::Faata::

Dialética
(Vinícius de Moraes)

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

A gente às vezes acorda, olha pro céu, olha pro chão e se pergunta pela árvore vermelha…

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::querido diário otário de um vampiro banana ::

Eu olho pra trás e percebo algumas pequenas mudanças. As crises familiares iniciadas pela morte dos parentes começam a se resolver. De repente voltamos a nos amar. A vida da família está voltando para os eixos, um pouco mais dolorida, mas voltando para os eixos.
No emprego o fenômeno é parecido. As pessoas começam a dialogar com mais propriedade, mais certeza e mais abertura para que os diálogos sejam diálogos e não mera troca de monólogos. No meio disso – surpresa das surpresas – as pessoas me ouvem. Concordam comigo, discordam de mim, mas me ouvem. Participo de uma equipe incrível (que pode se desmanchar num médio prazo, mas ainda assim, ficam as lições sobre como executar um trabalho kick ass em equipe) e percebo certa confiança das hierarquias no meu trabalho.
A vida pessoal, que normalmente funciona de maneira inversamente proporcional às outras duas está absurdamente estável. Amizades interessantes pululando e nos termos dos amigos já antigos, estou vivendo intensamente minha vida. Tenho conversado com muita gente, tenho conhecido muita gente, tenho tentado encher a vida de contraste e cores. Se eu acreditasse em felicidade, diria que estou feliz, but there’s no such a thing as happiness.
Meu mundo psicológico está em paz. Penso devagar, escrevo devagar, converso devagar. Isso me leva a agir devagar e analiticamente. Sofro, porque os homens sofrem. Espero porque há coisas que nós devemos apenas esperar, a expectativa é fator importante. E anseio, citando Los Porongas em mesas de boteco. (“anseios temperados com receios, paranóias e outras dúvidas).
Quando eu penso nisso tudo associado ao fato de que amanhã eu preciso viajar de avião, sinto muito, muito medo…

::família feliz::

Todo mundo erra, mas tem umas coisas que passam um pouco dos limites. Hoje foi um dia foda, quase mandamos Teodoro embora da casa velha.
A coisa começou quando cheguei do sebo (de saco cheio) e vi pela cara da Nicole que alguma coisa estava muito, muito errada. Ao invés de estar sentada na sala com aquele sorriso bobo que lhe é peculiar, estava com um ar vazio e assustado (se é que as duas coisas podem caminhar juntas), abraçada à mochila e olhando pro corredor, esperando.
Perguntei o que foi, mas ela não teve tempo de responder, João veio do corredor com uma cara tão emputecida que eu pensei que ele ia partir pra cima de mim sem maiores explicações. Mas merguhou no sofá ao lado da Nicole. Percebi que ele estava com marcas claras de quem tinha brigado, a roupa toda suja e esticada e uns vergões espalhados pelo corpo.
_Alguém vai me explicar que merda é essa que está acontecendo?
_Claro! – Quem respondeu foi o Ulisses que veio da cozinha com um pedaço de carne em cima do olho direito, o que fez perceber que a coisa era muito pior do que eu podia esperar. Era pro Ulisses estar no shopping trabalhando.
_Tem a ver com aquela puta bêbada que está apagada no seu quarto!
Eu demorei a sacar que a puta bêbada era o Teodoro, mas as coisas foram começando a fazer sentido.
Organizando tudo que ouvi, a história fica mais ou menos assim:
O Teodoro descobriu que a Natália estava namorando um cara. Confesso que eu já sabia, mas estava torcendo pra ela ser mais ou menos esperta e disfarçar, o que aparentemente não aconteceu.

Primeiro ponto importante da história: ela tem alguma culpa pelo fato do Teo ser um doido, transtornado, psicopata? Não, mas ele é. Não é inteligente agir como se não fosse.

