::casa velha – 19:30hs::

Hoje Teo estava muito pior que os outros dias. Ele está na fase de parecer ainda mais derrotado quando para de beber. É como se duas coisas muito importantes faltassem. Tentei argumentar com ele, uma vez que não considero nenhuma delas importante, pelo menos não tão importantes. Em verdade eu posso ser quase tão alcoólatra quanto Teodoro, mas sofrer pela Natália é completamente dispensável. Não se pode entender um coração que ama. Ele tem detalhes e eu tenho pra mim que são detalhes todos inventados, que várias das histórias de amor de Teo e Natália são invenções de momentos etílicos que ele repetiu até que se incrustaram em seu cérebro como parte de sua história. Natália é uma menina tão odiosa e amarga que me espanta pensar que em algum dia ela tenha ao menos namorado Teo, quanto mais dizer que o amava e todas as coisas melosas que ele insiste em repetir. Mas hoje era segunda feira e Teodoro passou todo o domingo sem beber para trabalhar. Exigência da chefia, com a qual nós todos fizemos coro, mesmo contrariados. E me vem a mãe dele e diz que eu é que o levo para o mau caminho. Agora Teodoro voltou sóbrio, esgotado e o pior: é um homem ainda sem amor e ainda sem dignidade e meu “ainda” é meramente um recurso de piedade.
Ele passou muito tempo olhando para dentro da geladeira, indeciso entre a garrafa de vodka e um ovo. Do sofá eu podia vê-lo se contorcendo enquanto Hetfield cantava “I´m you! Sad but true!” Por fim colocou o ovo num caneco de água e acendeu o fogão. Quanto mais eu observo esse rapaz deplorável, imbecilizado, mais eu me convenço da fragilidade da mente humana e de como somos enganados o tempo inteiro por mentiras, o amor, a maior de todas. É terrível.
Teodoro sentado ao meu lado treme um pouco. Em algum lugar Natália procura outro idiota em quem despejar suas mentiras.

::WWBD?*::

Aconteceu de um desses caras que não estão para brincadeiras estar descendo a rua, à noite. Sem mais nem menos ele ouve um chiado que vai engrossando, passa a ser um rosnado e aí vem as latidas. Altas. Muitas e grossas, provavelmente de um desses filas ensadecidos. O homem congela, o susto corre espinha abaixo e ele leva as mãos à altura do queixo, como se fosse um lutador de boxe (e como se boxe adiantasse contra um fila raivoso e babão). Ao se dar conta do ocorrido, ao conseguir dimensionar de sua condição, a de seu próprio medo, o cara (que não estava muito para brincadeiras, eu disse) olha para o relógio: duas da manhã, esse cachorro devia estar dormindo! Após uma rápida inspeção no quarteirão ele puxa de dentro do bolso uma arma e dispara contra o portão barulhento. É apenas um disparo, que corta um latido pela metade, transformando-o num ganido breve e sentido e então pronto. Como é de se esperar num momento como esse, muitas luzes se acendem, mas ninguém aparece pelas janelas. Todos sabem o que aconteceu, mas ninguém quer ver quem aconteceu. O homem encara o portão e percebe movimento no lado de dentro da casa. Alguém abriu a porta e se aproxima. Um sujeito grandalhão e nervoso, presenteado com a mesma cara imbecil dada por Deus a todos os pagodeiros, aparece na rua para perceber um cano de arma quente rente ao próprio nariz idiota. É claro que não se pode cassificar um cara que atira num cachorro porque o cachorro latiu como inteligente, mas vá lá você e diga ao homem armado que ele é um estúpido.
Nada e absolutamente nada tem um efeito tão calmante quanto um 38. Um cão pacificado e um dono com o ar mais dócil do universo encarando agora o terapeuta.
O idiota armado (vamos esperar que ele não esteja lendo isso) passa um tempo medindo o outro, considerando-o ainda mais idiota. Depois se apresenta como um novo morador da rua.
“Compra um poodle.”
A expressão do grandalhão se altera levemente, deixando escapar um pouquinho da selvageria que a presença da arma havia ccontido. Isso é resolvido enconstando-se o cano no lábio superior do indivíduo alterado. Ainda está quente e dói. Vai ficar dar uma bolha.
“Compra um poodle. Ou um basset. Compra um cachorro pequeno, deixa ele te seguir o tempo todo e dormir dentro de casa. Eu vou descer essa rua todo santo dia e não quero ficar tomando susto de cachorro, especialmente de madrugada.”
O outro parado, ouvindo (e prestando uma atenção!).
“E faz assim, chama a polícia. Olha bem pra essa merda de cachorro morto no seu quintal e me chama a polícia, corno, pra gente ver o que acontece!”
O outro sem reação.
“Agora o senhor entra em casa e vai dormir, que amanhã ainda é quinta-feira.”
Dizendo isso ele baixou a arma e se foi. Não olhou pra trás. Tinha certeza que o pagodeiro seria mais feliz se comprasse um poodle, porque poodles são bonitinhos.

