::Oh, dia! Oh, céus…::

Não é que eu não queira escrever, sério. Da outra vez o Office, misteriosamente, parou de funcionar. Tentei de tudo que não envolvesse levar num mecânico de computadores. Não funcionou. Passei uns dias puto por não poder acessar os arquivos com os textos que eu estava escrevendo e estavam pelas metades.
Passou a veadagem, resolvi voltar a escrever. Perdi meus dois pen drives. DOIS. De uma vez. Só tenho internet aqui no trabalho, então preciso dos pen drives.
Estou no processo de fazer tudo que não envolva comprar novos pen drives…

PS: acordei essa noite com as coisas se mexendo no meu quarto. Era o Toby, aquele do filme. Ou algo como o Toby. Tinha uma voz assustadora e gutural. Fiquei sinceramente com medo. O pior é que ele, com aquele vozeirão cavernoso de quem ia dizer que minha alma estava condenada, se limitou a contar que as pessoas tem mentido pra mim e me enganado, como loucas. Se ele voltar hoje e me der uma lista com nomes que eu devo eliminar, me interno num hospital psiquiátrico.

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::Marina e a lua – parte 1::

Chega um momento em que ao virar a cabeça para mudar o olhar de direção, as coisas se tornam um borrão terrível e o centro de equilíbrio some e é como se o corpo, desobediente, tentasse todo ele acompanhar seu pescoço e pousar no mesmo lugar em que os olhos. Isso costuma acontecer comigo quando a garrafa de conhaque está pra cá da metade. Entro numa zona onde tudo é confuso, perigoso e muito mais interessante.
Se eu não estivesse sentado, talvez caísse, mas, apelo contrário, deixo o borrão ir tomando novamente a forma da realidade e aqui a realidade é uma generosa fatia dos peitos da Nicole, que saltam pelo decote e se exibem macios e brancos para todos os passantes (não que haja passantes, mas se houvessem, eles olhariam com certeza). Apesar do olhar fixo nela, no batom muito vermelho, nas coxas apertadas no shortinho, minha atenção está na voz de Marina, que conclui, muito bebedamente, um assunto da maior importância pra nós:
“…e isso faz meu medo de ver a lua cair.”
Se Marina tem medo de que a lua caia, eu compartilho esse medo. É preciso temer uma queda lunar como a imagem poética e misteriosa que ela cria. Ela é muito isso, uma menina que cria imagens poéticas com uma naturalidade que faria Rimbaud cortar os pulsos. Quando bebo fico profundamente ressentido de não segui-la por toda a parte, anotando o que ela diz. Deve dizer coisas maravilhosas enquanto trepa.
E Marina conclui seu medo observando uma lua dúbia, quase escondida por nuvens muito escuras. Já são quase quatro da manhã e estamos numa dessas praças perdidas no meio da Pampulha, esperando que um pai ou namorado (pobre namorado) da Marina, que apareça para levá-la. Então eu vou tentar me levantar, vou levantar Nicole, a mulherzinha deliciosa que eu nunca vou comer, e vamos nos arrastar até algum lugar onde possamos esperar um ônibus pra casa velha.
Hoje eu fui um garçom. Um sujeito simpatizou comigo no sebo, me achou muito formal, muito educado e perguntou se eu não tinha interesse em fazer uns bicos pro cerimonial dele. Quem tem dinheiro quer muito ganhar dinheiro. Quem não tem, também.
O negócio era um aniversário de quinze anos, num salão de festas enorme, dividido em uns três ambientes. Como eu era novato, fiquei encarregado do refrigerantes para o ambiente dos jovens. Na teoria, só os convidados maiores de 18 anos poderiam ingerir bebida alcoólica. E mesmo assim, no outro ambiente, o dos velhos. Isso talvez permitisse aos adultos alcoólatras e responsáveis dar conselhos aos pobres bebuns em início de carreira. Ou talvez fosse uma estratégia pra medir as boas e más companhias da filha debutante.
Levei Ulisses, que foi contratado como baleiro. Os baleiros eram formados por um time de rapazes bombados e gostosas de bunda grande, que andavam com bandejas de acrílico alaranjado, levando balas, pulseirinhas, e todo o tipo de parafernália brilhante pra distribuir pros convidados. Ulisses aproveitou a oportunidade para pegar uns doces com o Chico Pereira e vender por lá.
“Tem bala?”
“Tem essa, que é de graça e tenho da de trinta reais.”
“Me dá a de trinta.”
Foi assim enquanto durou o estoque.
Meu trabalho com os refrigerantes era uma espécie de castigo ou trote dos caras velhos do buffet. Eu era o garçom mais mal visto, já que esse negócio de refrigerante sem gás na jarra de vidro só presta na cabeça do dono do cerimonial e dos evangélicos mais xiitas. Todo mundo reclama. Todo mundo reclama e todo mundo aceita o diabo do refrigerante, então eu era um dos caras que mais trabalhava. E as merdas das jarras eram pesadas, mesmo sem o refri, e meus braços vão doer pelo resto do mês.
E se o Ulisses era o traficante oficial da festa, eu me tornei o extra-oficial. Traficava o êxtase do Ulisses e traficava cerveja pros malucos de 15 e 16 anos. O combinado pra cerveja é muito simples: o cara precisa ser simpático, puxar meu saco e nunca dizer que fui eu quem levou a cerveja, mesmo que todo mundo saiba (todo mundo do buffet, pelo menos).
“Você não lembra a cara do garçom e não sabe meu nome.”
“Falou Ismael, fica de boa.”
“Você não sabe meu nome, filho da puta!”
E nessa de servir cerveja, uísque e drogas prum bando de adolescentes ricos, no meio de música eletrônica e luz estroboscópica, a festa foi ficando interessante. Mas mais interessante foi quando Ulisses me chamou e disse (gritou): “Sabe quem está tocando hoje, num bar aqui perto? A Marina, aquela amiga do João!”. Minha certeza de que estava pra viver uma dessas noites que rendem histórias acabava de se concretizar.
“Então assim que a gente conseguir largar aqui, vamos pra esse boteco, falou?”
Ulisses concordou e embolsou mais trinta Reais…