::macaquinhos no sótão::

Teodoro se sente desesperado como todo psicótico. Psicótico: aquele que vive uma realidade diferente da realidade dos outros. Idealista.
Teo pensa “Se eu abrir aquela revista em uma página qualquer e encontrar uma grande foto de mulher morena de saltos, isso fará Natália voltar”. Ele nunca encontrou a foto que esperava, mesmo quando apelou para os maiores estereótipos, como a loira com uma lata de cerveja ou o empresário negro com cabelo trançado. O que, estranhamente, colabora com sua psicose…
Teve uma fase em que trabalhava pouco, sempre tentava escapar do serviço para ligar pra casa, ver se Natália tinha ligado.
“Não, Teo, ninguém ligou.”
“Então desliga! A gente está ocupando a linha!”
O emprego durou pouco e ele passou uns bons dois meses sem aparecer na casa velha, ficando só no apartamento da mãe. Ela, muito preocupada, ligou pro antigo patrão, da firma de potes de vidro, e explicou a situação. O sujeito era um capitalista quase insensível, mas sempre adorou o Teo (que trabalhava como uma máquina) e resolveu quebrar o galho. Se ele voltasse lá, readmitiria o menino. Quando ela deu essa notícia, Teo correu lá pra casa de novo.
No segundo dia em que ele estava lá, agindo como quem não quer nada, eu desconfiei. João disse que ele saía ali pela hora do almoço e voltava só depois de três da tarde, triste e louco como uma bibliotecária velha. Ficava bebendo vodka até apagar. No terceiro dia eu estava de folga e fui atrás dele. Descobri que ele estava indo até a Escola da Natália, para segui-la até em casa. Aparentemente era só um doido inofensivo, mas ela estava com o namoradinho e eu previa uma merda pra qualquer momento. Resolvi chegar perto e levar ele pra casa. De modo pacífico, claro.
“Teodoro, caralho! Para de seguir essa puta! Bora pra casa!”
O namoradinho não gostou e se virou pra nós. Era maior que eu, apesar de ser mais novo, culpa dos hormônios de frango. Olhei bem pra ele e pensei “ainda bem que o Teodoro está aqui”, mas disse uma coisa diferente:
“Que foi? Leva a vadia embora logo pra gente acabar essa novela mexicana”
O Teodoro odeia quando eu escracho a Natália, mas dessa vez eu vi um brilho no olhar dele. Ele estava afim de beber o sangue do namoradinho. Eu aceitaria um golinho, mas a prioridade era salvar o Teo dele mesmo.
“Vai, maluco! Sai fora logo!”
O cara estava na dúvida. Na verdade, estava se borrando, mas não queria parecer um covarde. A Natália é uma cretina tão grande que não disse o que qualquer mulher mais ou menos diria nesse momento, que é “vamos embora, amor, não liga.” ou “Vão embora vocês, senão eu chamo a polícia”. Não… ela sentia um prazer doentio em desafiar a masculinidade do menino dela. Ou isso ou pensava que o bostinha tinha mesmo alguma condição de bater em mim e no Teo, que a essa altura do campeonato estava inquieto, com os louquinhos de dentro da cabeça dançando e pulando fogueiras. Resolvi que eu é que ia ter que assumir o papel da fêmea protetora.
“Vamos embora Teodoro, a gente tem que conversar.”
A gente se virou e o namorado deu um passo na nossa direção. Aí quem perdeu a paciência fui eu. Eu aqui, nobel da paz, tentando aliviar a barra do cara e ele não se toca. Me voltei de uma vez e ele estacou.
“Te mandei embora, filha da puta!”
Aí a Natália acordou e pegou o cara pelo braço. Vários estudantes passavam com rostinhos curiosos, mas ninguém tomou as dores do colega, porque provavelmente ele não é colega de ninguém.
Voltamos pra casa velha e eu chamei o João enquanto abria um Presidente. Tentamos conversar com o Teodoro, convencê-lo de que essa obsessão não vale a pena e que mesmo que valesse, a Natália não dá a mínima pra ele. Quando eu digo que “acabou” ele abraça os joelhos e sacode a cabeça. Se recusa a aceitar, mesmo que entenda perfeitamente, por culpa da psicose ou de falta de vergonha na cara. Pergunto por que ele sumiu e fico sabendo da história do emprego.
“Puta que o pariu, Teodoro!” Você veio pra cá seguir Natália e fugir do emprego?! Amanhã você vai voltar a trabalhar, cara!”
Continuamos bebendo em silêncio até João ligar a guitarra e começar o show. Tocamos, cantamos e deixamos o Teodoro praticar. O pior defeito dele é gostar de Engenheiros do Hawai. Ficamos ouvindo a versão dele de Infinita Highway. Uma bosta, bem fiel ao original.
“Só aprende o que não presta, esse menino…”

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