::Interlúdio musical::

A última postagem ficou muito grande, ouçam uma musiquinha pra descansar.
E pra não parecer que eu sou minimamente original, o melhor é dar créditos ao Lucifer Was.

Com vocês…

Anúncios

::Teddy’s sorrow – parte5 e última::

Conheci Teo num bar. Era terça-feira e João tinha ganhado uma grana no final de semana, tocando como músico de apoio na banda de uma cantora de lesbofolk. A ideia era comemorar durante toda a semana, então eu saía do sebo e íamos pra um boteco ali no calafate, perto do metrô. Nesse dia Teo estava lá. O rosto vermelho e inchado, característica dos mal-amados, o braço esticado pela mesa e a cabeça pendendo por cima dele. Na outra mão segurava um copinho de cachaça vazio bem perto dos olhos, como quem espera aparecer uma resposta astrológica oculta na borra de café, ou no ar vazio do copo. Ou na vida. Mas a resposta não vem. E assim que nós nos assentamos e pedimos nossa primeira cerveja, Teodoro (ainda sem nome), se cansou do copinho e o jogou com toda a força contra a parede. Descobrimos que os estilhaços foram se juntar a outros, prova de que aquela não tinha sido a primeira vez. Meio assustados demos uma olhada pro balcão. O garçon (garçon, faxineiro, cozinheiro e dono do boteco, tudo numa única embalagem) respondeu como se fosse muito importante que nós soubéssemos “Ele disse que vai pagar. Estou só esperando pra ver…” e virando a cabeça pro lado dele continuou a dizer, só que mais alto “senão é uzômi pra ele!”. Falou assim, mas tratou de levar outro copinho, mais cachaça e uma cerveja pra ele, sinal de que acreditava piamente que Teodoro ia pagar.
João me lançou um olhar significativo. A verdade é que somos egoístas e não nos importamos com o mundo, com as pessoas ou com a situação política do país. Votamos com cinismo, temos pena sincera de quem reclama que os ônibus demoram e quando rola de ajudar uma velhinha a atravessar a rua, sentimos que estamos contribuindo com todas as políticas de inclusão.
Mas essa postura hipócrita às vezes se abala diante de um mendigo que precisa de um real pro crack ou de um bêbado solitário e triste, como é o caso. A falta de alguém pra conversar é que é o grande mal da humanidade. A gente faz muita besteira todo dia por culpa da merda da solidão. Vai por mim, todo mundo tem pelo menos um caso de assalto que não aconteceu porque o assaltante ficou satisfeito em achar alguém pra conversar.
Fui até a mesa do Teodoro com a mais perfeita cara de Paulo Coelho (faço cara de idiota esclarecido para ser amado pelos imbecis), pronto para dar conselhos e filosofar. E foi isso que fiz. E fiz isso muito bem. Ali foi a primeira vez que tive contato com esse folclore que acabei de registrar para leitores imaginários. Ouvi a história quase toda, depois disse que ele não mudaria por ficar quebrando copos e garrafas. E que ele podia sim recuperar a vida que perdeu (eu pensava na vida antes da Natália, ele pensava na Natália). E que por mais que a cerveja dissesse a ele que ninguém queria seu bem, ele ainda podia fazer amigos e ser amado. Nem eu acredito nisso, mas acho que às vezes é preciso certa dose de ilusão. João tocou violão e nós bebemos juntos a noite inteira.
Mas acho que o primeiro passo pra gente se tornar amigo de verdade foi quando ele deu um soluço e disse “Ela me chamava de Teddy…”
Pedi três doses de conhaque e disse cheio de pompa “Então vamos fazer um brinde à morte do Teddy, esfaqueado nas costas pela mulher que amou!”. Todo mundo brindou.
Até o garçon.
João tocou StairwaytoHeaven na saideira, pagamos a conta e quando íamos nos despedir, Teodoro perguntou se um de nós não daria abrigo pra ele aquela noite. Expliquei que a gente morava na mesma casa e ele ficou me encarando desconfiado, tentando descobrir se éramos um casal.
“Pode quebrar lá em casa, mas sem veadagem!” Teodoro cambaleou, deu um sorriso bêbado e veio andando com a gente. Soubesse que isso ia ser o motivo da primeira briga da mãe dele comigo, tinha mandado ele direto pra casa. Mas eu nem conhecia a velha.
À guisa de conclusão (que linda a expressão “à guisa”, pensei que ia morrer sem nunca usar), posso dizer que Teodoro foi se mudando aos poucos para o sofá da casa velha, contra a vontade da família, que queria ele internado num sítio evangélico. A história dele como namorado da Natália terminou ali onde eu conto que terminou. Mas a história dele com a Natália não. São muitos episódios parecidos que eu não sei se vou ter paciência pra contar. Não vale a pena. Cyro, eu queria ter sua literatura, além do seu pessimismo e sua vontade de compreender os amigos. Isso pra mim, é conclusão o bastante.