*What would Bukowski do?

::cocktail party::

Tenho a necessidade de desabafar. Talvez uma necessidade ainda maior que o simples ato de assentar-me num banco e chorar ou encontrar alguém que me ouça dizer mal da vida. Preciso de um desabafo dessa própria vida ela mesma. Preciso destruir algo belo, atacar gratuitamente algo que seja real e faça parte do mundo, este mundo, porque é contra ele o desabafo. Contra a parte dele que se ocupa em insistir-se idiota. Andamos pelas ruas e o que vemos? idiotas por todos os lados. Infelizes e imbecis, todos incapazes de um mísero ato que os diferencie de vermes. Uma parte do mundo rasteja nos cantinhos e silva de agonia quando algo os ilumina as faces e não se pode diferenciar o que são as suas faces de suas próprias barrigas. Comem, os idiotas, pelo estômago e para que serve então sua boca inútil? Para nada. Não se alimentam, não sentem prazer e não conversam. As línguas estão inutilizadas para o sexo, para o tato e paladar. Vocês irão andar pelas ruas e cruzarão com eles espalhados em seus gabinetes, restaurantes, covis e espelhos, sempre traçando  mesquinhezas e girando sobre os próprios corpos, lesmas.
Eu preciso desabafar porque a cabeça lateja de sono e lateja de dor, mas o volume da incompetência e da imbecilidade do mundo é tão alto que me impede e eu sou a tentativa de um grito, mas o abafamento desse grito, porque por vezes é preciso não ofender os idiotas. Eles me cercam, eles nos procuram, estão a nos querer ganhar para a própria causa e isso é assim triste e eu sinto pena. E talvez sinta por mim mesmo, que não destruo o que é belo e pertence ao mundo e apenas espero que ele acorde cristalino outra vez.
“O mundo não vale o mundo, meu bem”

::desassossego::

Se nós pensarmos estar de frente para uma cadeira, num determinado lugar da sala (nós e ela), sabemos que dali, de onde estamos somente nós é que teremos aquele ângulo de visão e qualquer outra pessoa que se colocar a observar a mesma cadeira a perceberá por outra perspectiva. A nossa perspectiva nos é óbvia, enquanto desconhecemos o que vê a pessoa do outro ponto da sala. Caminhar por diversos pontos e observar nos dá a noção de tudo que era completamente desconhecido mas que pode se tornar óbvio. Assim, um ponto de vista inusitado é simplesmente o óbvio visto por um outro ângulo, às vezes experimentado por um ou por muitos, mas não por nós. Por nós o inusitado nos aparece assim pela primeira vez.
Foi uma revelação inusitada o fato de descobrir que eu não sou o eu que tenho pra mim. Não sou o que imaginava ser, o que eu queria ser ou mesmo o que pensava poder ser. Não sou, contudo, o que os outros veem, também não. É misterioso esse ajuntar de idéias que vamos acumulando sobre nós mesmos, porque quando precisamos compará-las com nossa memória de nós e com o saco de ossos e gordura que arrastamos, percebemos que não fazemos mais que nos enganar sobre a imagem que sustentamos e a pessoas que construímos. Eu sou um ser à revelia de mim mesmo. Em matéria de humanidade eu sempre me considerei carta branca, café-com-leite, porque creio que nunca entenderei essa de ser humano, não há nada que nos aproxime (não eu e o mundo, mas “todo” o mundo), fora a biologia. Não fosse por ela não nos reconheceríamos nunca como espécie (e mesmo com ela, ainda há os que procuram não se reconhecer, o que é também estranho).
E o que sou que não percebia que era? Sou o resultado daquilo que não fui. Sou o que deu pra fazer com as coisas que não consegui ser. Sou o que sobrou, que conseguiu se empilhar, apesar de tudo (apesar de tudo, meu Deus) e com isso tento cambalear feliz. Não há absolutamente nada em minha vida a que eu não precise fazer concessões existenciais. Nada é o que eu queria, imaginava, achava que era. O mundo é estranho e nós, mais ainda.