::às vezes eu quero ir embora::

A mocinha vem toda simpática, trazendo meu PF. Coloca o prato diante de mim e pergunta se eu quero beber algo, com um sorriso que eu não consigo adivinhar que é provavelmente falso. Peço uma Coca.
_Uma de quinhentas? – ela pergunta.
Eu atravesso uns bons cinco segundos atônitos e reflexivos antes de balbuciar um “pode ser” de volta.
A garçonete traz o refrigerante e um copo, muito prestativa. Agradece, eu agradeço e ela me deixa a sós com meu incômodo pelo fato de a crise de gênero não ser mais exclusividade das medidas de peso…

::esperar::

Existem muitos espaços da cidade, à noite, que se tornam pequenas ilhas de solidão. Um carrinho de pipocas sem fregueses, com uma dona menos velha do que aparenta. A portaria de um prédio, onde o que há de mais vivo é o rádio do porteiro (uma figura que existe aqui e no além).

No meu caso, um ponto de ônibus, onde espero sozinho.

Estar sozinho no ponto de ônibus é incomum numa cidade tão grande, mas acontece. Quando é assim, entro em contato com a fauna da cidade, observo os bichos pra achar com o quê pensar. Existe pra mim algo de fascinante nas baratas, na enorme estupidez das baratas que é tão semelhante à nossa própria estupidez. No fato delas só se sentirem confortáveis em meio à sujeira, nos cantinhos, no escuro. Enquanto assisto as dezenas de baratas que circulam pelo mesmo ponto de ônibus que eu, torno-me uma grande e asquerosa barata cascuda, medrosa e imortal, tentando avançar de um ponto escuro a outro, ainda mais escuro.
E há ratos, com suas carinhas simpáticas de animais de pelúcia e os rabos nojentos como grandes vermes contorcendo-se em suas costas. Os ratos são criaturas maiores e mais poderosas que as baratas, mas são ainda mais fugidios, mais covardes, mais humanos.
Passam alguns ratos pela sarjeta, bem embaixo dos meus pés. Alguns param às vezes e me encaram e eu balanço minhas pernas, dizendo a eles que não devem se aproximar. Eles voltam a correr. Então aparece uma borboleta. Ela vem voando em suas asas azuis e pretas e em seguida pousa no banco, esperando comigo o ônibus. Eu não sei quanto tempo passamos os dois ali, esperando juntos, mas é um tempo grandemente incomum para uma borboleta perto de um homem. Diante dela eu desisto das comparações e dos pensamentos. Eu prefiro fechar os olhos e sentir a certeza de que sou um homem sozinho num banco esperando por um ônibus. Ela mexe as asas de leve e eu me torno mortal. Percebo em algumas ruas pra cima de onde estou, o ruído de motor da lotação. Lá vem ela. Me coloco de pé, mas a borboleta prefere o banco. Faço sinal para o ônibus, pois já o vejo e quando ele para, rangendo e bufando e abrindo portas barulhentas, aí é a hora em que a borboleta se vai.