::dos estranhamentos::

A amizade com o Ulisses nasceu de um desprezo mútuo pela humanidade, pelas pessoas que tacitamente consideramos comuns demais, catequisadas demais, aéreas demais para se darem ao trabalho de existir. Nenhum de nós dois produz arte ou é intelectual, mas enquanto todos têm um medo natural de ofender a vontade de Deus, de atravessar a linha das leis urbanas, nós somos duas carmelitas apenas quando estamos frente a um grande livro ou uma dessas instalações malucas que os teatros e museus exibem vez por outra. Desde o início.
Desde o início. Eu estava numa entrevista de emprego. Queria muito sair de casa depois que abandonei a faculdade, precisava trabalhar, mas antes de acabar fazendo qualquer coisa estava tentando as que me agradavam mais. Comecei levando meus currículos a várias livrarias. Essa entrevista foi crucial para destruir o restinho do meu romantismo com relação à profissão de livreiro. Eles não queriam livreiros, queriam vendedores.
A coisa começou já toda desandada, logo que a senhora responsável pela entrevista perguntou meu nome, resolvi brincar com a situação de estar no meio de diversas pessoas reunidas em função de um lugar entre livros e respondi como no romance do Melville:
_Chamam-me Ismael.
A mulher perdeu alguns segundos me encarando, levemente irritada e sem entender nada. Todos me olhavam como se eu fosse apenas um almofadinha pomposo, dos que falam difícil. E aí um dos sujeitos, apenas um em vinte de três, abriu um sorriso que além de expor a dentuça perfeita de comercial de pasta de dentes, demonstrava toda a sua superioridade em relação aos imbecis reunidos ali: ele conhecia Moby Dick.
Com o andamento da entrevista eu já não dava mais muita importância à empresa, à vaga ou ao salário de fome que eu poderia começar a receber ao final de cada mês de trabalho. Estava de saco cheio das dinâmicas idiotas e de ter que reconhecer publicamente estar familiarizado com os termos insossos da administração de marketing. Mas essa é a grande diferença entre Ulisses e eu. Além de saber o que é resiliência, eu ainda sou resiliente pra caramba (ou niilista, sei lá) e tinha plena consciência de que iria sobreviver ao final da entrevista. Ele, ao contrário, era o candidato perfeito, porque conhecia muito sobre literatura, era naturalmente simpático e bonito como uma estrela do rock juvenil. Mas não tinha a mínima paciência com a mediocridade humana. Num determinado momento se levantou da cadeira pediu a palavra, muito educadamente, e a entrevistadora assentiu.
_Eu apenas queria dizer que acho essa entrevista uma palhaçada, uma comédia bolada por idiotas manipuladores que estão se lixando para nossa capacidade real de vender livros. Acredito piamente que todos aqui, à exceção do carinha ali que citou Melville, são imbecis semi-analfabetos e que essas porras de dinâmicas só servem para justificar um emprego sem sentido e sem importância para o andamento dos mercados. Ganho mais saindo agora e sentando num boteco qualquer pra encher a cara do que ficar aqui sendo tratado como um macaco por uma RP ridícula de merda. E emendo que com isso a empresa acaba de perder o candidato que seria de longe o melhor vendedor de vocês. Vão todos se foder!
E diante dos ares perplexos de todos, Ulisses se dirigiu à porta e se voltou pra mim:
_Bora tomar uma cerveja Ismael.
Eu precisava muito daquele emprego. A ponto de depois me arrepender amargamente de ter me levantado, o cumprimentado e abandonado a entrevista. Mas temos que convir que naquele momento os argumentos de Ulisses eram irrefutáveis.
Nesse memorável dia passamos muito tempo condenando aos berros a vida o universo e tudo mais e nosso pessimismo e rabugisse garantiu ainda que toda a minha anarquia e “desobediência civil” coadunasse com as idéias comunistas dele e isso nos fez bons amigos. Depois de muito contemporizar, acabamos concluindo que não fazia diferença, qualquer emprego servia, desde que pagasse teto e comida. Voltei de madrugada pra casa para ouvir sermão de meus pais por chegar bêbado na Quarta-Feira, depois de sair para uma entrevista de emprego na Terça.
Ulisses, colhendo os bons frutos de nossa conversa, levou seu currículo (vazio, mas com foto) até uma loja de roupas caras no Diamond Mall e foi imediatamente empregado. Eu, que fui bem menos esperto, apenas migrei das grandes redes de livrarias para sebos e acabei sendo contratado pelo Baiano. Quando João e eu alugamos a casa velha e eu finalmente pude cortar relações com meus pais, recebemos Ulisses como nosso primeiro morador honorário. Haveria outros.

