::Marina e a lua – parte 3::

“O João vai tocar?”
“Ele não disse. Só contou que ia estar perto da gente, ouvindo a Marina, quando comentei onde era a festa.”
A madrugada é um momento perfeito. Quando estamos andando assim, meio bêbados e meio perdidos na madrugada, consigo me sentir em paz. É um dos poucos momentos que o incômodo constante (com as pessoas, com a cidade, comigo mesmo) me abandona e a ideia de estar vivo não me causa desespero. Isso me parece o tipo de coisa importante pra dizer ao psicólogo. Só não digo, porque não frequento nenhum.
Descendo a Pedro Primeiro, percebo a lua cheia. Não consigo compreender o fascínio que ela causa às pessoas, o devaneio de que a lua comanda as emoções, os cabelos, essa palhaçada esotérica. Mas com certeza é uma cena bonita. A lua escandalosamente amarela, brilhando através de umas poucas nuvens e o fundo escuro. Seria um pecado compará-la a uma mulher, mas se até o Vinícius de Moraes, o grande comedor, comparou, então que se foda. Daqui, lua parece uma dançarina, cheia de véus, no palco do nosso bordel planetário, implorando uma nota de dez reais em troca do seu rebolado perfeito. Senhora lua, eu não consigo alcançar a alça da sua calcinha, fica pra próxima.
As putas de verdade me tiram do devaneio. Elas sempre têm algo bonito pra dizer pro Ulisses. E pela política da boa vizinhança, nós sempre respondemos alguma coisa gentil em troca. Às vezes isso rende uma conversa. São três mulheres, todas aparentando ser mais velhas do que são, todas tentando parecer mais novas. Aproveitamos pra perguntar pelo bar. Elas ficam um pouco confusas e gesticulam muito, até que uma delas aponta o indicador pra cima e grita “Ah, lembrei! É aquele bar esquisito.” E começa a dar instruções. Enquanto ouvimos a explicação, dá pra perceber que Ulisses foi enganado pelo João. O lugar não é exatamente perto de onde estávamos.
Ulisses agradece e oferece um doce pras tias. Duas se animam, mas a terceira recusa.
“É contra minha religião.”
A que deu as instruções balança a cabeça e diz
“Puta evangélica. Dá pra aguentar?”
Elas nos abraçam, dão três beijinhos (porque elas também vendem carinho) e descemos a rua que foi indicada.
Ulisses está calado e eu acho isso muito estranho. Não combina com ele. Só que gosto de andar e pensar, então finjo que não tem nada anormal acontecendo. Me concentro no ritmo dos nossos passos. Me concentro no eco deles, onde não há nada e no sumiço do som quando estamos perto dos poucos bares que ainda estão abertos nessa capital careta, onde até as prostitutas são religiosas. Não costumamos muito vir pros lados de cá. A Pampulha, apesar de ser cartão postal, de ter a universidade e tudo mais, é um dos lugares mais perigosos que já conheci. Talvez por isso Ulisses não converse. Talvez sinta medo e o som dos nossos passos seja uma espécie de alarme. Duas presas que entram cantando no território dos predadores.
Começo a ficar sério junto com ele. E a fazer o que faço melhor, buscar rotas de fuga e imaginar armas improvisadas. Olhos pros portões e imagino quais poderíamos pular, caso um bando de marginais ou de skinheads apareça. Procuro por estabelecimentos abertos, ou com vigias. Procuro por pedras soltas, barras de ferro, vassouras. Claro que sem demonstrar que estou procurando essas coisas. Não quero admitir que comecei a cagar de medo de uma hora pra outra.
E então, a mágica. Começamos a ouvir, no meio da madrugada, o som do saxofone. Ulisses dá um meio sorriso e apressamos um pouco o passo. A música vai ficando mais clara e é tão bonita que dá pra entender porque nenhum vizinho reclama. Devem estar todos fazendo sexo e curtindo o som. Ao virarmos a última esquina damos de cara com o bar no final do quarteirão e a lua de frente pra nós. A música acaba, o som de umas poucas palmas preenche o vazio e então o sax volta. As notas vêm mansas e a cena na minha cabeça fica tão forte que peço Ulisses pra entrar e cumprimentar o povo. Eu preciso ficar sozinho um minuto.
Me sento na calçada, observando a lua cheia, as árvores e as casas. O sax conversa manso quando a voz ataca a letra da música “I know… what the problem is. I know… you.”
E eu fico ali, enlouquecendo com Marina e a lua, deixando que dancem na minha mente, percebendo que a lua é de novo uma mulher que reina no bordel celeste, atraindo todas as atenções, louca pelo meu dinheiro e minha sanidade. Agora a trilha sonora é perfeita pra esse strip-tease. E penso comigo “agora começou”