::João 10, 1-14::

A Nicole é o tipo de menina espiritualizada, que acredita na força da natureza, da religião, das cartas e de qualquer forma idiota e não científica de determinar a vida e os acontecimentos. Às vezes, enquanto ouvíamos músicas realmente densas e tristes (Pink Floyd ou Nektar) e estávamos suficientemente bêbados, ela se escornava no marco da porta e dizia ver espíritos flutuando olhares desesperados pela sala. Não foram poucas as vezes em que comportamentos semelhantes provocaram brigas homéricas com o Ulisses (penso que, sob certo ponto de vista, qualquer briga de um personagem alcunhado “Ulisses” possa ser descrita como homérica…).
Nós outros nos limitávamos a assistir e achar tudo muito engraçado. Até que uma vez ela inquiriu o João diretamente:
“Você fica aí com esse sorriso besta na cara, mas aposto que acredita em alguma coisa, sr. João! Eu quero ver se você tem coragem de contar aqui na cara do Ulisses que você não é ateu!”
Ele então colocou o violão num canto e ficou olhando direto pra ela, fazendo todo o charme do mundo, até que entrou em transe (coisa que todos nós já tínhamos visto acontecer antes). Puxou um lápis do bolso, pegou uma folha de papel com a divisão das despesas e começou a escrever. Olhava pra Nicole e rabiscava uma frase. Olhava de novo e riscava. Foi fazendo isso até achar que estava bom. Entregou o papel na mão dela e voltou a tocar violão.
Ficamos todos na expectativa, até que ela fez sua comum cara de quem não entendeu porcaria nenhuma e dividiu o papel com a gente. Todo mundo achou do caralho e acho que se não fosse o tal do falsificacionismo, Ulisses estaria convertido agora. Ele escreveu isso:

“O bom pastor abandonou seu rebanho para buscar sua única ovelha que havia se desgarrado, para que aquela não fosse devorada pelos coiotes do deserto. Foi necessário que andasse durante um dia e uma noite para que conseguisse encontrar o rastro de sua ovelha e percebesse o rumo que ela havia tomado. A busca que o levou até o animal durou um outro dia inteiro. O bom pastor dormiu durante pífias duas horas e meia para recuperar sua energia para o caminho de retorno. O homem e sua ovelha voltaram ao ponto onde o rebanho havia sido abandonado para descobrir que, na sua ausência, seu rebanho se dispersara. Os cães que ele deixou por conta de vigiá-las se alimentavam da carne de uma, que aparentemente não conseguiu fugir.
Nós somos as ovelhas perdidas de um pastor que não irá nos reunir jamais. Estamos assustadas e indefesas, sabemos dos uivos dos coiotes e lobos que nos espreitam na ausência da luz. Sabemos que os cães do bom pastor se alimentarão de nossa carne. Sabemos que unidas somos apenas um banquete maior e mais barulhento. Sabemos que esperamos e que não é necessário saber esperar, o tempo passa ainda que não queiramos. E não nos basta mais conhecer a voz de nosso pastor pois nunca mais a ouviremos.”

::brinquedos velhos::

Um menino bebe leite. Ou, era uma vez no mundo das mariolas e toda uma ficção se desenrola trazendo à tona o quê? Minha vontade, visão, experiência, minhas perspectivas e achismos, os fantasmas unidimensionais que eu considero meus personagens. São meus fantasmas. O menino sente sede, fome e uma indefinição diante de um pedaço de pão doce. Bebe leite por culpa de todos esses incômodos. Ou, um pinheiro acorda pela manhã e descobre uma família inteira de ratos tentando penosamente se instalar na base de seu tronco, cavando a terra ao redor de suas raízes. A partir disso, separar-me em três categorias me parece uma idéia absurda. Tentar limitar onde exista o que eu julgo produzir com o contexto da ficção, o da elocubração e a descrição da realidade objetiva é uma tarefa idiota. Tudo está presente em tudo, só posso escrever com o referencial nos meus fantasmas, nas vozes que me sussurram e dizem “essa palavra com certeza está adequada à sentença” ou “as motivações para desprezar o sentimento de outro se encontram no desprezo que temos pelos próprios sentimentos” e outras coisas que são aquelas que vagam numa dimensão entre o que eu penso e o que sinto que deveria pensar em determinado momento, ditas por fantasmas que estão exatamente nesse lugar, acessando os dois lados da realidade, o de dentro e o de fora. Não é simplesmente a ação de se beber o leite. Antes existe todo o planejamento de retirá-lo da geladeira, equilibrando o peso e a caixa cheia até a borda. Colocar o banquinho em frente ao armário onde está guardado o leite. Tirar as meias antes de subir no banquinho, pois as duas superfícies não se dão. Ou, percebendo então a balbúrdia criada pelos ratos e temendo pela própria vida, o pinheiro pensou ser melhor eliminar a praga e enviou através do vento uma mensagem de socorro. O vento, verde em sua essência e pouco efetivo como garoto de mensagens, logo sentiu que estava novamente entediado e deprimido. E o que há é apenas o simulacro da ação egocêntrica e um tanto de se gerar o universo através de um único referencial. Há, com certeza um universo, mas o que eu busco é o universo em sua totalidade de camadas e eu finjo com muita força que é isso o que acontece. Não é. O menino, ao fim de tudo, bebe seu leite, esfrega os olhos e pensa em beijar sua mãe, mesmo sabendo que o sangue tem um gosto muito diferente do leite e será tudo muito incômodo. Ou, já sem a esperança de que o vento possa ser de alguma forma útil e sentindo que os ratos desistiram de simplesmente cavucar terrar e estão também roendo parte de suas raízes, o pinheiro toma a decisão de ele mesmo, com sua aspereza e força, cuidar de sua própria praga.E porque isso agora? Porque há dois anos eu havia me proposto um afastamento de tudo o que era dúvidas e incômodos em minha mente. Minhas histórias seriam as histórias de outras pessoas, escritas traiçoeiramente por uma faceta minha que não me representasse. Eu estaria muito bem escondido atrás de tudo isso. O menino ajeita o próprio corpo ao redor do corpo da mãe, procurando se aconchegar bastante seu corpo de encontro aos seios dela. Cola sua cabeça com muita força em seu ombro e a inclina, para assim alcançar-lhe as bochechas com beijos. O corpo da mãe está frio. Ou, o pinheiro observa os ratos e diz “saiam ratos, ou eu os matarei.” mas os ratos zombam dele. “Não, árvore inútil. Não pode nos fazer nada.”.
Eu não tenho mais vontade de me trair. Sou cada uma de minhas palavras e meus fantasmas não estão soltos de minha realidade. Dizer que senti calor, significa que foi o que eu e apenas eu senti. Os fantasmas sussurram sobre o calor, eu escrevo sobre ele. As histórias não acabam.

