::dois pontos, parágrafo, travessão::

Esperando inspiração, um lapso de inspiração. Esperando calado e observando enquanto o lapso não vem e se deve viver. Tudo é como música moderna, com excesso de massa sonora, tudo muito distorcido e veloz. Mesmo assim, mesmo assim ainda aparecem uns virtuosos. E lapsos de inspiração que nos permitam desabafar de verdade.
Os grandes poetas, grandes mentirosos, desprezavam a inspiração e sua ausência. Nós, os medíocres, não conseguimos nos desvencilhar dessa incômoda necessidade explosiva de nos inspirarmos. Projetos, frases de efeito, sorrisos calculados, jogos sociais, jogos mentais, jogos corporativos, jogos políticos devidamente inspirados. É muito difícil fugir da inspiração, é difícil parar pra ser sincero e pensar com os próprios pensamentos e vontades.
Acho que ninguém mais faz isso.

::Domingo::

Domingo é dia de evasão na casa velha. Amanda, Theodoro, e João costumam voltar aos respectivos lares para pedir as respectivas bênçãos aos pais. Normalmente é dia de miojo com filme de terror B, mas até mesmo Ulisses me abandonou, então me convidei para almoçar no João, cuja família ainda não me odeia (mesmo que eu creia que isso é só uma questão de tempo). O almoço de domingo carrega sempre um ar de solenidade e a obrigatoriedade de sermos pessoas felizes por estarmos juntos. Mesmo nos casos em que os participantes não se ojerizem (e a família do João é uma dessas felizes excessões) a regra da cordialidade é meio incômoda. Mas nada disso vem ao caso.
Lá pelas tantas, mastigando arroz com frango, começamos a conversar sobre dinheiro e vêm sempre os casos dos antigos e seu dinheiro velho. Comento que encontrei num livro, uma nota de 5oo cruzeiros (que eu creio pertencerem aos Cruzeiros de antes dos Cruzados que antecederam os Cruzados Novos e não dos Cruzeiros que sucederam esses últimos e vieram a se transformar em Cruzeiros Reais – uma bela bagunça!). Um dos maridos das tias de João conta de uma parenta falecida que guardava o dinheiro desvalorizado no colchão e brigou com a família e com os caixas do banco porque queria pagar os custos do próprio funeral com o papel sem valor. Aparece outro caso, mais um pedaço branquelo de galinha e eu menciono meu avô, que nunca deixou de se referir ao dinheiro como “Real” e que voltou a conversar sobre os preços das coisas quando as URVs se metamorfosearam finalmente em Reais. Resolvo arrematar o caso com “O difícil foi explicar pro velho agora o Real faz o plural em Reais e não em Réis…” e todo mundo fez cara de satisfeito e me passa essa salada de batatas, quando a mãe do João, que é mais esperta que eu menciona “Difícil deve ser explicar que o plural de Real é Real: um real, cinco Real e o famigerado derreal”.
Concordei com a cabeça e aceitei mais refrigerante. Dinheiro é problemas, sintáticos e semânticos…

::Fui eu::

Agora é tarde demais e eu começo a sentir o mundo fazendo seu sentido de coisa que existe na dor que o asfalto quente provoca em meus pés. Eu estava no meio da rua, sozinho entre as buzinas e palavrões, vestindo só uma bermuda velha, pensando, ou melhor, sabendo que você me viu chegar sem querer admitir que viu e muito a contragosto, mais por culpa do flagra e de todo o rídiculo da situação, é você resolveu não iria fingir. Dava instruções ao motorista e fazia um leve aceno, seco, seu.
Há erros como sempre os há. Mesmo assim não me eram perceptíveis ao tato, eu não tenho tato, não posso apontar um fato com o dedo e tocá-lo. E mesmo assim eu sabia só pra mim e sabia, por isso é que não dormi e estava lá para machucar meus pés, porque desde noite passada a sensação é de queda livre, eu estou perdido, não estou? E você me ignorou por toda a noite e quando chegamos seu automatismo fez com que se despisse e era isso, a mulher mais bela de todo o universo nua e indiferente na sua cama que era a minha, claro que era a minha, porque você é quem foi embora. Eu não sei, mas acho que a culpa é minha, que a confusão fui eu quem fiz fui eu.

::vassalagem::

A gente passa por muita coisa na vida. Alguns por sorte, excesso de competência ou engenhosidade atravessam fases problemáticas com bom humor, perpiscácia e quase sempre dão um jeito de se safar ou cair rolando, minimizando os ferimentos.
Como a maioria imagina ou teve a oportunidade de assistir, eu não faço parte desse grupo.
Havia no princípio dos anos 80 o ditado que proclamava que “o dia que chover Xuxa, cai um Pelé no meu colo” e esse ditado, feitas as adaptações cronológicas cabíveis se aplica a perfeitamente à minha pessoa. Não que Deus seja especificamente ruim comigo, mas minha forma de lidar com as situações normalmente as torna piores do que são e eu sofro mais do que deveria. Isso quando não acontece de eu simplesmente me foder todo por azar ou incompetência, independente do bom humor…
E o que faz uma pessoa que sofre muito, eu pergunto? Ela Bebe muito! E todos nós, meninos e meninas sabemos que a ingestão continuada e compulsiva de álcool leva à doenças psicológicas e físicas. O vício é feio, crianças, devemos evitá-lo!
De minha parte, que possuo toda uma genealogia alcoólatra, o vício nocivo e desesperado sempre esteve a me mordiscar a orelha em diversos momentos da vida e se hoje eu não sou um desses bebuns highlanders que todos podemos ver às terças-feiras, nove da manhã, com várias garrafas vazias de cerveja e um copinho de cachaça em punho, devo isso à minha fé e devoção ao consumo de outra substância, aquela que realmente alegra, ajuda esquecer e aceitar os males da vida e o peso do trabalho. meu velho cão engarrafado, o que não pode faltar na mesa do brasileiro. O corajoso, o aliado, o companheiro, o muleta, o bonzão.
Feliz dia do café pra você também!

