::a princesa que gostava de princesa::

A mãe de Luana sabe que ela está agitada, porque ouviu a porta bater e os passinhos rápidos da filha pelo apartamento. Sentiu sua presença veloz quando ela passou pela pota da cozinha, mas não virou o rosto para a filha, apenas gritou um “oi” enquanto percebia que a menina entrava em seu quarto e fechada a porta com força, a suficiente para que sua agitação transparecesse, sem, no entanto, bater a porta do quarto como quem acabou de sair de uma briga.

Luana acaba de sair de uma briga.

Com um grande hematoma preto no olho esquerdo e manchas vermelhas de arranhões e outros golpes, ela procura consolo no quarto, no computador, na música e na internet. Ela assiste um vídeo na internet com um clipe grunge produzido alguns anos antes de seu nascimento.

Eu, os olhos que tudo veem e a voz que tudo narra, acho essa uma escolha curiosa.

No vídeo, vários adolescentes se acotovelam numa simulação de festa violenta e os gritos roucos do vocalista se misturam à distorção pesada, mas simples da guitarra. Luana chora pensando em tudo que acaba de acontecer. Seu pensamento está em José Carlos, o Zé, que a chutava com força, enquanto ela se encolhia no chão, protegendo o rosto. Sentindo-se indefesa debaixo dos tênis do Zé, Luana torcia para que aquilo acabasse logo, os chutes, a poeira da rua, o cimento do passeio ralando seu braço, o Zé gritando “sua puta! Some daqui sua puta!” Pareceu durar Três dias e duas noites.

Luana é pequena pra idade, o Zé já com 16 anos é bem maior que ela sem ser nenhum brutamontes. A briga toda, desde antes de Luana cair no chão, não passou de uns dois minutos.

Luana pensava no momento anterior ao de sua queda, quando o Zé, o rosto contorcido pela vergonha e pelo medo, a empurrava e balançava a cabeça numa negativa histérica sem conseguir pronunciar nenhuma palavra. Todo o seu desespero juvenil encontrou uma única forma de expressão: um soco direto na boca da menina, que apesar de ainda não ter caído, deus uns bons três passos pra trás, sentindo os lábios incharem e o gosto de sangue se espalhando pela língua. O rapaz a tinha empurrado como quem demonstrasse que queria que ela sumisse dali, mas quando Luana se virou para fugir, foi agarrada pelo rabo de cavalo e seu rosto foi de encontro a palma da mão do adversário, que num novo empurrão a derrubou. Quando ela caiu, percebeu que o Zé estava com os punhos contraídos, lágrimas nos olhos, o rosto cada vez mais perplexo e avermelhado. Ela estava assustada demais pra reagir ou se levantar, isso deu tempo a ele de avaliar a situação e começar a chutá-la. Luana se lembrou exatamente do primeiro insulto, antes que o pé do Zé acertasse em cheio seu olho e ela passasse a se ocupar em unicamente proteger o rosto. No momento do primeiro chute, Zé gritou “Sapatão!” Ao fundo, os gritos e protestos da namorada do Zé, a Teresa.
Ao pensar nisso, Luana, o rosto dolorido, inchado, sujo de poeira e sangue, o olho escurecido e quase fechado, sentiu um arrepio na nuca. Um arrepio diferente de toda a tristeza e revolta com a qual chegou em casa. Quando se lembrou do primeiro insulto, do ar abobalhado do Zé gritando “sapatão”, se lembrou do momento anterior ao da briga e sorriu.

Somente eu, que narro, assisti ao vivo a cena que nesse momento se desenha na mente da menina. Teresa, a namorada de Zé, mordia o lábio inferior de Luana e depois sussurrava em sua orelha “Minha princesa”. As duas se beijavam e se abraçavam na escadaria da passarela do metrô, quando o namorado apareceu, espumando de ódio.

Luana aumentou o volume do som. Levantou-se e abriu a porta do guarda roupas. Lá dentro um espelho grande mostrava o corpo delicado e machucado da mocinha que começou a se avaliar. Tinha que inventar uma desculpa pra mãe. Tinha que se preocupar com o dia seguinte, o que será que o Zé ia fazer? Juntar os dois, mãe e Zé, num mesmo pensamento, foi terrível. E se ele viesse aqui contar o que aconteceu? Não conseguiu medir o tamanho da catástrofe caso a mãe, evangélica fiel, conservadora e superprotetora soubesse que a filhinha estava por aí -se agarrando-com meninas-comprometidas. As lágrimas começaram a brotar novamente.
Ela fechou o guarda roupas e se deitou. o sal do choro fazia o olho arder. Luana se levantou, apagou a luz, tirou suas roupas e voltou pra cama, dessa vez pensando em dormir/morrer/sumir/se casar com Teresa e ter uma filha linda.

A mãe de Luana sabe que adolescentes passam por fases difíceis. Imagina que alguma dessas pequenas aflições colocou a filha pra dormir mais cedo. Antes que ela mesma fosse dormir, dirigiu à filha suas orações e pediu que o bom Senhor Jesus enchesse o coração das pessoas ao redor de Luana com amor puro e sincero. Desconfio que o bom Senhor Jesus a tenha ouvido. Desconfio que ele, como pastor exemplar de pessoas com cérebro de ovelha, também a tenha conduzido por um caminho diferente daquele que dava na passarela do metrô, pois isso talvez fizesse com que a mãe de Luana se arrependesse de suas orações.

Luana sempre acordava mais cedo que a mãe, mas esperava até ouvir o barulho da porta se fechando -sinal de sua solidão matinal- para sair do quarto. Dessa vez havia milhares de motivos a mais para que ela esperasse a mãe sair. A menina tomou banho, se arrumou e saiu sem comer nada (nunca comia nada de manhã). Desceu apressada a rua de casa, virou a primeira a esquerda, desceu o morro, virou a segunda a direita, rumo à estação do metrô. O horário a fez subir a escadaria da passarela de dois em dois degraus. Seus olhos foram dardejados pelo nome de Teresa, pichado no chão da passarela. Luana olhou pra baixo tentando entender. Percebeu que vários degraus estavam pichados. Desceu as escadarias e começou a ler devagar, enquanto subia, o seguinte bilhete:
Luana
Amo você
minha princesa
da sua princesa
Teresa.

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::Quatro varandas e um canteiro com girassóis::

Nasceu a Marcela. Pouco depois, Isaac. Em algum lugar, com certeza, nasceram Guilhermes e Reginas, Joaquins mais que Osvaldos, Lucas aos montes.  Nasceu Davi e agora descubro que nasceu Nicolas. Vários ainda vão nascer. Já outros não, uns não vingam ou não se formam. Na lista dos não nascidos, conto:
_Pedro;
_Francisco;
_Cecília;
_Luísa;
_Maria (que poderia ser Clara ou Cecília).
Esses, me parecem, foram feitos para não nascer. Não são pessoas e nem possibilidades de pessoas. São menos que personagens, menos que conceitos, pobrezinhos. Acabam sendo memória, mas são memórias irregulares, sempre ajuntadas a mentiras e lembranças de corpos nus.
Aos seres humanos que nasceram, desejo o melhor que se possa desejar. Que tenham fé em si mesmos, que encontrem forças onde quer que procurem, que não sejam solitários esbarrando-se na felicidade dos outros. Aos que não nasceram, somente desejo.