::ofício::

O primeiro fantasma se aproximou, me explicou que fora torturado e morto porque pesquisava conhecimentos proibidos. Havia descoberto os nomes de alguns anjos, alguns demônios e conseguia extrair poder do sangue de virgens. Seu conhecimento transformou sua vida em desespero, porque vivia em fuga e transformou sua morte em agonia, uma vez que os nomes que sabia proibiam sua entrada no céu e no inferno. Vivia sua condição de fantasma em angústia perene, sem propósito, apenas observando os que vem e os que vão e sentindo pena dos que, como ele mesmo, não podem concluir as etapas infinitas da existência.
O segundo fantasma disse que era uma mulher e que seu crime foi o pior de todos os crimes, pois começou enquanto ainda vivia e se estendeu ao longo de sua morte. Quando viva, essa mulher foi casada com um homem que era como os outros, a sustentava e espancava. Tinha também um caso com outro, que se servia dela para satisfação sexual e lhe deixava sempre o alívio de uma velada vingança contra o marido. Um dia, por uma razão idiota qualquer, o amante a surrou aos modos do marido. Foram as marcas em seu corpo as delatoras de sua infidelidade. Morreu espancada, várias enxadadas no crânio. Ao tomar conhecimento da continuidade da existência mesmo após o fim da vida, dedicou-se a acompanhar o marido e tortura-lo em sonhos. Ainda que as decisões sejam pessoais, ela carrega a culpa pela decisão pessoal dele de cometer suicídio. Não foi o único a ser tentado por ela.
O terceiro fantasma não me revelou sua história, apenas me fitava com ar de ameaça, como se quisesse estar certo de que uma pessoa viva não pudesse ter contato com o outro lado da existência, com o universo no avesso do universo sem que isso resultasse em pânico. Diante do silêncio dos outros dois, que se postaram com os rostos baixos e assentados de frente pra mim, ele se aproximou e me encarou no fundo dos olhos. Eu sofri junto com ele e senti um medo indefinido do fato de estar vivo e de saber que eu não era eterno e que essa continuidade existencial não tinha qualquer ligação com o que entendemos como continuidade da vida. Ser como eles era ser outra coisa, uma espécie de culpa condensada que era simplesmente uma das possibilidades de continuidade. Sou o que os outros são, ele disse, busco o que todos buscam e por isso escolhi me tornar um carcereiro. Nós temos uma missão para qualquer um que nos ouça e iremos matar os que se fizerem de surdos.
As velas da sala se apagaram todas de uma vez, mas antes que a escuridão dominasse restou o clarão daquelas almas que se levantavam ao fim de nossa primeira reunião. Tão logo sumiram e eu não pude mais enxergar um palmo à frente do nariz, o copo, o portal por onde eu me comunicava com eles, espatifou-se e alguns dos cacos cortaram minhas mãos e meu rosto. Pago com meu sangue o contato e com o medo o ingresso para a próxima reunião. Um dia provavelmente pagarei com a vida.