::correspondência divina::

Acabo de receber uma carta de Deus (esse mesmo que vocês estão pensando) que copio aqui na íntegra (devo ser considerado um profeta a partir de hoje?):

Caro senhor,

Tenho observado atentamente sua vida (e de todos os outros seres humanos), seus problemas e dúvidas existenciais. À mesma maneira de outros, o senhor tende a questionar a providência divina, a vontade divina e o plano de Deus, ou seja, tudo que se refere a mim e a minha vontade. Como seria de se esperar, estou a par de seu plano sofismático e sei que todo esse questionamento possui um primeiro significado que é o de me colocar como figura central em seus debates, mesmo que sob um ponto de vista pejorativo (eu considero seu sarcasmo pejorativo, devo deixar claro). Reconheço também que os pontos cegos e falhos que o senhor aponta como razão de dúvida, bem como as pífias explicações que recebeu ao longo de sua existência são válidos e mesmo eu não creria possuir o controle do universo caso as coisas se explicassem pela maneira com a qual os homens as entendem. Não pretendo porém debater com o senhor através da epístola sobre cada um desses pontos e da mediocridade humana para tratar os assuntos relativos à minha natureza (e apesar de adivinhar seu ar de desgosto e cinismo diante da próxima afirmação, a faço), isso também faz parte do plano divino. O que pretendo nesta missiva é deixá-lo a par de uma decisão recentemente tomada que teve como ponto de partida um (e somente tal) dos quantos apontamentos o senhor vem, ao longo de seus anos, levantando sobre a deficiência das grandes provas de minha existência e presença nas atividades humanas.
Deixo explícito que tomei tal decisão em função de que seu questionamento com relação ao assunto não se refere ao que dizem os homens, mas sim às supostas atitudes de Deus. O fundamento de sua argumentação é provar que a propagação de um ato divino falso, improvável e não executado oculta o fato da não existência de seu executor, logo, se o milagre é mentira, deve-se deixar de crer no milagreiro. Em mais de uma ocasião registrei o senhor referindo o caso conhecido como “o do dilúvio” como um engodo inventado pelas mentes sádicas dos sacerdotes a fim de amedrontarem seus seguidores diante do rancor divino com relação ao pecado. O que há como fundo moral humano na história do dilúvio não nos é desconhecido, mas repito para que fique claro exatamente o torpe raciocínio do qual não compactuo: “Deus não odeia o pecador, odeia o pecado. Porém, não se faz rogado em esmagar o pecador caso perceba que esta é a mais efetiva forma de extirpar o pecado”.
Não é necessário nenhum grande atributo intelectual para refletir sobre o fato de que se eu quisesse leis não naturais de definição de comportamento teria eu mesmo escrito um livro de regras, à maneira como redijo a correspondência que tem em suas mãos. Julgo homens através de quesitos bem mais absolutos e mensuráveis que simplesmente seu exercício de liberdade individual. Não, não explicitarei tudo, deixo mais à sua imaginação e retomo o assunto principal. Pois bem, o senhor foi de uma ironia ímpar ao definir que à época atribuída como a do dilúvio já se contava sua história como ocorrida “há muitos e muitos anos atrás”, ao modo dos contos de fadas. Devo admitir no entanto que com relação a isso o senhor se encontra coberto de razão, nunca fui responsável (e nem outra pessoa ou entidade) por um dilúvio, como é relatado na bíblia dos homens. Admito inclusive que sempre que observo um novo fato que tente comprovar tal disparate me sinta envergolhado, do tipo de vergonha que se reconhece como alheia, por ser um vexamento diante da estupidez de outrem. Todavia a constância e a empáfia com a qual o senhor faz suas objeções ao caso me fizeram atentar para o seguinte fato: não é a razão de eu não ter produzido nunca um dilúvio a incapacidade de fazê-lo diante de minha vontade. Pois bem, senhor Rodrigo de Freitas Teixeira, o senhor suscitou em Deus a vontade de produzir um dilúvio. Não digo que com isso seja o senhor o único responsável pelo fim da humanidade, que não terminará afinal. Fique ciente de que tudo teria um final trágico de qualquer forma e apenas me inspirei em sua indignação diante do velho embuste para definir minha forma de alterar a configuração do planeta. Saiba o senhor que um dilúvio não é um ato simples e rápido, que se complete em seus quarenta dias, porque as minhas regras verdadeiras, das quais tenho orgulho, são muito mais complexas. Mas sim, o seu mítico dilúvio está sendo providenciado para este lado da existência, isto é, o lado físico e não fictício da vida.

Cordialmente
Deus