::Café Viena – versão mundo cruel::

Há algum tempo conheci Dora Delano, éramos ambos leitores de um blog sobre relacionamentos desastrados. Ela própria possui um blog, o “Desventuras Amorosas” (listado no seleto grupo à nossa direita), onde fala de… bem… desventuras amorosas. E da Capes.
Sempre tive um cuidado meio devocional com essa moça. Era simpática, inteligente e, o mais importante de tudo, um dos meus três leitores. Não fosse uma relação virtual, levaria café quente e biscoitos à ela sempre que quisesse vê-la lendo e tecendo comentários sobre o que escrevo.
Graças ao Nerito, a condição dessa interação virtual deu um passo interessante. Meu amigo, ainda mais atencioso e cuidadoso com seus leitores que eu (diga-se de passagem, não sei como ele faz isso, já que tem muito mais leitores que eu. Muito mais!), aproximou-se de Dora Delano rasgando um primeiro véu virtual. Ela apresentou-se à nós pra além dos pseudônimos e de repente eu convivia, através da linha do tempo do Facebook, com uma mulher muito diversa da que eu desenhava no blog.
Enquanto Dora Delano é uma moça insegura (à respeito de si, de seus textos, dos amores e do que esperar da vida), Vivian Matos se mostrou (ainda virtualmente) uma mulher decidida, alegre, vibrante e engajada. Dora Delano tem uma foto que mostra uma mulher bonita e oblíqua, que não mostra os olhos e esconde o sorriso com a mão. Vivian Matos escancara um sorriso moreno e luminoso. Coisa sincera. As opiniões políticas muito semelhantes às minhas faziam com que eu procurasse ler os artigos que ela compartilhava, a curtir as fotos de passeios e festas e continuar, da minha mineira distância, nessa postura de reverência. Não era mais só uma leitora. Eu descobri que tinha uma leitora de alto nível. Alguém que não me leria se não acreditasse na minha literatura.
Há pouco tempo consegui (um pouco por acaso e novamente através da intermediação do Nerito e da Simone) connhecer pessoalmente a Vivian. Ela e o namorado, Pedro. Vieram fazer um passeio por BH e conseguimos assentar num bar pra conversar e beber.
Vivian é diferente de Vivian Matos e Dora. Mas conhecê-la pessoalmente iluminou muito as duas personagens pra mim. Ela é pequena e fala baixo. Os olhos mostram uma grande preocupação em absorver o mundo inteiro, são olhos em busca de compreensão. As mãos, quase sempre entrelaçadas às de Pedro, explicam pra ele e pra todo mundo ao redor que sim, o amor existe e nem sempre se constrói no vazio e termina em desaventurança. Vivian e Pedro formam um casal bonito, desses que lembram a letra de “Leo e Bia”.
Ambos de uma calma pouco comum aos cariocas (já tive minhas temporadas pelo Rio. A cada visita, aumenta a paixão pela cidade), estavam muito mais preocupados em nos ouvir, em saber de nossas caóticas ideias e dos movimentos incertos de cada um de nós por essa BH decadente e em ruínas, do que em falar. Os filhotes de lobo estavam felizes e brincalhões. Queríamos ser os melhores anfitriões do mundo.
Foi uma noite das mais interessantes. O álcool sempre atrapalha meu objetivo de observar as coisas com calma e aprender as pessoas. Acabo me tornando expansivo demais, canastrão demais, com histórias demais pra contar.
Mesmo assim, não pude fugir da sensação de calma e de alegria que o casal transmitia. Na hora de ir embora, quase desci com eles até o hotel, só pra esticar a prosa mais um pouquinho. Mas era tarde. Cariocas em Minas dormem cedo (e acreditam no que vem escrito nos cardápios).
Agora Dora fez um texto que é a coisa mais fofa, comentando esse encontro. E desfazendo as impressões que ela construiu sobre nós, a partir de nossos textos. E pintou os filhotes de lobo brincalhões que somos quando nos ajuntamos.
Aproveito esse momento, Dora Delano, pra dizer a você que não fique nem só com minha aparência literária, nem com a do companheiro de boteco. Até porque vários dos meus amigos me definiriam sem medo como um ébrio  ermitão sisudo. E não se sinta uma caçulinha. Você é mais escritora que eu. Ou tão escritora quanto eu, pra evitar a auto flagelação.
Em função dessa vida louca e impossível de gerenciar (quem apostaria, por exemplo, que naquela noite eu me sentaria pra desenhar na Praça da Liberdade? E que isso fez com que eu chegasse ao centro no momento exato de pegar meu ônibus, sem precisar ficar esperando.), por causa mesmo do ritmo acelerado que te trouxe aqui (você veio pra descansar, não é?) é que eu acredito que não é impossível contar com as companhias de Você e Pedro pra um chopp no Amarelinho, aí no Rio. Quando? Sei lá. citando o Milton Nascimento “qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar”.

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