::eu fui, você não::

E nem tinha que ir mesmo, era um evento particular e não divulgado. Nós já vínhamos conversando informalmente sobre sermos um movimento literário (mais literário do que movimento). Tentamos, informalmente, fazer uma reunião no Malleta, mas tudo ainda estava muito insipiente. Daí resolvemos parar com a pouca vergonha e oficializar a coisa com calendário de reuniões, projetos e a criação de um departamento de marketing e relações públicas.
Nós quem? O Nerito, do Blog “O Guardião”, a Simone, do “Cálida Poesia” e eu. Achamos importante que o local da primeira reunião fosse simbólico e tivesse a ver com movimentos culturais literários, portanto escolhemos o pedante, ostentativo e afrescalhado café do Palácio das Artes (com aqueles petiscos caros e ilusórios) como ponto de partida pro coletivo de literatura.
A Simone, que tinha mais o que fazer da vida, não foi e a reunião ficou sendo do Nerito comigo. Como todo coletivo, por mais canastrão e vagabundo, possui um nome, começamos a reunião com um debate sobre qual seria o nome do coletivo. Foram ventiladas duas sugestões, ambas com bons argumentos favoráveis e desfavoráveis e explicações metafísicas desnecessárias que eu descrevo a seguir:
Sugestão 01 – “clube da Serpente”: Esse nome é tirado do livro “O Jogo da amarelinha” (que os cults devem conhecer por Rayuela), do Cortázar. O argumento contra é que esse nome é tirado do livro “O Jogo da Amarelinha (que os cults devem conhecer por Rayuela), do Cortázar. Nós não temos nenhuma influência direta dele na nossa escrita e pode ser que alguém se iluda achando que somos viúvas dele, tentando recriar sua escrita e seu universo literário (se amanhã eu acordar e descobrir que estou escrevendo igual ao Cortázar, largo essa porcaria de blog e vou embora ficar rico). O argumento a favor é que o Clube da Serpente, no livro, é uma reunião de pândegos, literatos e intelectuais que se juntam pra tomar cachaça e resolver os problemas da humanidade, o que é bem próximo do que a gente tem tentado fazer. Além disso, Clube da serpente tem sexy appeal, funciona bem como nome de coletivo;
Sugestão 02 – “filhote de lobo”: o nome foi tirado do poema “O que eu quero de você”, do Fabrício Corsaletti (um filhote de lobo/ pra morder minha mão direita/ quando eu estiver no escuro/ depois que o amor acabar) e usado por mim como imagem literária num texto que eu plagiei da Simone (eu sou assim, nada que eu faço é original). O argumento à favor está na imagem do lobo e da metáfora “lobo”, como símbolo de força, selvageria, liberdade, inocência e lealdade. Quem duvidar disso pode ouvir “Of wolf and man”, do Metallica. Eu acredito no Metallica. O argumento contrário é que o nome tem mais a ver com meus devaneios pessoais e não necessariamente reflete uma visão ou posicionamento do Coletivo, além de ser um nome comercialmente fraco.
Depois de não chegar a nenhuma conclusão resolvemos passar para o próximo ponto: vamos admitir mais gente no Coletivo? A conclusão dessa pergunta foi a coisa mais legal da reunião. Resolveu-se (o Nerito resolveu, eu bati palmas) criar uma distinção entre um coletivo e um “movimento literário”. No primeiro, nós três vamos pensar em publicações e no segundo vamos organizar clubes de leitura, saraus cheio de cachaça e encontros para avaliação e troca de textos que os membros forem produzindo (a gente também pode montar especial pra Porto Seguro). Um barato isso, principalmente porque se aparece alguém no movimento que seja melhor que a gente, tacamos no coletivo e a pessoa ainda vai sentir que nós estamos fazendo um favor pra ela! Maquiavélico e perfeito. Resolvido isso, passamos ao mais importante: escrever o que, publicar o que? Por mais que a conclusão seja simples, a gente gastou um tempo refletindo nisso. Não faço ideia dos custos, sei que não é nada exorbitante, mas não é uma grana que eu tenha no meu pote de moedas. E não sei da Simone, mas Nerito e eu queremos ilustrações, então tudo tem que ser cautelosamente avaliado. Mas partindo do princípio “fodido = fodido e meio”, achamos que o melhor é lançar um livro cada um & lançar um livro com trabalhos dos três. Eu tenho complexo de vira-lata e fico me depreciando o tempo todo, mas dessa vez acho que vai ficar foda! Pelo menos minha mãe vai ter que comprar.
Essa foi a parte um da reunião. A segunda parte da reunião foi complicada demais pra quem não tem conhecimento especializado, então não vou ficar me estendendo. Fomos ao Habib’s fazer um lanche de verdade e discutir profundamente as bases filosóficas da J. K. Rowling, além de iniciar um pequeno ensaio de literatura comparada sobre “as mil e uma noites” (livro), “a espada era a lei”(desenho Disney) e “Cabaré Mineiro” (pornochanchada nacional).
A próxima reunião está agendada, dessa vez vamos levar stakeholders, uma equipe de consultoria japonesa e a Simone, pra facilitar a tomada estratégica de decisões. E apesar do coletivo não ter uma liderança, se você está lendo esse texto é porque além de ser uma pessoa paciente, o Nerito me autorizou a publicar…

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