::na saída::

A certeza de que um dia seu corpo será um boneco de carne seca e verde, recheado por vermes e comido por fungos não é assim tão ruim quando se acredita que a morte é um acontecimento completo e definitivo, que deixa apenas um simulacro frio para ser enterrado e nada mais. Uma morte materialista e objetiva onde não haja um espírito que possa se ressentir, arrepender ou simplesmente caminhar por um portão dourado em direção à luz.
O corpo seria apenas o corpo e tudo ficou pra trás, pois você deixou de existir. Muito simples e em alguns casos injusto, já que os vivos esperam que seus inimigos ainda paguem por todo o mal que fizeram quando estiverem no além. Mas não existir depois de morto deixa o consolo de que não há necessidade de organizar suas notas fiscais espirituais pra uma auditoria celeste.
Só que isso é mentira.
Ainda não tive a oportunidade de descobrir a verdade, se é que há alguma, mas já sei que os espíritos estão aí para se ressentirem sim. Alguns deles vão acompanhar juntamente com os parentes que se recusarem a abandonar o luto (é raro, mas ainda acontece, tenham certeza), o vagaroso putrefar do corpo antigo e com isso remoer os próprios pecados, relembrar as vitórias e, mais que tudo, se inconformar diante da injustiça do mundo dos vivos e a injustiça do que conhecemos como mundo dos mortos.
Deus não apareceu para nos julgar, não enviou emissários e nem mandou uma cartilha com telefones de emergência. Mas como gosto de pensar nas compensações, o Diabo tem nos deixado ao mesmo leo.
E é interessante perceber que assim como há esses parentes amalucados, que nunca desistem de sofrer as separações definitivas e tentam participar da morte do familiar defunto, há também algumas pobres almas que não se desligam do mundo dos vivos e ficam tentando entender as pessoas e as situações e seu próprio passado, como se logo agora isso fosse servir pra qualquer coisa.
Ontem mesmo estive observando dona Lourdes, que está conosco já faz um ano e ainda se preocupa com todos os vivos que a rodearam como se em algum momento ela pudesse “vestir” novamente o próprio cadáver e voltar pra casa pra tirar satisfações.
Estava observando, aliás, porque ontem era o primeiro aniversário póstumo de dona Lourdes. Foi um dia de casa cheia pra ela.
Mas com o avançar do dia e das visistas, ao invés de assumir o tom orgulhoso do espírito bem quisto, saudoso, da senhora forte que faz uma falta danada, notei que seu semblante ia se tornando cada vez mais fechado, desgostoso, como se cada pessoinha que aparecesse na borda de sua cova a obrigasse a beber um copo de veneno amargo.
Pensei que perguntar não faria mal e em troca acabei ouvindo toda a história de vida de dona Lourdes, porque essa necessidade de falar nós mesmos não passa com o fim da vida.
A vida dela não foi exatamente ruim, mas também não foi das melhores. Os bons e velhos problemas com filhos, machismo, essas coisas.
Ela era mãe de duas meninas e um menino, filho do meio. Vera, Victor e Vanda, nessa ordem.
Imagino que, como toda boa mãe conservadora e zelosa, dona Lourdes fez de tudo para dar uma criação justa, repressiva e homogênea para todos os filhos, mas o que acabou acontecendo foi que criou o menino pra mandar nas irmãs, enchendo o guri com mimos de filho caçula e regalias de primogênito. Com isso não deu outra: Vera deu o grito da independência e começou a agir como revoltada, não baixando a cabeça pro irmão e conseqüentemente discordando e enfrentando a mãe o tempo todo.
Mas como todo bom defunto arrependido, dona Lourdes me explica isso com cara de culpada e diz que “Só hoje eu entendo a Verinha”.
O tal Victor cresceu mandando na irmã mais nova e como o pai ficou doente e morreu cedo (deixando uma pensão – sempre há um dinheiro nessas histórias, não?), passou logo a mandar também na mãe.
Caso algum de vocês queira muito saber onde diabos está esse pai que morreu cedo, bem… dona Lourdes se pergunta a mesma coisa. Eu mesmo nunca vi um parente morto e não deixei ninguém que pudesse querer vir correndo me ver ao chegar por aqui.
Mas voltando ao drama, por ser a filha subversiva, Vera acabou se afastando da família, o que eu particularmente não vejo como uma coisa ruim. Teve oportunidade de estudar, conhecer gente, fazer coisas, enfim, virar uma dessas mulheres bem resolvidas e brigonas que povoam o século XXI.
Claro que a mamãe do Victor só pensava nela como uma turrona desrespeitosa, candidata à solteirona e que era incapaz de perceber a bondade do irmão.
Victor se casou e entre seus montes de negócios iniciados e mal resolvidos, transformando-se, oficialmente, numa espécie de auditor das mulheres da família. Chegou ao ponto de tentar controlar o dinheiro da tal pensão do pai, no que dona Lourdes o considerou então um sujeito zeloso, desprendido e reto, que queria apenas se certificar de que nada faltaria à mãe devido ao comportamento perdulário da irmã mais velha. Tenho certeza de que ela usou o termo “perdulário”…
Houve briga, verdades atravessando a sala como dardos e vários filhos chorosos. Nas palavras da velha Lourdes:
“Na minha condição não dava pra saber direito. Eu só via as coisas aparecendo em casa. Queijo, vinho… livro à baciada. E ela recebia uns amigos! Uma gente que entrava e saía, sempre falando baixo e com risinho de canto de boca. No meu tempo de moça não tinha nada disso! Aí pensei que o melhor seria deixar o Victor, que estava casado, era um sujeito responsável e preocupado comigo, tomando conta do dinheiro…”
Adianto, porque não sou dado ao suspense, que isso era tudo pose do Victor. Mas não digo isso porque fui eu lá ver pessoalmente (ou espiritualmente), mas pela conclusão da história de dona Lourdes, que eu faço questão de colocar aqui com as palavras dela:
“Aí eu morri, né meu filho? E foi aquela tristeza. A Vanda parecia uma coisa assim de tão triste! E veio todo mundo prestar a homenagem, a família que ficou no interior, os amigos. Todo mundo! O padre Olavo fez um discurso tão bonito, todo mundo chorou. E a Verinha plantada lá do lado do caixão. Acho que eu fiquei triste porque eu mesma não pensava nela assim, tão frágil.
Então eu comecei a perceber os comentários de todo mundo, tudo no cochicho, claro. Falando do Victor, que era um filho isso, um filho aquilo, nada de bom. Pensei que era implicância do povo, meu filho. Porque pra mim não tinha nenhum cabimento dizer isso dele.
Até que veio a hora da última prece.
Padre Olavo concluiu e meus parentes foram se aproximando, pegando as alças do meu caixão (esquisito falar que é meu, né?), pra enterrar meu corpo. E sobrou uma última alça, que no dispor de todo mundo, acabou ficando do lado do Victor, meu filho homem. A cara de desentendido que eu vi ele fazer foi tão grande que se eu tivesse viva, juro pela Nossa Senhora do Sapato Verde que tinha morrido era ali na hora, de desgosto!
Meu único filho homem, que era muito homem pra brigar pelo meu dinheiro, não foi homem pra levar a mãe morta pro cemitério. Então veio o cumpadre Sérgio e pegou logo a última alça pra começar o cortejo.
Se dependesse do Victor, meu corpo tinha ficado ali, pros cachorros comerem! Tanto isso é verdade que fez um ano da minha falta e veio tanta gente e aquele ingrato não deu as caras. Isso pra uma mãe é triste, menino, muito triste…”