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::ainda é cedo, amor::

E agora a gente se encontra e ela me conta aos prantos o resultado de sua ousadia com relação ao professor. Parecia tudo tão óbvio para ela e tão óbvio para as pessoas que vissem a coisa de fora, mas era um oposto de óbvio, um contrário absoluto de tudo. Para ela, o mundo se engrandecia e a aquecia gradativamente. Para mim, expectador, era só mais um desses malditos calvários cotidianos, a comédia maldosa da vida organizando seus atores em torno do egoísmo e do descaso. O professor com quem ela vinha saindo ia-lhe enfeitiçando mais e mais, mostrando-se sempre mais agradável, inteligente, charmoso e bom de cama, resumindo, cada vez mais professor. E a paixão que brotava disso era invencível, tomava seu bom senso e não devolvia, escondia dela tudo o que não fosse a figura do sujeito mais velho e poderoso. Chegou ao ponto a que esse tipo de envolvimento chega (e chega sempre, não é mesmo?), onde se começa a mudar a estrutura da vida e da percepção. Vestia-se diferente, falava de maneira diferente, era mais e mais a menina do professor e menos e menos a namorada do Maurício. Na comparação, o Maurício era uma lembrança ainda quente, mas longe, ao modo como os pés se lembram ainda das meias depois que são tiradas. Mas o outro era mais encorpado em sua mente, sobrando pouco espaço para se lembrar de algo assim pequeno como as meias que não se está usando. E pois. O resultado é que assim que alcançou um determinado rítmo que permitia encarar o professor como um amante fixo, decidiu-se a não perder tempo com ninharias e terminou com o Maurício e fez do mundo um lugar bem pior para si, ela só não sabia. O que fez o professor quando a notícia foi posta dessa maneira? O que faria outro em seu lugar, passou a ignorá-la e voltou a lecionar de aliança. Conversaram e só então ela foi colocada novamente de acordo com o movimento do mundo, foi alertada para o próprio malcaratismo, o de se acreditar melhor que alguém para criar as mentiras em que pretendia viver sem precisar aceitar que era assim mesmo que o mundo se movia, através de mentiras inventadas à revelia de sua vontade.
Passou muito tempo se lamentando enquanto eu a ouvia dizer de azar e sorte, de amor e desprezo e das inúmeras possobilidades de organizá-los matematicamente sempre que os olhos estão abertos. Mas não. Ela chorava realmente porque essa capacidade que todas as pessoas têm de inventar o próprio mundo, de inventar no própio mundo (e com isso transformar a realidade alheia) fazia de todos nós iguais e sendo assim, ela não seria mais que ninguém. Nem tinha mais namorado…

::s=s0+vt::

Como há muito escuro, não consigo ver e preciso tentar discernir as formas entre o que há de escuro e muito escuro. Adivinho a amplitude e o vento e o frio e tudo isso sinto com o corpo. Até que vem a luz da lua e eu percebo tudo tomar suas formas reais sobre as minhas formas imaginárias e estou numa torre, alta, de frente para um grande sino de igreja. Um grandessíssimo sino de igreja. Um amedrontador sino. Me perco num momento observando toda a espessura das paredes metálicas do sino, adivinhando o peso do pêndulo em seu interior e começo a me sentir aterrorizado. O medo toma conta de tudo e já não há mais nada além do tamanho absurdo do sino que ameaça me engolir e a certeza de que o tempo, que ele representa, existe e escorre e em algum momento toda a estrutura começará a tremer e aquele sino monstruoso irá soar até o infinito. Isso significará a minha morte. Não sinto cansaço pela subida, não percebo as razões que me trouxeram ali, esqueço-me inclusive do frio. Só o que sei é que tenho um medo paralisante de tudo o que compõe a cena, que se torna minha memória definitiva de tudo e que eu sei que irá acabar em algum momento (o tempo escorre). A lua mingua, mas é tão pálida e bela que chego a ter absoluta certeza de que algo tão simbólico só poderia acontecer num dia predestinado, num dia em se sabe que estamos por nos extingüir. A tensão transforma a lua e as nuvens em inimigos naturais pois poderão me negar a luz que é necessária para entender o processo de ensurdecimento e estremecimento e morte a que me levará o movimento do sino. Mas a lua mingua muito devagar. Muito. Devagar. Eu não acredito em símbolos e começo a perceber a estrutura em que eu me encontro e como toda ela foi montada de forma a ampliar o som, a fazer com que uma grande massa de metal dourado reverbere e envie ondas sonoras até o outro lado do mundo, o outro lado da vida. Há uma corda e em algum momento dois ou mais homens farão com que ela se mova e eu morrerei. Tenho medo de que a lua desapareça atrás de uma nuvem e que eu não possa adivinhar o tempo de minha morte. Eu não sei a que distância de mim se encontra a minha morte. A corda de move e sino estremece