::A solução num coelho::

Vinha tendo problemas com Osmar, um dos meus personagens. Como autor, tenho a obrigação de pensar as vidas deles e solucionar seus dramas, as escolhas deles devem ser a minhas, mas no caso desse especificamente, a coisa está bem grave. Como eu duvido que você saiba quem é o Osmar, vou contar a história dele antes de explicar o problema.
Concebi o Osmar num dia perdido de 2006, pensando num história para crianças. Osmar é uma fada em forma de coelho, ou seja, um coelho gordo e falante. Apesar de ser um personagem simples, sempre foi o mais difícil de pensar e de arrumar enredo. Essa história onde ele nasceu foi só a primeira a ficar incompleta, das muitas em que eu o colocaria. Ele é mal humorado demais, independente demais e muito misterioso.
Resolvi inseri-lo num núcleo de personagens igualmente confusos e psicodélicos. Moram juntos numa espécie de casa viva, que reflete suas próprias emoções e vontades (e muitas vezes, as minhas emoções e vontades). Com ele, vive um homem cujo emprego é passear pelos sonhos dos outros, alterando seus elementos e acrescentando outros. Esse homem se sente o dono do Osmar, porque acha que cuida dele. A estranha relação Homem X animal, onde a gente não sabe quem é mais responsável pelo outro. Junto com os dois há um anjo mudo e estranho que os acompanha. O anjo se afeiçoou ao coelho e parece apaixonado por ele. Mas nenhum deles sabe o que pensa Osmar e o que ele vai fazer em seguida. Isso é um sintoma de que eu mesmo não sei o que se passa com esse coelho.
A última vez em que escrevi uma história desse núcleo de personagens, meu problema começou. Osmar sumiu e eu não sabia onde procurá-lo. O anjo e o humano desconfiam um do outro e a ausência de linguagem os afasta. Nós três nos sentimos perdidos sem a fada e eu caminhei a história toda ao redor dos problemas deles, mas sentindo que faltava ele para que as coisas voltassem a caminhar como deveriam.
Depois disso não escrevi mais. Tentei localizar Osmar dentro da minha imaginação, mas o coelho, definitivamente, não estava mais comigo. Isso às vezes acontece. Continuei escrevendo sobre outras coisas, me dedicando a tudo que deveria, mas persistia em mim o incômodo da ausência dele, como quando uma pessoa querida some e nós não sabemos o que se passa com ela, nem conseguimos notícias certas sobre o que essa pessoa está fazendo. Estava no supermercado há três dias, quando fui assaltado pela repentina volta de Osmar. Ouvia sua voz e sentia de novo sua presença, uma presença que enchia minha imaginação com o cheiro de café quente e forte, que ele aprecia, junto com jazz e maçãs.
Mas ele me pareceu grave em sua volta e ouvi diversas reprimendas. Fiquei com a mente cheia do coelho que me dava conselhos, que criticava minha vida, que discordava da minha postura, que queria que eu fizesse algo diferente e melhor. E ele foi determinando várias das coisas que eu deveria comprar no supermercado. Ele estimulou meu exagero natural e pediu que eu não me acovardasse, que não agisse como uma pessoa mesquinha. Por fim, resolveu me deixar em paz, mas como sou o autor, já sabia de antemão que o sossego não duraria muito tempo…

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::Marina e a lua – parte 2::

