::à guisa de introdução::

Entrar na cidade anestésica é fugir da pergunta “como entrei na cidade anestésica”. E foge-se dessa pergunta de algumas poucas repetitivas maneiras: folheando as fotos na gaveta da cômoda, abrindo a geladeira e deixando-se hipnotizar pela luz, ouvindo o ronco dos grandes pássaros metálicos que se mistura ao barulho constante de motores. A cidade anestésica foi feita para um tipo de pergunta sem muita forma ou sentido, para um indefinido “por quê?” que ecoa por cima de tudo, por cima do cheiro de fumaça, por cima do gosto forte de cachaça. O “por quê?” é pessoal e não será respondido. Não há ninguém que responda. Somos um exército solitário. Somos milhões de criaturas apáticas que formam milhões de exércitos todos compostos por uma única pessoa.
Na impossibilidade de entrarmos em contato uns com os outros (isolados que estamos pelas paredes dos edifícios) nos contentamos em acreditar que a resposta não importa. E enquanto a mente martela “por quê?” a boca balbucia “tanto faz”. A vida é a repetição do dia de ontem, onde se anexa mais uma noite de insônia, um porre e o choro dos fracos.
E é tão estranho como não nos damos conta disso, deitados em nossas camas tristes.