::Lenia, seu texto está aqui::

Você me pediu um texto que te apoie e ajude você a procurar uma força que a gente normalmente não consegue encontrar sozinho. Isso é realmente uma pena, porque eu não acredito nesse texto e sei que você também não. Pelo nosso convívio você já deve ter percebido que eu acredito muito no poder transformador da palavra. Mas não nesse poder mágico, de tirar da sacola um resultado, um efeito e resolver os nossos problemas. A literatura tem duas grandes propriedades (tem várias, mas só vamos falar dessas duas…), ambas diferentes desse objetivo canastrão de dar soluções: a literatura nos distrai e/ou nos incomoda. Às vezes a gente foge pra dentro desse mundo de fantasia, esse universo ficcional onde um protagonista, muito mais legal que a gente, passa seus cagaços e resolve seus problemas, do jeito que queríamos ver os nossos resolvidos. E nos distraímos nas sagas que desenrolam as dificuldades, expõem as mentiras, punem os filhos da puta. O mundo vira de cabeça pra baixo, o universo se descola e os protagonistas partem em busca de Deus, para puxar a barba do velho e pedir explicações. Normalmente eles conseguem. Ao acompanhá-los, nós sentimos que também conseguimos um pouco, afinal de contas, se não lemos, a vida desses caras não avança. Ler e escrever são ações colaborativas do processo de divindade. Um escritor é o Deus do enredo e dos personagens, o criador. Mas o leitor é que é o destino, o fluxo do tempo, o motor da realidade. E ele altera, uma vez que interpreta o destino de modos diferentes. Ler e escrever: ação de Deus.
Mas as coisas podem sair do controle na literatura. Às vezes, o que o texto nos dá, é o vislumbre do todos os demônios que nos cercam, invisíveis. Lemos e nos sentimos nus, à mercê de um mundo cruel e impiedoso, de verdades pesadas demais para que possamos carregá-las. Mas carregamos. É como ver o inferno: um lugar onde se sofrem as torturas tão fortes, que nenhum homem poderia suportar vivo. Mas no inferno o homem não morre, o homem suporta. Lembra do “Raposa”? A gente vê o inferno naquele texto, supostamente infantil. Vemos a dor que nos negamos a aceitar nos contos de fadas. Vemos um personagem que, como única conclusão, percebe que precisa caminhar no inferno para se reconstruir, sem nenhuma garantia de vitória.
A vida, em primeira e última instância, dói. A gente sente dor ao nascer, é a primeira sensação que qualquer pessoa conhece. Não é o amor de mãe. Não é a luz do mundo novo. Não são as supresas e as felicidades de existir. É a dor de se forçar pelas apertadas entranhas da mãe, sem anestesia, sem compreensão do ato, sem entender a mudança do sistema de existência. O amor que nos rodeia irá nos aliviar, mas não resolver esse problema com a dor. O bebê respira mais tranquilo, mas só o esquecimento aplaca alguns instantes dessa dor perene. E esse esquecimento é quase sempre impossível, porque mal nascemos, começamos a sonhar.
Na morte, o mesmo. Dizem de mortes serenas, de velhinhos que fecham os olhos e fazem como computadores, encerram o sistema e se desligam. Nunca vi nada parecido fora da literatura. Lembro dos meus dois avôs mortos. Da minha prima assassinada. Do meu tio por parte de mãe e da tia por parte de pai, ambos infartados. As histórias são de tirar o sono. O último momento é o último momento de dor. Quando um dente está pra morrer, ele dói. Quando você bate o dedinho na quina, dói porque as células morreram. Então só podemos perceber que morrer é dolorido e que, se em algum lugar, alguém realmente fechou os olhos com tranquilidade e morreu, só posso dizer: aí se encontra alguém acostumado a sentir dor.
Em primeira e última instância, a vida é dor.
E aí você, sabendo disso, me pede alívio. Porque se a vida é dor, nós, os vivos, nos ajuntamos para essa guerra, a guerra contra a dor, a saga suprema em busca de alívio. Entre várias coisas, encontramos a literatura. Encontramos a literatura, a cerveja, o amor e o sexo, encontramos nossos vícios, nossos pequenos alívios cotidianos. Vício aqui, quero que você perceba, é uma sensação prazerosa que, mesmo nossa conhecida, acontece como um fenômeno único. Cada livro é único, cada amor é único. Mas os fenômenos se repetem ao longo da vida. O texto tem essa possibilidade de ser único e, mesmo quando nos descontrói, nos joga num abismo sem esperança, está na verdade nos preparando pra cair nesse abismo, ou seja, está nos tornando melhores. Tristes os que buscam a salvação num texto. Não há. Mas há alívio.
Você pediu ajuda à pior pessoa do mundo, nesse quesito, porque você pediu ajuda a alguém que, sozinho, não consegue caminhar. Não tenho forças para suportar a vida. Não estou vivo por mim, estou por vocês. Amo demais toda a existência pra desistir, mas minha força não está num sentido meu, que possa ser compartilhado, está no sentido que é de vocês e que eu absorvo. Daí meu texto não vai ser o consolo, mas a tradução desse vazio que eu enxergo em tudo.
Se há algo que eu possa dizer para ajudar você é: estamos juntos. Em guerra ou em trégua, estamos juntos. Preciso de você, Leninha, preciso de razões pra continuar e você também guarda essas razões. E mais um monte de gente precisa, seus filhos, seus fãs de biblioteca, o pessoal do centro cultural e os parentes que tem que lidar com essa personalidade solta e compreensiva que você tem. Então se recomponha, mulher! A gente fraqueja o tempo todo, mas quando ouve o gongo, senta e toma uma chuveirada, se prepara pro próximo assalto.
Eu saio de casa pra construir um mundo melhor, todo dia. Um dia eu consigo e vou poder desdizer tudo isso que está escrito aqui. E talvez o lance seja esse. Mas isso nenhum texto vai nos dizer, só construindo pra ter certeza.