::Lamentações 3, 42::

Passo algum tempo encarando Deus, que está absorvido com a flauta e pergunto:
_O que é que você tem reservado pra mim, afinal de contas?
Ele para de tocar e coloca a flauta de lado, na cama. Deus está sentado na cama, com as costas apoiadas na parede. Minha pergunta continua no ar, como um pernilongo que nos incomoda por toda a noite com um zumbido insuportável. Ele reajeita os cabelos no rabo de cavalo e eu observo suas mãos grandes e magras, com dedos de juntas grossas. As mãos vão dos cabelos para o colar de contas de madeira, com as quais ele passa um tempo brincando. Ele volta o olhar novamente para a flauta e depois para mim, mas muito de leve. Repete a minha pergunta:
_O que eu guardo para você?..
Por um instante penso que ele vai dizer que não tem o poder de decidir nada, mas nós dois sabemos que tem e que nesse mesmo momento (in this very moment – gosto do som dessa frase em inglês) todo o curso da existência, com uma leve ênfase na minha existência, atravessa seus olhos.
_O oráculo da sua vida está todo descrito no livro das lamentações da Bíblia.
Deus não me diz isso sem demonstrar que sente o coração pesado. E eu confesso que prefiro quando ele cita Shakespeare ou Drummond. Sua mão direita tateia a cama em busca da flauta, enquando a esquerda conta as bolinhas do colar de hippie.
_Mas o que é que está escrito no livro das lamentações?
Minha pergunta é uma forma de tentar fazer com que ele seja mais direto. Ele desiste da flauta e pela primeira vez me olha diretamente nos olhos. Seu corpo magro se infla num suspiro.
_Velho… se eu fosse você, não ia querer saber nunca…

Anúncios

::Teddy’s sorrow – parte 2::

Começa um ponto desse caso que pra mim é muito difícil descrever. Isso porque eu estou condicionado a odiar Natália e viciado em criticá-la. Pra mim é uma fraca, manipuladora e interesseira que abre as pernas para qualquer um que abra as portas de seu próprio carro pra ela. Mas essa é a minha opinião e confesso que às vezes ela vacila, ainda que eu a exercite bastante.
Os dois se conheceram assim, na fila da merenda, ela veio e pediu que ele comprasse um salgado e um refrigerante, porque a fila estava enorme e o intervalo era muito curto. Rolou uma conversa relâmpago sobre o preço das coisas, a péssima escola, a vida escrota de todo mundo e uma festa no final de semana, na casa do Chico Fernando.
Isso pro Teo era absolutamente novo. Ele tinha pavor de contato, de festa, de ter que admitir que era só um adolescente e precisava de permissão pra sair e voltar de casa e que isso seria matéria de negociações intermináveis com os pais. Mas como eu estava imaginariamente lá assistindo a cena, sei que nada disso passou pela cabeça dele. O terror que Natália provocava ali do seu lado era uma coisa deliciosa, um aberto no estômago que ele implorava para não passar. As mãos dormentes segurando o dinheiro que ela tinha deixado com ele e a sensação de que se ele não prestasse muita atenção, a menina ia simplesmente desaparecer, ou perder a forma. Teodoro sentiu a primeira beliscada da paixão em seu pobre rabo adolescente.
Em sua casa a coisa foi meio tensa. Ele não era de ir a festas. Os pais não se lembravam de ele ter pedido uma única vez pra sair de casa e voltar fora do horário. O maravilhoso filhinho robô que eles pensavam estar criando com tanta eficiência deu o primeiro defeito.
Eu gosto de ir longe nas coisas. Teodoro me contou que eles disseram um tudo bem sem muita segurança, coisa de quem não tem muito como negar. Mas eu penso numa interminável discussão de madrugada, onde a mãe acusa o pai de estar empurrando o filho para a vida boêmia, enquanto o outro se defende dizendo que o filho já é um homem e que ele achava muito estranho que isso não tivesse acontecido ainda e que quando ele tinha a idade do Teozinho (Teozinho é muito feio! Mas é esse apelido mesmo…) já estava na segunda namorada. A mãe neurótica do Teo ia fazer uma cara de emputecida pelas traições retrospectivas e a conversa ia tomar outro rumo.
Se eu disse que estava num pedaço difícil de escrever pelos meus sentimentos em relação à Natália, aqui fica ainda pior, mas por outra razão. Foi, com certeza o pedaço que eu ouvi mais vezes, mas sempre de um modo diferente, com um Teodoro completamente bêbado e choroso, repetindo as partes que ele já havia contado e enfiando a cabeça na privada pra dar mais uma golfada. Então vamos resumir: Teodoro foi à festa e Natália estava lá, linda, gostosa, de minissaia e rabo de cavalo. Os dois beberam, conversaram e num passe de mágica estavam atracados num sofá tentando desesperadamente se engolir. O que eles trocaram de mais inocente e pouco pecaminoso foram os números de telefone (e eu posso jurar que foi o que Natália mais ficou receosa em dar…) e daí pra outros encontros e finalmente um início oficial de namoro, foi um pulinho de gato.

