::Menos um::

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”

Morreu ontem o Saramago e eu desconfio que estamos cada vez mais sozinhos. Mesmo aqueles de nós que não conhecem sua obra e os que o detestam têm total liberdade para se sentir sozinhos. Perdemos ontem um de nossos porta-vozes. A guerra contra Deus e contra o homem torna-se ainda mais dura para nós que só queremos o bem…

::todo dia o meu amor vai embora num ônibus::

É muito fácil perceber que a doçura não chega mesmo a atributo da pessoa, mas mera atitude manifestada por qualquer ser humano. Ser doce é fácil quando se está apaixonado e o maior crápula é doce, o sujeito feio e manco é doce, os sádicos e mentirosos são também pessoas doces. Para o que se deve dar duro é o tornar-se um mecânico ou marceneiro, uma pessoa de função específica delineada no mundo, capaz de vender suas habilidades para tornar o mundo o mundo. Ser funcional é uma das coisas mais complexas que o espírito humano pode almejar e normalmente é o que ele almeja. Ademais, a doçura desacompanhada da beleza, aquela beleza sincera e simétrica que se enxerga exclusivamente nos corpos e nos sorrisos é de ainda menor valia para a vida.
Gostaria de atentar então para esse fato que é óbvio, mas às vezes nos escapa: agir docemente é bom. òtimo, até. Mas ser apenas isso dá na gente uma sensação de desconsolo, porque todos veem o pouco que somos.

::Dia atípico::

Os maias cantaram a pedra faz tempo, mas ainda assim eu vinha meio cabreiro e não querendo acreditar que nos resta pouco mais de dois anos pra beber cerveja e destruir a mata atlântica. Hoje, infelizmente, tive lá minhas provas cabalísticas de que o fim se aproxima a passos largos.
Começou logo pela manhã, quando eu precisava estar na Fundação Municipal de Cultura, mó de a Kombi levar os bibliotecários ao Centro Cultural Salgado Filho, onde passaríamos o dia em meio aos mais clássicos afazeres da profissão: mergulhar em poeira, matar traças e empilhar livros por ordem de tamanho (não basta estudar, é necessário escolher as profissões corretas…). Como cheguei cedo passei pela padaria, porque tenho vício de padaria de manhã. Como não cheguei assim tão cedo pedi a senhora do balcão 300 (trezentOs) gramas de biscoitinho frito e um cafezinho pra levar.
_A gente não serve cafezinho pra levar.
Assim, desse jeito, à queima roupa e sem nenhuma vergonha. Não vende café pra levar! Se for beber lá fora não pode, só pode dentro da padaria. Por quê? Porque não servem café pra levar. Passei os próximos vinte segundos observando se o resto do universo continuava normal. Os carros continuavam matando, os custos da boa vida ainda eram proibitivos (o que era provado pelos preços dos biscoitos de massa mais fina) e todos estavam apressados e plásticos na segunda feira de manhã. Só o cafezinho não podia ser pra levar. Saí do transe com a balconista perguntando “o senhor quer é trezentas gramas?” e atribuo o fim do feriado ao fato de não tê-la mandado à merda e só confirmado. Negar café é um assunto muito delicado pra mim.
E isso teria sido só uma coisinha pitoresca, como flagar o ponteiro dos segundos dando um passinho pra trás na sexta feira à tarde, não fosse pelo ocorrido da tarde.
Já no bairro Salgado Filho, depois de muito nadar no pó, resolvemos todos parar e almoçar. A carência e o medo dos bibliotecários frente a um universo caótico e não indexado por assunto nos leva a caminhar em grupo e nos casarmos entre nossos pares. Almoçamos todos num mesmo copo sujo e todos acatamos a sugestão de tomar sorvete, apesar do frio. Resolvi pedir o meu por último e passei todo o tempo de espera avaliando a minha opção (que é a mesma que faço quando tomo sorvete desde os dez anos de idade, quando adquiri o direito de opinar sobre minha própria comida): uma bola de sorvete de limão com cobertura quente de chocolate. Quanto mais as pessoas pediam seus sorvetes estranhos (frutas do bosque, Talento e sensação, azul cadáver, creme…) mais eu me sentia confortável com a escolha que estava para fazer. Até que:
_Cobertura quente é só pro picolé, no sorvete a gente não coloca.
E nessa hora eu senti a cabeça rodar um pouquinho e estive à beira de uma crise de pânico. Fosse uma situação normal, era hora de perguntar “Como assim não coloca? Me cobra aí qualquer coisa a mais e coloca a porcaria da cobertura, caralho!” mas não era só a estupidez do funcionário arriscando um dos únicos sete fregueses de todo o inverno. Não. Aquilo era um sinal. A negação da cobertura quente de chocolate no sorvete de limão representava uma engrenagem que estava mais que rompida. Estava irremediavelmente perdida. Procurei as moedinhas para pagar pelo sorvete (com aquela cobertura de calda, que não endurece), mas sabia que se elas começassem a flutuar assim que saíssem do meu bolso seria completamente normal. Ou se um dinossauro entrasse ali e nos matasse a todos (o sorveteiro muito merecidamente). Ou se eu descobrisse que na verdade eu não sou Jesus, eu sou o hippie! Tudo válido. Tudo igualmente absurdo e profético de que nos resta pouco tempo. Esse mundo tá é acabando mesmo…