Não importa porque de qualquer forma estamos bêbados mesmo.::

Saio a noite para dar uma volta na expectativa de encontrar com alguém nessa porcaria de cidade e o que vejo são alguns cardumes de piranhinhas e duas manadas de playboys dominando suas sorveterias e bares caros. Ninguém dos velhos tempos se esgueira louco e dançarino por aí, ninguém é macho o suficiente para enfiar o dedo na ferida aberta a que chamamos maturidade e dizer “foda-se!”, saudosamente bebendo como se o mundo acabasse amanhã e de certa forma o mundo sempre acaba amanhã. Com o pouco dinheiro que tenho desço até o BBC para comprar uma Cicarelli, que volto bebendo no bico. As pessoas me lançam olhares curiosos, olhares que são troféus para a nova geração, que ama não ser massificada, mas que vai se tornando igual em si, os mesmos diferentes de sempre, liderados pelo Ângelo, que está gordo e pai de família demais para abandonar a cidade e ainda é um vagabundo pastando pelos bares bacanas, os que valem nossa presença. Mas chego em casa (a Cicarelli não durou quatro dos oito quarteirões) e penso que terei que me resignar com mais uma noite jogando no emulador de Super Nintendo e ouvindo jazz sozinho e é exatamente o que faço, mas tudo me chateia tanto que acho que o melhor a fazer, já que minha mãe não se encontra é ir dormir e aproveitar a manhã seguinte brincando com as crianças da família, o que é tão prazeroso quanto qualquer outra loucura, eu amo as crianças da família.
E de repente eu sou arrancado de um sono profundo e revigorante pela insistência da campainha e salto de uma vez com a sensação de que algo muito ruim aconteceu, o que seria a única explicação válida para nós que somos mineiros (sim Roberto Drummond, você tinha razão) e quando eu abro o portão dou de cara com a figura enorme magra e negra do Hudson e nós nos abraçamos e eu sei que ele está bêbado e está suado e nós nos cumprimentamos com “cara!” e ele informa sobre o plano. Um sujeito cujo nome eu já não consigo recuperar, mais o Lamon, o estranho Lamon do Cefet, que se tornou um historiador e mais outros loucos divinopolitanos (o Carrapato, figura do folclore) enfiados num fiat 147 e é isso, vamos beber.
Voltamos ao BBC, nos abastecemos de cachaça barata e paramos na praça da catedral para conversas ébrias e divertidas, todos são condescendentes comigo e admiram minha inteligência e me admitem como igual, mesmo que eu tenha abandonado a cidade e as pessoas da cidade e me tornado um cidadão de Belo Horizonte, longe das perspectivas provincianas de Divinópolis.
Hudson e eu parecemos duas comadres, contando histórias um para o outro e tentando impressionar os outros, já que fora o carrapato, que é um ser imortal, somos mais velhos que todos. E então no meio de uma das velhas histórias sobre RPG e mulheres, ou novas histórias sobre Ouro Preto e mulheres, alguém nota que um de nossos camaradas simplesmente desmaiou e todos o rodeiam e começam a rir e apontá-lo até que eu, bebedamente e sábio emendo meu comentário de que “esse cara que desmaiou é o nosso motorista” e todos ficam instantaneamente sérios para logo em seguida passarmos a um estado histérico de gargalhadas e doses de vodka barata. A noite caminha maravilhosamente bem e alguns malucos da primeira geração acabam aparecendo como se tivessem sido conjurados para uma breve troca de palavras e informações. Um amigo foi preso e me é noticiado que outro se tornou traficante, o que me deixa apreensivo, mas faço um falso ar de que está tudo bem, eu já imaginava, que eu sei não engana a ninguém, mas não posso evitar, estou muito bêbado para controlar minha hipocrisia e a deixo cavalgar solta como um autêntico filho de Divinópolis, que guarda seus esqueletos nos guarda-roupas mas com os braços aparecendo pelas beiradas.
Quando conseguimos acordar o motorista resolvemos que a forma mais segura de esperar pelo amanhecer é ir até o bar da Val, onde podemos jogar sinuca e o motorista poderá dormir até que alguém que saiba dirigir e seja confiável o leve com o carro até em casa, mas até o bar é ele quem dirige e isso é uma experiência sobre a qual eu irei refletir mais tarde, quando estiver sóbrio e de posse do meu senso de periculosidade.
Em diversos momentos eu observo o Hudson, o futuro professor de Português, como a minha mãe e se tornando uma pessoa incrível e penso aveadadamente que amo aquele negão e que ele é de certa forma alguém em quem se espelhar, apesar das inenarráveis cagadas que ele fez em sua vida, mas afinal de contas, todos nós fizemos e ter largado o mestrado ainda dói muito no dia desse encontro e por isso o considero infinitamente mais feliz e portanto mais sábio do que eu. Perto dele eu me torno uma criatura miserável que não sabe lidar com o próprio fracasso e com a própria tristeza e eu confesso que tomo medicação controlada e ele olha sério para mim e depois cai na risada e diz “você é um cretino” e eu sei que nunca vou merecer um elogio maior vindo dele. Quando o sol começa a nascer caminhamos moribundamente até minha casa, onde iremos dormir e cheirar mal, muito mal, a ponto de minha mãe, ao chegar, quase ter uma síncope, mas não importa porque de qualquer forma estamos bêbados mesmo.