::Teddy’s Sorrow – parte4::

Uma vez estava conversando com Ulisses e ele me perguntou se eu sabia que Teodoro era burro. Confirmei. De outra feita, estávamos João, Teo e eu, e de dez em dez minutos eu via João olhando pra cima e balançando a cabeça, com certeza contando até dez pra não dar uma piaba na nuca do Teodoro. Digo isso pra deixar claro o seguinte: Teodoro é uma besta quadrada. Refletir, pra ele, não passa de um negócio que os espelhos fazem. Pedir que ele pare pra pensar (sozinho) antes de agir é garantia de que ele vai fazer alguma coisa errada.
No outro dia, ele se levantou bem cedo e foi trabalhar. Chegando lá, pediu um minuto para seu chefe. Explicou que ainda era jovem, que carregar caixas não era algo que lhe daria o futuro que ele mirava. Disse que o trabalho o afastava da família e atrapalhava com a escola. E que se ele quisesse um emprego que garantisse um futuro e uma família (e a lua de mel na Argentina e os filhos em escolas particulares…) precisava pedir demissão, por mais que gostasse do serviço e do pessoal.
Esse chefe, o senhor Sinval, ficou muito preocupado com Teodoro. Grande cara, ele. Mas infelizmente eles estavam numa empresa, com relações hierárquicas rígidas, prazos e lucro. Ele não estava ali pra dar lições de vida. A família e a escola que se preocupassem com isso. Mesmo assim, explicou ao rapaz que ele provavelmente estava cometendo um erro – um puta erro. Uma cagada fenomenal. Uma merda assombrosa – mas que isso era lá problema dele. Teodoro estava contratado clandestinamente, o que não impediu que o senhor Sinval assinasse um termo de aviso prévio (Sinval, se um dia você ler isso, você é um santo, rapá!) que obrigava o Teodoro a trabalhar mais um mês ao menos. Completou dizendo que caso ele se arrependesse, rasgava o aviso prévio e tudo poderia seguir como antes.
Fico pensando que o objetivo desse aviso prévio era dar tempo ao Teodoro de espalhar a notícia e receber os devidos conselhos. “Não faça isso Teodoro!” estou aqui dizendo isso dois anos depois dele ter feito. E foi isso que todo mundo fez. Reclamaram depois, aconselharam depois. Destruíram (e com razão, acrescento) Teodoro depois. Por quê? Porque ele teve a brilhante ideia de não contar pra ninguém que tinha pedido demissão, antes do fim de seu aviso prévio.
Teodoro entendeu errado a mensagem da mãe, que queria mais era que ele desse um pé na bunda da Natália e continuasse a ser o idiota certinho de antes. Na sua cabeça de apaixonado aquela conversa significava que ele tinha era que se esforçar mais na escola, pra ser um engenheiro ou um desses médicos com uma seringa de botox à mão, com o rabo cheio de dinheiro, que seria empregado em sustentar a vadia que ele queria chamar de esposa.
Faz sentido isso? Claro que sim, desde que a pessoa que tomou essa decisão tenha pais sensatos e uma namorada que o ame. Mas tão logo se desempregou, Teodoro foi explicar à Natália todas essas decisões maravilhosas e esse futuro cor-de-rosa-Disney-show-do-Sandyjúnior e o que aconteceu? Exatamente isso que vocês pensaram. Ela deu um chilique, terminou com Teodoro e foi viver sua vida como se eles não se conhecessem. Teodoro, já na merda, foi procurar consolo com os pais. A mãe deu outro chilique, ameaçou expulsar Teodoro de casa e se trancou no quarto e deixou claro que era ele o motivo da infelicidade daquela casa, do futuro negro que o esperava e da fome na África. O pai… bem o pai não fez nada, como era de se esperar.
Teodoro nunca conseguiu detalhar o que aconteceu exatamente nesse período. Me disseram que quando um sujeito sofre um acidente muito grave, o cérebro bloqueia. Talvez seja isso ou talvez ele se envergonhe tanto da própria imbecilidade que não tenha coragem de detalhar as coisas. Ou ainda, pode ser que quando ele esteja pra chegar nessa parte da história, o nível da cachaça esteja tão alto que ele já não consegue mais conversar.