::eu insisto::

Sou um estranho espectador de uma peça longa e enfadonha. É nítido que os atores não sabem suas falas, não têm habilidade cênica e possuem egos inflados. Alguns se expõem ao ridículo de tentar conversar em rimas. Outros encaram tristemente a platéia e se põe a dar conselhos. Péssimos, os poetas dessa peça. Péssimos, os sábios. Uma meia dúzia de pessoas corre de um canto ao outro do palco, sempre pelos fundos, fingindo-se de louca. Eu, que sou uma figura detestável, tamanha a minha normalidade, sou um muito melhor louco. Eles, que se sentem muito melhores que os outros, acreditam que a loucura é uma espécie de licença para mentir e destruir os sentimentos dos outros e acreditarem que assim estão levando a vida e o intelecto aos limites do possível. Assisto à cena em que os atores (e todos eles são péssimos atores) procuram se mostrar. É o teatro do corpo. Dançam, se agridem, se esfregam e se beijam. O teatro do corpo é um modo triste de afirmar que a arte morreu. Que a poesia morreu, mesmo que os versos (e como são ruins os versos) que ainda se ouvem por aí persistam em ser declamados e escritos. O teatro do corpo mostra que após anos e anos em que a natureza se ocupou em diferenciar os animais todos, os homens estão insatisfeitos. Os atores dessa lastimável peça que eu assisto não querem ser homens, ou macacos, ou lobos. Querem ser simplesmente bichos e que nenhum bicho seja diferente de outro. O macaco e sua habilidade corporal, o lobo e sua sede de sangue, o homem e seu poder sobre a palavra (e é estranhamente apenas isso que diferencia um animal qualquer de um homem, o poder sobre a palavra) têm de ser bichos. Bichos apenas, todos iguais. E eu, que até ontem era só mais uma criança, sou obrigado a assistir a tudo isso e perceber que enquanto forem tantas as pessoas idiotas, tantos os que esmagam os amores alheios em nome de um roteiro para sorrisos perfeitos, tantos os fazedores de versos vazios e egocêntricos, serei não eu mesmo, mas meu avô. Um senhor velho, fraco e cansado. Enquanto os homens insistirem que não querem ser diferentes dos animais e que os animais não devem ser diferentes entre si, eu serei apenas meu avô, com a morte que se conta nas histórias, de foice em punho, aguardando ao pé da cama pelo momento exato de dar-me um bote. O bote.

::postagem quase útil::

Roberta, você me perguntou sobre a creche Aurélio Pires. Aquela da Pampulha, perto do bairro Jaraguá, universitários e outros com grandes concentrações de repúblicas, correto?
Realmente não tenho como dar nenhuma informação concreta, já que aquele post de 2004 no blog antigo retratava a minha despedida “mesmo” e não apenas feriados de fim de ano.
Você pode procurar na internet pelo projeto do qual eu fazia parte, o Mala de Leitura, que eu sei que atuou lá por mais tempo e talvez tenha parceria com a creche até hoje (isso, por si, já seria um bom sinal).
As minhas impressões de 2004 são vagas, mas não são ruins. As crianças eram ótimas e havia receptividade das professoras para o projeto. As crianças serem ótimas pode refletir algo sobre o ambiente. Lembro também que existia uma enorme fila de espera por vagas na creche (qualidade do serviço, ou problema social???). E acho que só consigo ir até aí.
Boa sorte!