::Talvez um cachimbo, porque não haicai não é::

Tão íntimo
que nada diz ao outro. Nem a si
Apenas um desabafo

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::Novas tardias resoluções de ano novo::

E a essa altura do campeonato todo mundo deve pensar que eu volto aqui pra dizer que as reuniões do coletivo se intensificaram, cada um de nós produziu doidamente e que estamos em negociação com algumas editoras sobre o conteúdo e datas de lançamento de nossos respectivos trabalhos.
Como consolo, eu acabo de dizer tudo isso, podem ler de novo, caso queiram. Mas nada disso aconteceu e isso é triste e lamentável. De qualquer forma, acredito que os meninos estejam fazendo sinceros progressos e até eu mesmo estou fazendo progressos, à minha maneira, mas como “coletivo”, estamos completamente estagnados. No fim do ano nos afastamos em função de festas, relacionamentos e o diabo e acabamos nem nos encontrando mais, a não ser em função de trabalho (e de uma fortuita intervenção minha pra ajudar a esconder da sociedade fatos extremamente pessoais da fisiologia de certa mulher). O próprio nome “filhote de lobo” só serve de título pra um arquivo do bloco de notas no meu computador (eu gosto de escrever no bloco de notas, que não dá palpites no meu Português) e eu não ouvi ninguém pronunciar esse nome em voz alta.
O que não significa que não falemos em um coletivo e que não tenhamos pensado coletivamente em nossos breves contatos. De fato, nunca me senti tão espiritualmente ligado à Simone e Nerito como agora.
Acontece que ao contrário deles, que continuaram produzindo e procurando oportunidades, eu não consegui escrever nada do início ao fim desde então.
Percebi que se eu queria escrever com eles, precisava me acertar em alguns pontos e esse acertar começou a me destruir enquanto escritor. Eu queria um estilo! Talvez eu sempre tenha tido uma forma minha de escrever, e o Nerito até dava apontamentos disso quando dizia “quando leio seu blog, ouço a sua voz dizendo aquelas coisas”. Mas eu não ouvia. Ou não achava que escrever como converso possa ser chamado de estilo pessoal. Ainda não acho, mas é tudo muito confuso e delicado, então melhor não mexer nessa parte, especificamente.
Comecei várias e várias histórias, mas não tinha domínio do enredo, não tinha domínio das palavras e ao contrário dos escritores que dizem que seus personagens caminham sozinhos, via os meus se sentarem e ficarem me perguntando, com certa irritação: “e então, maluco, esse negócio sai ou não sai?” Isso quando não paravam tudo e gritava pra mim “olha a merda que você me fez fazer!”.
Odeio personagens.
Até que ontem, enquanto estava no ônibus lendo “Neve”, do Orhan Pamuk (muito bom, leiam também), alcancei subitamente o satori. Toda a literatura do Nerito veio à minha mente, tudo que a Simone escreveu veio à minha mente, o livro do Pamuk estava ali na minha mão e eu pensei em Anne Rice, Cortàzar, Jack Kerouac, Sérgio Fantini e em vários outros e tudo estava acessível ao mesmo tempo dentro da minha mente e eu flutuava entre essas coisas até encontrar um lugar vago e esse lugar era destinado a mim. Assim era o satori: eu entre todos eles, sem a sensação de hierarquia, sem as distinções de mestres, colegas, pupilos e inimigos. E o lugar vazio se preencheu com a minha maneira de escrever, a que eu deveria ter e aperfeiçoar. E eu soube com toda a clareza que maneira era essa e tudo que eu escrevi desde dezembro se tornou inútil e vazio e eu não consigo continuar mais essas coisas todas e preciso produzir coisas novas ou começar do zero com as antigas pra que façam sentido.
Meus personagens não conversam comigo. Meus personagens, em verdade, não fazem nada. Quem faz sou eu.
21/04/2012: início do meu ano literário.