Ele tinha ido ao centro deixar uns currículos e pro azar de todo mundo, quando vinha voltando pelo Elevado, deu de cara com os dois abraçados, voltando da escola, aos beijos.
Olhando pro Teodoro não dá pra saber com certeza, mas além de doido, ele é muito forte e muito bom de briga. Não deu um “bom dia”, já tacou a mão no namoradinho da Nicole que tinha como opção escolher o viaduto Castelo Branco ou o Teodoro.
Escolheu errado, o Teo encheu ele de porrada. A Natália aprontou um escândalo, uns peões mais intrépidos (e musculosos) apareceram e separaram os dois.
Teodoro correu pra casa velha, deixando uma Natália histérica prometendo, nó mínimo, polícia, e um menino machucado e aterrorizado no chão. Veio pra tomar um banho e se recuperar. Por “se recuperar” temos que entender “tomar um fôlego e ir prum boteco encher o rabo de cachaça”.

Segundo ponto importante: esse pedaço da história parece conter uma infeliz coincidência cinematográfica, mas eu não acredito nela. E nem sei como isso foi apurado. Eu só ouvi.

Pelo que eu entendi, a Natália foi pra casa e contou a história pro pai, que ficou muito puto da vida e “diz que” resolveu curtir esse sentimento onde? Num boteco. Eu sou um alcóolatra trabalhador. Não sei como esse povo consegue baixar num boteco assim, sem culpa ou compromisso, numa terça-feira de tarde. E era justamente o mesmo bar que Teodoro tinha escolhido pra afogar as mágoas. Agora me contem se um sujeito arranca lá do Caiçara, desce pro Padreco pra beber porque o namorado da filha brigou na rua?
Ainda segundo o povo, quando ele viu o Teo sentado na mesinha, encarando um copinho de 51, tratou de ligar pruns amigos e se ajuntaram pra dar um pau no meu companheiro bebum.
Isso é uma coisa legal pra gente pensar: terça-feira, quatro e meia da tarde, cinco sujeitos com mais de quarenta anos batendo num outro, na casa dos vinte, na esquina da Santa Quitéria com Padre Eustáquio. A polícia apareceu? Não. Apareceu a Nicole. Em desespero ela ligou pro João e em seguida pro Ulisses, mas nenhum deles conseguiu chegar à tempo pra resgatar o Teodoro. Quando apareceram, o time dos velhos já tinha ido embora, exatamente porque o dono do boteco “ameaçou” (só ameaçou, o mundo me assusta) chamar a polícia.

Terceiro ponto importante: se não houve um grande duelo de jovens contra velhos, por que diabos encontrei meus companheiros emputecidos e com sinais de briga?

Quando os dois chegaram, Teodoro e Nicole estavam sentados no meio fio. O dono não deixou que eles esperassem no bar, mas serviu uma cerveja e duas cachaças ao Teo (o mundo me assusta muito) na rua mesmo. Como o bom cachaceiro que é, o Teo agradeceu o fato deles terem vindo buscar “a Nicole”, porque ele ia lá quebrar o pai da Natália na porrada. E os três tiveram que arrastar Teodoro até a casa velha, debaixo de ameaças e sopapos, pra que ele não transformasse a coisa numa cópia belorizontina de “Abril Despedaçado”.
E apesar do Teodoro ter passado muito dos limites, apesar de estar todo mundo meio magoado com ele, apesar de ele não ser um morador oficial, cogitamos expulsá-lo da casa velha e das nossas vidas. Depois que eu cheguei, nos assentamos e a história foi repassada várias vezes. No final chegamos à unânime conclusão de que a culpa dessa porra toda era da Natália, que não tinha nada que desfilar com namorado pros lados da nossa casa, sabendo que tem um ex completamente insandecido solto por aqui.
A Nicole ficou com a missão de fazer severas ameaças à ela na escola, amanhã. Dizer que estamos nos programando pra quebrar o pai dela e matar o namoradinho, essas coisas bem adolescentes.
E o João vai dizer ao Teo que a família do namorado ia acionar a polícia, mas topa não fazer isso se ele não sair mais da linha (até porque ele já levou um corretivo bem dado) e tal e coisa.
Depois disso levei acompanhei a Nicole (que estava deliciosa com cara de coelhinha assustada) até sua casa e voltei porque eu tinha que tomar banho e dormir, amanhã ainda é quarta-feira.