A perspectiva de um programa para depois do trabalho me fez mudar um pouco o comportamento. Sempre que podia, passava com a bandeja por outro dos ambientes, que tocava música dos anos 70 e 80 e estava ocupado pelas pessoas que, como eu mesmo, não eram mais adolescentes, mas insistiam em se comportar como se não tivessem notado isso. Nossa divisão de setores não me deixava enrolar demais, mas com todo mundo ficando muito bêbado e louco, minha ausência entre os pirralhos era menos notada. Não demorou muito pra uma das mocinhas pedir um copo de refrigerante e me perguntar se, por acaso, eu não seria amigo dos baleiros. Já sabia que ela estava falando do Ulisses e ofereci guaraná com laranja e uísque. Num instante eu já estava transitando daqui pra lá, conversando com ela e uma amiga, levando recadinhos pro Ulisses arrumando o nosso meio de campo. Seria muito bom ter companhia depois, mas coisa, infelizmente, não passou de uma troca de telefones e uns poucos beijos pelos cantos, escondido dos outros convidados e do pessoal do cerimonial, que nos pagava pra servir cerveja e não pra agarrar as convidadas.
Na prática, éramos dois garçons e nenhuma das burguesinhas ia sair de uma festa na companhia da ralé. Mesmo com a esperança da música cult que elas ostentam que gostam e provavelmente não entendem. Isso sem falar que nós não temos um carro (que elas provavelmente têm) o que nos torna menos que homens diante dessas meninas de cera.
Mas realmente uma pena, eram gostosinhas…
À meia noite todos se reuniram para as homenagens à aniversariante. Valsa, discurso e um vídeo idiota com cenas da infância e pré-adolescência. A menina chora, os pais estão emocionados e alguns dos convidados estão passando pra fase do “desmaiar todo vomitado no banheiro”.
Os caras começam a querer passar dos limites com as baleiras. Conversam perto demais, colocando a mão nas cinturinhas finas delas. Um tio mais exaltado dá numa baleira um beliscão na bunda. A menina arma um escândalo.
Era a nossa deixa.
Tomando as dores da amada colega de trabalho (cujo nome nem sabemos), Ulisses passa a mão numa garrafa e parte pra cima do tio. Dou uma bandejada nas fuças de um sujeito que tinha a intenção de separar. Os seguranças hesitam um pouco, já que a equipe de garçons começa a se mobilizar a nosso favor. A maioria deles queria ter tacado a mão na bunda da baleira, mas estão prontos pra matar o pervertido que fez o que um ou outro deve ter feito na cozinha ou no corredor, se não com ela, com outra.
Passado o primeiro susto, todos os seguranças da festa começam a distribuir safanões entre os convidados e a equipe. A mãe da aniversariante precisa intervir e o pessoal do buffet tira todo mundo de circulação.
A situação é insustentável. Somos ameaçados de processo e cadeia pelo gerente, enquanto os seguranças lambem os próprios bíceps, em jubilosa adoração. Os garçons começam a reclamar do desrespeito com a equipe. A menina diz que vai denunciar o tio. Alguém diz que vai denunciar os seguranças, mas ninguém consegue identificar o amedrontado dono da voz.
Os donos da festa chamam o gerente pra conversar. Não sei o que eles conversam, mas provavelmente não querem saber de polícia, nem de justiça. As fotos tem que estar lindas na coluna social do Estado de Minas (que eles chamam, estranhamente, de caderno de cultura).
O gerente volta, com a maior cara de cu que pode fazer e diz que vai pagar a noite pra todo mundo e que tirando o pessoal da limpeza, o resto está dispensado.
Às duas da manhã, Ulisses e eu somos livres pra procurar pelo bar onde Marina deve estar tocando maravilhosamente seu sax. Assistimos enquanto os convidados se despediam e pegavam seus carros, com expressões de horror e medo. Aqui fora os ricos eram as vítimas. Os flanelinhas sabiam disso melhor que a gente. E enquanto andávamos eu só conseguia pensar em como deveria ser macia e perfeita a bunda daquela baleira gostosa.

