::o mistério da árvore vermelha::

Há três dias não vejo Osmar. No primeiro dia não estranhei, nem no segundo. Mas hoje me sinto um tantinho aflito, onde será que esse coelho se meteu? E o que é que ele deve estar aprontando? Tenho, porém, outras duas coisas com que distrair os pensamentos.
A primeira é o novo canteiro de plantas vermelhas. Elas combatem magicamente o verde nas paredes. Onde quer as coloque, o lodo se liquefaz e escorre. Em compensação ainda não descobri como tirá-las do vaso sem que morram. tentei plantá-las na superfície das paredes, tentei passá-las para outros vasos, mas o resultado é o mesmo, em poucos minutos elas começam a ressecar e morrem. Mesmo no vaso original, elas têm lá seu prazo de validade. Só que nele existe um ciclo. As mudinhas se colocam pra fora da terra, como cabinhos vermelhos, incham, se esticam, dão florzinhas lindas que se parecem com cogumelos (eu não sou um botânico, mas creio que não se trate de cogumelos, mas de flores gordinhas como cabeças de cogumelos) que vão morrer e dar lugar a outras. Desde o sumiço do Osmar tenho que limpar o vaso todas as noites. Acho que antes era ele quem fazia isso e eu pensava estar vendo sempre as mesmas flores. O vermelho delas me impressiona. Não é o vermelho simples das caixas de lápis de cor, mas aquele vermelho escuro e profundo dos lábios, um pouco como o sangue. E assim como o sangue, as flores ressecadas se tornam ocres. Se eu descobrisse a razão desse vaso ter aparecido, muita coisa se resolveria aqui em casa, com certeza.
E há também o anjo. O encontrei voltando pra casa na semana passada. Por acaso eu só conhecia anjos através de pinturas e de uma foto muito velha e amarela (de antes das máquinas digitais), que tenho guardada num caderno. É muito diferente dos anjos com os quais as pessoas sonham, se parece mesmo com uma pessoa, mas com uma pessoa bem penquena, como um boneco. Estava num estado lastimável quando o encontrei na rua, haviam arrancado suas asas (e por isso ainda não sei que tamanho teriam as asas de um anjo são) e o machucado muito. Tratei-o à base de holoplastos e éter. Agora está bem melhor, mas não emite um único som. Preferi deixá-lo guardado no quarto de Osmar, que ficou muito curioso com ele e passava o dia escolhendo os mais variados tipos de música para tentar fazer com que reagisse. Talvez (só talvez) os anjos não possuam o sentido da audição, porque ele não reage a nada que tenha a ver com som. Nem música, nem diálogos, nem súplicas. Mas a turma da teoria da conspiração crê que eles não conversem por terem medo de revelar seus propósitos. Vai saber.
Vou aproveitar o tempo em que Osmar está ausente não ouvindo música. É detestável, mas me desacostumei de mexer naquele maldito aparelho de som.
Última nota interessante sobre meu vaso de flores: é meu e não importa onde eu o coloque, volta pro meu quarto no outro dia de manhã. Faz eu me sentir especial, mas o quarto vive cheio de poças verdes…