::cinco horas atrás::

Cinco horas atrás ela disse “o silêncio é a falta da criatividade”.
Eu ouvi em silêncio. E pensei.
Fui à minha estante e abri um livro do Paulo Lemninski. Observei bem as páginas e trouxe de volta.
Mostrei um pequeno haicai de três versos, sozinho numa página em branco e me lembrei de todas as vezes em que ouvi reclamações sobre o desperdício de papel nos livros (ainda hoje se ouve isso. Aproveitar papel). Respondi que um haicai flutua na folha (não disse flutua, porque na hora me pareceu piegas. Ainda me parece) cercado de todo o branco e que a ausência do resto – outros versos, poemas, explicações de rodapé, ilustrações declarações do autor sobre a veracidade da poesia – não é sinônimo ou consequência de falta de criatividade.

Eu ouvi ela dizer falta de criatividade, mas entendi que era falta de vontade, ou falta de assunto. Eu ouvi sobre o silêncio e respondi sobre o papel branco, porque acredito que essas duas coisas são as mesmas coisas.

E só então eu disse. O silêncio não nega o poema. Antes pelo contrário, ele, o poema, é reforçado pela ausência de todos os outros elementos (então eu os descrevi mentalmente, mas tive preguiça de enumerá-los outra vez).
Mas eu só acreditei nisso, com todas as minhas forças, até completar a frase.
Ou, eu acredito nisso ainda, mas duvido da minha capacidade de fazer alguém acreditar que o silêncio possa representar algo além de ausência, ou que a ausência tenha o poder de simbolizar ou reforçar uma presença.

As pessoas continuam olhando um haicai solto na página e lamentando o desperdício de papel.

::Ó só procê ver::

Num momento o que é que você acha? Que é importante abandonar essa idéia de ficar objetivando os sonhos. “Sonho que isso, sonho com aquilo outro”, parece que é tudo besteira que te atrapalha a viver e a sonhar do jeito que é muito necessário. A impressão que você vai ter é que se deve deixar os sonhos se formarem por sabe-se lá que malditos processos psicológicos internos e depois deixá-los fazer efeito em nosso humor, em nossas escolhas, em nossos destinos reais com os quais (esses sim) estamos nos estressando, em meio aos planejamentos e contas de fim de mês. Então? Não é necessário pensar nos sonhos, trazê-los na ponta da língua e falar deles pras outras pessoas.
Aí você começa lá um texto dizendo mais ou menos isso. Um que comece com “uma vez que não existe o tal felizes para sempre…”. Mas o que te acontece? Acontece de um amigo fazer a pergunta objetivamente e à queima-roupa, com todas as palavras claras, de um jeito que não dá pra tergiversar:
“você tem os mesmos sonhos das pessoas comuns? De se casar e ter filhos?”
E antes que eu consiga dizer que não, não sonho em me casar, estou em verdade objetivando meus sonhos e acabo dizendo “Sonho o que todos sonham. Sonho ser amado”.
E então é tudo tarde demais e percebo que eu acredito, ainda que involuntariamente que o felizes para sempre existe. Enquanto sonho e enquanto uma coisa planejada e construída, quero ser feliz para sempre, com todos os incômodos que isso pode trazer pras minhas noites de sono…

::e eu não devia te dizer II::

A angústia é uma coisa vista e não sentida. Percebe-se a angústia num objeto, como percebe-se cor ou cheiro.
A angústia do vidro de perfume.
De uma mensagem no telefone.
Do papel crepom rosa.
De um livro cujo o tema não seja angústia (se é que ele existe).
Há matiz, densidade, tamanho e duração. A angústia pode ser isolada, destilada, copiada e exibida como componente ou estado físico de qualquer matéria.
Percebe-se altíssima densidade de angústia em objetos verdes, assim como apenas um tom de vermelho carrega complexas matizes de angústia.
Nos sons existem freqüencias altas, baixas e angustiantes.
A estranha beleza fútil das minhas mãos me enche de angústia: isso é uma confissão.