O Nerito, que é um sujeito muito mais legal que eu e um dos últimos detentores de um coração puro que ainda caminha pela Terra, me homenageou em seu blog com três selos literários. De acordo com a brincadeira eu deveria mostrar o selo (uia!) aqui, nomear mais 10 blogs, inventar perguntas, postar fotos em roupas íntimas e criar uma nova coreografia pro verão 2013, que já vai acabando. Claro que eu não vou fazer nada disso, vai contra os meus princípios de vagabundagem e preguiça. Mas enquanto lia o texto do nosso amigo e via as referências cuidadosas aos outros blogs e o carinho que ele dispensou com as pessoas que o indicaram, pensei que, de alguma forma, o filho da puta merece todas e cada uma das homenagens que eu ou qualquer outro escritor/blogueiro puder fazer a ele.
Outra coisa que me chamou a atenção foram as tais perguntas que um dos selistas pediu que ele respondesse. E as que ele mesmo tinha que criar pra que os outros tivessem que responder. Como a vaidade é meu pecado preferido, não resisto e coloco as tais perguntas aqui, mesmo sem colocar mais nada que tenha a ver com as homenagens e brincadeiras. É só meu irrefreável hedonismo me obrigando a responder as perguntas de um amigo, como se eu estivesse num talk show e alguém fosse levar em conta qualquer coisa que eu pense sobre o que está sendo perguntado.
E é isso. Nerito, you’re too fucking good! E me ensinou muito sobre literatura e sobre esse estranho ofício de escritor, que escolhemos trilhar. Obrigado.

1. O que você procura quando abre um livro que nunca viu?
Procuro um trecho. Leio aquele trecho como quem busca o segredo da existência, a chave da beleza, o sublime intocado pelas mãos humanas. Meu lado pessimista acha que vou continuar abrindo livros porque nunca achei. Meu lado otimista acha que eu abro um novo livro exatamente porque sei que já achei isso antes e vou continuar encontrando.

2. Você consegue ir direto para o final de um livro?
Sem dramas nem preconceitos. Não leio como ritual, minhas vontades mudam.

3. Quantas vezes você costuma ler um livro que tenha adorado?
Normalmente leio apenas uma. Mas casos como O jogo da Amarelinha ou Moby Dick provocaram releituras. Mas releio trechos com muita constância.

4. O que você acha necessário para estimular uma criança a ler?
Livros em casa, ao alcance das mãos. E ao menos uns três ou quatro livros proibidos. A criança precisa da liberdade de escolher, mas precisa ser estimulada a lutar pelo que lhe é negado. Deixe ela ler o que tiver vontade, mas sacuda “Capitães da Areia” no nariz dela e diga “Esse você não pode ler!”. Deus usou o mesmo truque e hoje nós temos bombas nucleares foguetes. Sem falar no Julio Cortázar. Não fosse a árvore do conhecimento do bem e do mal, nós não teríamos o Julio Cortázar!

5. Se você fosse imaginar duas personagens de livros diferentes se encontrando, que personagens seriam e como se daria esse encontro?
Consigo imaginar vários! Inclusive um meu. Mas um encontro interessante seria entre Silas, personagem do Sérgio Fantini (dos Livros “Diz xis” e “Silas”) e Henry Chinaski, famoso personagem do Bukowski. E é claro que eles iam se encontrar num boteco e é claro que em algum momento se estapeariam por causa de uma mulher ou uma garrafa de cerveja. Silas ia perder, infelizmente. Chinaski dá muita porrada, Silas tem problema de coluna.
De repente me ocorre Hamlet trombando com Dorian Gray num beco dinamarquês…

6. Cite quem você acredita ser um dos grandes nomes da literatura do Brasil.
Grazadeus que é “um dos” e não “O”. Luiz Ruffato. Confesso que tenho pensado seriamente em passear em Cataguases por causa dos livros dele.

7. Você costuma frequentar alguma biblioteca? Caso afirmativo, conte um pouco sobre ela!
Só aquela em que trabalho. Confesso que eu não gosto de bibliotecas, apesar de ser bibliotecário. Gosto de livrarias. Mesmo enquanto era estudante universitário, resisti uns bons 3 períodos antes de entrar numa biblioteca da UFMG. E só entrei quando comecei a me formar contador de histórias. Nunca me senti bem vindo numa biblioteca. E não consigo associar livros a bibliotecas, mesmo sabendo que tem lá um pouco a ver, mesmo que não muito mais que no nome.