::alma e destino::

Há uma flor perdida e sozinha em algum ponto da floresta de João. A floresta, quando se olha de muito longe, ou de muito perto, não passa de um jardim. João caminha por ela, escolhe uma árvore e toma assento na sombra. Toca violão em silêncio, acompanhado apenas por zumbidos dos muitos insetos e dos pios sem ritmo dos pardais. Nessas ocasiões, João traz sua garrafa de cachaça, onde descansa uma coral, mansa e inexpressiva como um feto no éter.
João bebe e sua floresta particular vai se tornando mais confusa, cheia, colorida e bela. Aumenta a complexidade das árvores, o mistério dos bichos e todas as sensações. Ele observa atentamente todas essas coisas, pedras musguentas, plantas emaranhadas, teias de aranha, ora muito brilhantes, ora foscas como véus. Ele percebe as diferenças na iluminação provocadas pela presença das árvores colocadas entre ele e o sol. João agora é tão sozinho quanto a flor perdida.
E é bem mais musical, mas muito menos colorido.
Se, por acaso, faz muito calor ou alguma coisa o torna inquieto e ele sabe que já não quer mais estar ali, então se levanta e volta a caminhar. Sai da floresta, sai de seu quintal desorganizado e selvagem, voltando ao mundo comum, o mundo de todos, onde voltará a conviver com todos nós.
João nunca viu a flor que continua solitária em algum ponto da floresta e se ela pudesse de alguma forma reconhecer sua presença, seria através da música, tão diferente de toda a desarmonia dos pássaros, em momentos onde estiveram muito próximos.