::Teddy’s sorrow – parte3::

(Verifiquem nos arquivos o início dessa porqueira…)

E como era o namoro dos dois? Era o namoro de todo mundo, com sexo, sorvete, ciúme e – quem diria? – uma cervejinha de vez em quando. Claro que Teodoro não deixou de ser o cara tímido e esquisitão magicamente. Sempre teve muito medo de levar Natália em sua casa, por causa da mãe ciumenta e descontrolada que ele tem. Desconfiava muito dos amigos dela, que ele sabia (e até não devia estar errado nesse saber) que falavam mal dele pelas costas e diziam que ela merecia coisa melhor.
Quinzes aninhos, companheiros! O que pode ser melhor que um namorado com emprego, usando o salário pra malacostumar a amada?
Acho que os dois faziam muitos planos. Deviam fazer, pra levar o Teodoro a tomar as infelizes decisões que acabou tomando depois. Não sei, mas acho que devia ter a ver com casamento, lua de mel na Argentina, filhos criados em colégios particulares. Todo idiota quer casar e ter filhos pra tentar consertar as cagadas que os pais fizeram com eles próprios, mas a única coisa que conseguem é descontar nos filhos as tais cagadas, com juros de geração.
Um namoro assim tão bonito, tão comprometido, acaba ficando meloso. O tempo do Teodoro era quase exclusividade da Natália. Quando não estava com ela, estava fazendo coisas pra ela. Escola era segundo plano, trabalho, terceiro e sei lá se ele ainda lembrava que tinha família.
E a mãe do Teodoro, cada vez mais preocupada com esse namoro do filho, começou a perturbar. Isso porque aquele menino prestativo, calado, trabalhador, estudioso e insosso passava cada vez menos tempo em casa, mais tempo em lugares que ela não sabia onde ficavam e (pecado dos pecados) começava a piorar na escola.
Uma noite, quando Teodoro chegou em casa, encontrou os pais esperando na sala. Deve ter ficado surpreso porque isso era raro, eles normalmente já estavam dormindo àquela hora da noite. Para definirmos a expressão no rosto da mãe, podemos colocar dor e pena em doses iguais, mas acrescentemos duas pitadas de crueldade e uma colher de chá de sadismo puro. Cinismo à gosto. Já o pai estava com seu costumeiro ar encabulado, de quem precisa dar um sermão em que ele não acredita e que, na verdade, ele não tem nenhuma moral pra dar.
No sermão, Teodoro ouviu falar sobre responsabilidades, as prioridades na vida de uma pessoa, sobre a obrigação dever sempre ser colocada antes das diversões. Ouviu os pais reclamarem de sua ausência (menos o pai e mais a mãe), do seu menosprezo com a família (e aqui entra uma elucidativa palestra sobre a importância da família para a formação da sociedade cristã, capitalista e injusta). Teodoro era o pior dos filhos, o pior dos alunos e o pior dos trabalhadores. E era muito novo para colecionar tantos títulos. Os pais terminaram dizendo que esperavam que ele refletisse e tomasse a decisão mais correta e que visasse seu bem estar e a normalidade das vidas de toda a humanidade (onde devemos entender que toda a humanidade seja a mãe do Teodoro). Todos se abraçaram mecanicamente e foram deitar. O pais iam dormir e Teodoro ia passar a madrugada pensando.