::tardias resoluções de ano novo::

Ser mais prático. Observar a realidade como uma coisa concreta e imutável;
Não me surpreender. Os seres humanos são capazes de tudo, principalmente de se mostrarem simpáticos e solícitos, desde que haja dinheiro envolvido;
Não me iludir. Nada nos salvará;
Descrever mais. Quando escrever (as teclas fazem tlec, tlec, enquanto meus dedos passeiam pelo teclado deixando marquinhas no hiperespaço);
Conversar menos. Observar mais, aprender mais, agir mais.

Todo dia alguém diz que eu devo ser menos poético, menos idealista, menos sensível. Todo dia alguém diz que eu devo tirar a carteira de motorista, fazer uma pós-graduação e encarar os relacionamentos como projetos. Talvez seja melhor esperar 2012…

::modernidade líquida::

O poeta é um rapaz mais ou menos rico, mais ou menos bem informado, que tem dinheiro para fazer duas viagens bacanas por ano (às vezes até para outro país, sabe-se lá) e sair aos finais de semana.
O poeta conhece o gosto do absinto, da tequila e de outras bebidas vendidas em bares que estimulam a freqüência de um poeta.
Para ele, rítmo é algo secundário, desimportante. Ao invés de poesia, valoriza mais sua entonação de voz e corte revolucionário de cabelo.O poeta luta, mas luta em nome de uma individualidade cultivada por músicos e programas de tv onde esses músicos se apresentam. Quais os assuntos do poeta? Aquilo que ele vê que é diferente de tudo, da realidade de todos, da vida das pessoas, retratados com muitas polissílabas e termos que servem como exemplo de que ele leu autores que são desconhecidos das pessoas e da vida das pessoas, da realidade de todos. O poeta me faz pensar em desistir.

::a song for Jeffrey::

Eu já sei que não ia dar certo, então o melhor é isso. Conheço você bem demais pra saber que convidar você a vir comigo seria o mesmo que desafiá-la a cometer essa sandice. Às vezes isso me entristece um pouco, pensar que existem milhares de maneiras diferentes de ver o mundo, de entender a realidade, de construir uma vida e logo a minha é a que não combina com nenhuma das outras. Porque eu sou egoísta demais, você diria. Talvez, mas a base desse meu egoísmo é a incapacidade (e extrema falta de vontade) de me dobrar à isso que uns chamam de convenções. Por exemplo, minha idéia é ir de carona sempre pro norte, sem nenhuma certeza de até onde eu posso ou quero chegar, pode ser Belém, pode ser Cuba (basta aparecer um barquinho disposto a me levar de graça). O carro eu vendo amanhã mesmo, uso o dinheiro pra comer e dormir durante o caminho. Qualquer pessoa (e nesse caso a certeza é a de que você seria qualquer também) me tomaria por um idiota. E egoísta, por não conseguir pensar como os outros, por não querer ser como os outros, que insistem em comprar o carro e ir para o Rio de Janeiro. Estou limitado pelo meu corpo e pelas minhas vontades e pelo meu pensamento. Só vejo aquilo que meus olhos enxergam e quando todos se distanciam a única voz que não me abandona é a minha voz.
Antes eu não ligava muito, mas tenho tido que explicar isso tantas e tantas vezes que eu mesmo me sinto estranho, confessando o grande crime que é acordar pela manhã e pensar “sou eu mesmo. De novo”.
Você vai conhecer um sujeito numa festa, esse sujeito vai comentar que viu um filme muito bom (um desses que eu não assisti) e você vai logo se interessar. Ele vai perceber que para lhe agradar vai ter que se esforçar e gastar toda a cultura dele com você, que vai se impressionar pelo fato de isso não ser pouco. Conversarão a festa toda. Enquanto falam, bebem e enquanto bebem, estarão cada vez mais interessados um no outro. As visões de mundo, política e religião de vocês dois serão diferentes e por isso vocês vão discutir, mas nada que a obrigue silenciar diante dele, como quem congela de asco ao ver uma coisa tão bizarra e fora dos padrões que o silêncio é a única forma possível de interação. Em pouco tempo farão planos. Para um encontro, para uma viagem (uma viagem talvez parecida com as minhas), para um filho. Eu imagino que funcione assim porque é o que eu vejo todos os dias. Sempre amanhece. Sempre há planos.
Eu? Como eu poderia fazer planos se a cada manhã essa mesma manhã traz pra mim coisas de além dos meus próprios sonhos? Não. Vou-me embora sem planos. Já não sei para onde.

 

 

 

 

Não quero.