::tristeza::

No meio da madrugada, o calor de meio dia oprime como uma ditadura. Oprime com o peso de todo o céu, que parece inchar como um grande cobertor de fumaça. O céu é pesado e quente. De repente, sinto que vai chover. Só que a chuva não vem como um alívio. Ela aparece aos poucos, num chuvisco de gotas grossas e espaçadas, grandes bagos de água se arrebentando com escândalo nos tetos de alumínio que cobrem as garagens. Não há, em verdade, nada de alívio. A chuva é um choro como o choro de quem já não aguenta mais, o choro de quem desistiu de lutar, o choro que representa a derrota máxima ou a tristeza amargurada. O chover é cansaço feito de convulsões ritmadas.
Eu observo esse céu opressivo e seus soluços direcionados a nós. Na sala, meu gato está feliz, correndo atrás das mariposas que vieram pela janela. A tranquilidade infantil do meu gato aumenta minha preocupação, por me parecer quase a mesma tranquilidade dos que acham que vai ficar tudo em paz porque agora temos chuva. Não há paz, porque derrotamos o próprio céu de uma forma tão completa que ele parece ter se descoberto vivo, só pra sentir humanamente essa derrota. Resolvo dormir. Preciso me preparar porque não sei se o céu derrotado tem a intenção de se vingar. Apenas desconfio.

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